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É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade

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A man can do what he wants, but not want what he wants.

 

Arthur Schopenhauer

 

Esta frase do filósofo alemão Schopenhauer é um delicioso resumo da teoria da causalidade absoluta. Se a nível da nossa capacidade de tomar decisões poderemos ter a esperança que o processo de decisão não esteja totalmente dependente da causalidade, já ao nível dos sentimentos é mais complicado assumir o nosso livre arbítrio. A decisão é um processo complexo em que existe um grau de incerteza, e admite-se que na mesma situação um sistema derterminístico possa tomar decisões diferentes.

 

Mas coms os sentimentos não podemos admitir o mesmo. Aquilo que sentimos é algo que está profundamente ligado a uma componente física e genética, e, acreditando na causalidade dos acontecimentos, significa que, num dado momento e numa dada situção, não poderíamos sentir algo diferente do que sentimos. Eventualmente poderemos, com a experência, conseguir controlar e dominar alguns dos nossos sentimentos, mas está fora do nosso alcance controlar o que sentimos. Somos uma máquina, e funcionamos como uma máquina.

 

 

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É necessário depois da viagem cristalizar uma versão, do diverso construir o uno, sermos nós a fazer as nossas memórias e não o contrário.

 

Michel Onfray, Teoria da viagem: Poética da geografia

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A realidade são as coisas que não desaparecem quando deixamos de acreditar nelas.

 

Philip K. Dick

 

Ou, noutras palavras, a realidade é aquilo em que acreditamos, a realidade está em nós. Enquanto acreditamos essa é a realidade.

 

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Mas existe esperança para o livre arbítrio. Uma decisão não é o mesmo que existir um comportamento aleatório numa máquina determinista, como provavelmente é o nosso cérebro. Uma decisão é um processo complexo que envolve avaliar um conjunto de premissas para se chegar a uma conclusão ou ação. Para além das premissas, uma decisão envolve ainda avaliar várias opções e quais as consequências futuras de cada uma das opções. A decisão depende também da experiência que tenhamos de decisões semelhantes no passado. Portanto, uma decisão não será um processo que se possa considerar como determinista nem aleatório, mas o resultado de uma avaliação complexa de determinadas premissas e antecipação de resultados futuros.

 

É aceitável que na exatamente na mesma situação uma máquina tome decisões diferentes. Numa determinada situação poderemos avaliar as mesmas premissas e chegar a conclusões diferentes, por opção, por acumular experiência ou por estratégia. Uma máquina não-orgânica, por exemplo um computador de inteligência artificial a jogar xadrez, pode optar por jogadas distintas perante a mesma situação de jogo, em função de estratégias diferentes para atingir o mesmo objetivo, ganhar o jogo. A esperança é que seja esse o mecanismo da decisão do nosso cérebro e, assim sendo, não estaremos prisioneiros do determinismo do seu funcionamento. Pode ser que o livre arbítrio não seja apenas uma ilusão extremamente poderosa e que exista de facto.

 

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No nosso dia-a-dia, raramente duvidamos que somos capazes de tomar determinadas decisões, e de que somos livres para o fazer. Se ficamos a dormir mais 5 minutos depois do despertador tocar, o que comemos ao pequeno-almoço, a roupa que decidimos vestir, o caminho que escolhemos para ir trabalhar, etc. Em cada dia tomamos centenas de decisões e nunca colocamos em dúvida que foram decisões que só dependeram da nossa vontade e que, se assim quiséssemos, podíamos ter decidido de forma diferente. O nosso sentimento de possuirmos livre arbítrio é extremamente forte e raramente é questionado.

 

Mas em tudo que nos rodeia não conhecemos nada que tenha este comportamento. O que acontece obedece a um determinado algoritmo, a um conjunto de regras pré-definidas (quer sejam do nosso conhecimento ou não) e sempre que as condições iniciais são as mesmas o resultado esperado é o mesmo. Se de manhã, quando em levanto ainda ensonado, embato na porta fechada da casa de banho, a porta vai magoar-me. A porta fechada não decide uns dias barrar o caminho e outros dias ser benevolente e deixar-me passar através dela. Se de manhã ligo o motor do meu carro, estando todas as condições reunidas para o motor funcionar, o motor do carro começa a funcionar. O motor não decide começar a funcionar uns dias e noutros não o fazer.

 

Sendo assim, a questão é: porque será o funcionamento do nosso cérebro distinto? Porque aceitamos com tanta naturalidade que decidimos? O funcionamento do nosso cérebro depende de uma miríade de fatores, muitos dos quais não conhecemos, mas estando o nosso cérebro em determinada configuração, será de facto possível decidirmos algo? Ou, nessas condições, o seu comportamento seria inevitavelmente sempre o mesmo? O nosso cérebro não passa de uma máquina física e química extremamente complexa e, tanto quando sabemos, uma máquina não tem lugar para a aleatoriedade. Aparentemente seria possível, para algum ser que tivesse na posse de todos os dados e conhecesse todas as leis físicas, prever cada uma das nossas decisões. O que decidimos é inevitável.

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O homem, estando condenado a ser livre, carrega o peso do mundo inteiro nos seus ombros […]. Ele tem de assumir a situação em que se encontra com a consciência orgulhosa de ser o seu autor, pois os piores obstáculos ou as piores ameaças que põem em perigo a sua pessoa apenas adquirem sentido através do seu próprio projeto […]. É, portanto, insensato pensar sequer em lamentar-se, uma vez que nada de exterior a si decidiu aquilo que ele sente, aquilo que ele vive ou aquilo que ele é.

 

J.-P. Sartre, L’Être et le Néant, Paris, Gallimard,1943, p. 612 (adaptado, Exame de Filosofia 11º ano, 2016)

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Temos que assumir que existe livre arbítrio, que somos livres, portanto não há desculpas. Os princípios morais são absolutos e nada justifica acções incorrectas. Somos responsáveis pelos nossos actos e só nós devemos responder pelo que fazemos. Todos somos responsáveis pelas nossas acções, e temos que estar preparados para assumir as consequências.

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Todos nós descendentos de uma linha de vida, que desde da origem da vida na Terra conseguiu com sucesso reproduzir-se e que a sua descêndencia tivesso também sucesso na reprodução. É inevitável assim que tenhamos em nós uma forte propensão para a reprodução. Os nossos filhos são a única hipótese de imortalidade.

 

A paternidade é um terramoto no nosso posicionamento perante o mundo. A  vida, o  conforto e a  segurança só interessam em função do que isso pode significar na qualidade de vida dos filhos. Ser-se pai é mudar a perspectiva de vida, é sair-mos de dentro de nós, e recentrar a nossa existência. Abandonamos o nosso egoísmo evolutivo, o Eu deixa de ser o centro de tudo e transferimo-lo para a nossa descendência, que inevitavelmente, será a única marca que vamos deixar para o futuro.

 

 

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