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Viver do avesso

28.02.17

Coragem não é construir uma concha em nosso redor. Coragem é mostrar a nossa vulnerabilidade, assumir os nossos medos e, sem conchas ou cascas a proteger-nos, tocar no mundo. A única forma de viver é do avesso, com a alma por fora do corpo.

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Quem não tem o dom a fé tem que enfrentar algo que os crentes têm dificuldade em perceber: é a total ausência do conforto que nos momentos difíceis a crença em algo superior e interventivo, num desígnio ao qual podemos recorrer perante a pequenez e o sem sentido da nossa existência. Simplesmente, não ter a possibilidade de rezar a algo que nos possa ajudar perante a nossa incompreensão pelo que nos acontece. Ser-se não crente é ter que enfrentar a crueza do nosso destino sozinhos, na nossa insignificância. Sem templos, sem rituais, sem ter a quem rezar.

 

Isto a propósito de o Papa Francisco ter criticado recentemente alguns membros da Igreja Católica afirmando que é melhor ser ateu do que um dos “muitos católicos" que considera levarem uma vida dupla hipócrita. Esta afirmação é corajosa por colocar os holofotes num certo tipo de crença de conveniência, em que apenas se recorre a Deus quando nos dá jeito, em momentos de dificuldade. Mas seria mais corajosa, e mais correta, se não estivesse na afirmação implícito que ser-se crente é também uma questão de ser-se melhor do que ser-se não crente. A Igreja tem que saber respeitar os não crentes para poder, em consciência, exigir respeito de todos pelas suas crenças. Os juízos morais não dependem da crença de cada um, dependem apenas das suas ações. 

 

 

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Lisboa, 2017 

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Li recentemente uma entrevista a Mark Curtis, autor do livro “Distraction – Being Human in the Digital Age”, que uma das causas da ansiedade gerada pelas redes sociais é uma consequência de algo que se pode nomear por “assimetria do glamour”.

 

Esta é uma expressão feliz para designar a eterna insatisfação que temos tendência a sentir com o que nos acontece quando comparado com aquilo que entendemos ter acontecido aos outros. Mas aqui temos também que considerar, para além do glamour, um outro género de assimetria que talvez seja mais relevante: a assimetria entre a realidade do imaginário e a realidade no concreto. Aquilo que os outros vivem é geralmente melhor na nossa percepção porque esses acontecimentos existem apenas no nosso imaginário, e neste mundo idealista tudo tende a ser o mais perfeito que no concreto.

 

Este fenómeno verifica-se também entre aquilo que imaginamos e o que vivemos na realidade concreta (imaginar também é viver). Se idealizamos uma viagem de sonho, essa viagem será sempre perfeita no nosso imaginário enquanto que, ao concretizar-se, por mais perfeita que seja, a realidade irá inevitavelmente adicionar-lhe bastantes inconvenientes. A perfeição só existe no imaginário. Assim, a não concretização dos nossos sonhos não nos deve dar motivo de decepção. O nosso imaginário pode ser o melhor dos mundos e a sua concretização da realidade nem sempre será a prerrogativa para a felicidade. Como referiu Fernando Pessoa: “O mito é o nada que é tudo”.

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Lisboa, 2017

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O Homem é o Homem e as suas circunstâncias

José Ortega Y Gasset

 

O Homem define-se essencialmente pela forma como reage perante as circunstâncias. Os ideais que construímos sobre o que somos só se podem concretizar quando confrontados com a realidade, perante as encruzilhadas em que o acaso da vida nos coloca. E é nesses momentos que temos que saber estar à altura do que somos, são esses momentos que verdadeiramente nos definem. O que somos não é tanto como agimos mas como reagimos.

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A dúvida primordial, “Porque é que podendo não existir nada, existe algo”, foi formulada pela primeira vez pelo filósofo alemão Leibniz no Sec. XVII. Não é portanto uma inquietação recente o espanto que causa a existência de tudo o que existe e a complexidade da organização da matéria que permitiu, inclusivamente, a existência de seres conscientes que possam estar a refletir precisamente sobre isto: porque é que existe algo. Não seria muito mais simples que não existisse nada? Ou que, existindo não tivesse o grau de organização que tem? Seria certamente mais simples e provável que, mesmo existindo matéria, esta não passasse de uma sopa desorganizada e amorfa.

 

Ao longo do tempo tem havido várias respostas para esta inquietação, desde da explicação pela existência de Deus, até à explicação científica baseada nas leis do Universo que possibilitam a existência do mundo tal como o conhecemos, e que, por essas leis, não podia ser diferente. No entanto, será sempre possível elaborar a meta-questão que se segue: sim, as leis do Universo são estas, mas não podiam ser diferentes?

 

A dúvida existe porque os nossos cérebros foram capazes de a formular, mas há filósofos que defendem que não se trata de uma questão que faça sentido. Falar do nada absoluto, ou de um universo com leis diferentes, é algo que está em absoluto para além do nosso entendimento, é algo que não pertence ao nosso mundo, e que portanto não faz sentido. Não faz sentido perguntar o que havia “antes” do big bang, pois o próprio conceito de Tempo não existia então. Como refere o filósofo Henri Bergson é uma pseudo ideia, um absurdo, que não tem mais significado do que tentar imaginar um círculo quadrado. Parece ser uma posição razoável, porque procurar o que está fora do nosso alcance está condenado a ser uma busca interminável. Aceitemos então o nosso universo, sem questões.

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Alquimia do medo

08.02.17

Colocados em frente ao incompreensível e à aridez da injustiça, soubeste hoje ter a coragem de enfrentar o destino e a sabedoria de manusear a alquimia do medo para, com cruéis ingredientes, recriar algo de verdadeiramente imortal: o amor

 

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Que no me vean caída. Muerta por dentro, pero de pie. Como un árbol.

 

Los árboles mueren de pie, Alejandro Casona

 

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Quando se está doente é que se percebe como é boa a vida quando se tem saúde. Mas assim que nos curamos da nossa indisposição, logo deixamos de dar valor a estarmos de saúde, para no embrenharmos em preocupações, problemas e ansiedades verdadeiramente inconsequentes. Com a vida é igual. Só não digo que depois de mortos é que lhe vamos achar que não lhe demos o devido valor, porque, como tudo parece indicar, depois de mortos o achar já não nos assiste.

 

Não conseguimos valorizar o simples facto de existirmos. E sabemos, todos o sabemos, que não vai durar para sempre. Como nos podemos dar ao luxo de desperdiçar um único segundo que seja deste privilégio? O facto existirmos o, a extrema improbabilidade de estarmos vivos e conscientes da nossa existência, deveria ser, per si, o único motivo que precisamos para estarmos felizes. Existir é tudo o que precisamos. 

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