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Várias marcas de automóveis, e não só, trabalham para a disponibilização comercial a curto prazo de veículos que se conduzem sozinhos. A generalização deste tipo de transporte, algo que neste momento parece inevitável, vai representar uma revolução no transporte pessoal principalmente ao nível da segurança. Só que conduzir não é uma tarefa eticamente inócua e o surgimento de máquinas autónomas vai colocar um conjunto de desafios não só éticos mas também jurídicos e sociais.

 

Poderão existir situações em que a máquina terá que optar, por exemplo, entre proteger os ocupantes que transporta ou proteger outros utilizadores da via. Sabendo as marcas que os seus clientes são quem compra os automóveis provavelmente que consideram prioritário a defesa da vida de quem viaja no veículo. Eticamente seria mais correto que a máquina desse prioridade à solução que causasse menos danos, independentemente de colocar em risco os ocupantes do veículo para, por exemplo, proteger um grupo de ciclistas que circulasse na estrada. Nesse aspeto a reação de um condutor humano pode variar. É uma decisão instintiva, tomada em décimos de segundos, sobre se tenta evitar o atropelamento colocando em risco a sua vida. Mas a máquina vai reagir de acordo com um algoritmo previamente definido. E esse algoritmo tem decisões do campo da ética, terá que decidir que vidas vai tentar proteger primeiro.

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Com a laicização as regras morais de funcionamento da sociedade têm que gradualmente incorporar a separação entre religião e leis. As leis e regras morais da sociedade terão que refletir a visão do mundo não antropocêntrica pois sem religião não somos o centro do mundo, não existe um qualquer plano superior desenhado para nós ou um sentido de vida que seja exclusivo do Homem.

 

E, de forma semelhante, a laicização implica aceitar também que o que entendemos por "alma" não é nada se sobrenatural nem exclusivo do Homem. Ninguém tem hoje dúvidas que várias espécies animais têm sentido de autoconsciência e capacidade de sentir, o que incluí o sofrimento e o prazer. O que existe são diferentes níveis de consciência, mas não há nada no Homem que não exista noutros animais. As leis e regras da sociedade não podem, cientificamente falando, assumir a existência exclusiva no Homem de algo que nos torne na essência diferentes de qualquer outro ser senciente. Da mesma forma que desmontando um motor não se encontra nele o barulho que faz ao funcionar, dissecando o corpo humano também não se vai encontrar nele o local da consciência e dos sentimentos exclusivos dos humanos, aquilo que nós humanos gostamos de designar por "alma".

 

Assim, uma sociedade laica não pode deixar de assumir duas premissas: 1) O Homem não tem qualquer sentido de vida superior aos restantes animais, e 2) Todos os seres sencientes sofrem. Estamos portanto, eticamente, ao mesmo nível que todos os outros animais da Natureza.

 

Significa isto que, sobre qualquer ponto de vista, o sofrimento propositado e evitável que causamos a animais, nomeadamente para produzir a carne para consumirmos, para efetuar experiências, para trabalho ou simplesmente para exibição ou nosso divertimento é totalmente inaceitável e moralmente indefensável.

 

Em tempos, não muito distantes, a sociedade, incluindo as religiões, aceitava a escravatura como algo natural e perfeitamente aceitável. Hoje a escravatura é algo de inaceitável e seria completamente anacrónico, ou simplesmente ridículo e absurdo, alguém defender o contrário. Da mesma forma, provocar sofrimento a animais para proveito do Homem terá que, um dia, ser algo de moralmente inaceitável pela sociedade.

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Tranquilidade

26.05.17

 

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 Évora, 2017

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Será possível voltar a escrever-se poesia depois de Auschwitz?

 

Theodor Adorno, 1949

 

A questão de Theodor Adorno mantém-se actual. Mas perante o horror sem sentido nem sentimento, perante a crueldade extrema e absurda, perante o ódio irracional, a resposta, meu caro Theodor, só pode mesmo ser uma: a poesia.

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Refere Miguel Real no livro “Nova teoria do Pecado” que o pecado assenta sobre dois pilares fundamentais: o medo e a culpa. Aqui o medo deve entender-se não como o medo primário do sofrimento, da doença ou da morte mas como o meta-sentimento de ter medo do medo. Foi o medo de ter medo a causa fundadora da imaginação Humana, a capacidade de inventar um mundo à medida do Homem, foi a origem das divindades e regras sociais, em resumo, da nossa capacidade única no mundo animal de pensar o que não existe. E adiciono a estes dois pilares do pecado cristão um terceiro: o castigo. O julgamento final e a ameaça da punição divina após a morte. Medo, culpa e castigo são pois os pilares fundadores da nossa civilização.

 

Com a laicização da sociedade hoje o pecado cristão será talvez um conceito em extinção, mas os seus três pilares, medo, culpa e castigo mantêm intocável a sua importância. Sofrer em vida para ser recompensado após a morte é ainda hoje o alicerce das sociedades no mundo, mesmo que a componente religiosa, ou divina, se esteja lentamente a desvanecer da equação. Porque o imaginário é o que rege a Humanidade e permite a manutenção da ordem social. O hedonismo puro nunca permitiria que as sociedades humanas tivessem construído uma rede de sentido subjetivo, imaginário, que teve como consequência o total domínio do Homem sobre os restantes seres da Natureza.

 

Livro: “Nova teoria do pecado”, Miguel Real

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Where is the graveyard of dead gods? What lingering mourner waters their mounds? There was a time when Jupiter was the king of the gods, and any man who doubted his puissance was ipso facto a barbarian and an ignoramus.  But where in all the world is there a man who worships Jupiter today? And who of Huitzilopochtli? In one year - and it is no more than  five  hundred years ago - 50,000 youths and maidens were slain in sacrifice to him. Today, if he is remembered at all, it is only by some vagrant savage in the depths of the Mexican forest.

 

(...)

 

Speaking of Huitzilopochtli recalls his brother Tezcatilpoca. Tezcatilpoca was almost as powerful; he consumed 25,000 virgins a year. Lead me to his tomb: I would weep, and hang a couronne des perles. But who knows where it is? Or where the grave of Quitzalcoatl is? Or Xiehtecuthli? Or Centeotl, that sweet one? Or Tlazolteotl, the goddess of love? Of Mictlan? Or Xipe? Or all the host of Tzitzimitles? Where are their bones? Where is the willow on which they hung their harps? In what forlorn and unheard-of Hell do they await their resurrection morn? Who enjoys their residuary estates? Or that of Dis, whom Caesar found to be the chief god of the Celts? Of that of Tarves, the bull? Or that of Moccos, the pig? Or that of Epona, the mare? Or that of Mullo, the celestial jackass? There was a time when the Irish revered all these gods, but today even the drunkest Irishman laughs at them.

 

 (...)

 

They were gods of the highest dignity - gods of civilized peoples - worshipped and believed in by millions. All were omnipotent, omniscient and immortal.

 

And all are dead.

 H. L. Mencken

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Menir dos Almendres, 2017

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Alma de poeta

18.05.17

 

Conversávamos ao jantar sobre o facto de a minha filha de 12 anos ter começado recentemente a deslocar-se de autocarro sozinha:

- “Já estás crescida, já andas de um lado para o outro sozinha”

- “E isso tem algum mal?”

- “É bom por umas coisas e mau por outras”

- “O que tem de mau?”

- “É o papá que está a ver a sua bebé a crescer” – intromete-se o seu irmão de 9 anos.

 

Poucos dias antes tinha dito esta mesma frase (sem que o meu filho estivesse presente). Sinto que a minha filha está a crescer demasiado depressa, o tempo avança irremediavelmente, cada vez mais rápido. O meu filho, com o seu instinto natural para os sentimentos, consegue ler o que sinto com uma profundidade desarmante. Tem alma de poeta o rapaz.

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Uma amiga perdeu recentemente o bebé no início da gestação. Considerando as dificuldades que teve para engravidar (teve de recorrer a várias tentativas de fertilização, com um enorme desgaste emocional) creio que não terá a coragem para voltar a tentar.

 

Cada um de nós representa uma linha de vida com milhões de anos que, de antecessor a antecessor, nos levaria até ao primeiro organismo vivo deste planeta. E sempre que um ser vivo morre sem deixar descendência essa linha de vida quebra-se irremediavelmente. Na vida do nosso planeta existiram incontáveis linhas de vida e apenas uma porção infinitamente pequena dessas linhas vida chegou até aos dias de hoje. Todos nós temos nas nossas costas o peso de todos os nossos antepassados.

 

Por este motivo sinto sempre profunda tristeza quando alguém, apesar de o desejar, não consegue ter filhos. Não questiono a opção de cada um de querer ou não querer ter filhos, mas querê-lo e não o conseguir, seja por motivos físicos, sociais, financeiros ou qualquer outro, deve ser devastador. O nosso instinto de reprodução é certamente algo de profundo em nós, inscrito nos genes, afinal todos os nossos antepassados tiveram esse instinto. Suponho que seja uma dor profunda, um sentimento de amputação que chega do âmago do nosso ser com origem nos nossos mais antigos antepassados. Há sentimentos para os quais nos faltam palavras, e este é um deles.

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Inesperadamente cruzei-me com uma analogia interessante sobre o motivo da existência de consciência e sentimentos no livro Homo Deus – Uma breve história do amanhã, de Yuval Harari. Refere Harari que a consciência e os sentimentos seriam como o barulho que o motor faz para impulsionar um avião. O objetivo do motor é apenas impulsionar o avião e o enorme barulho que faz nessa tarefa não tem qualquer utilidade nesse objetivo. No entanto, é uma consequência, que estritamente não seria necessária, do funcionamento do motor. Da mesma forma, a vida existe porque, por mutações diversas e acasos infindáveis, foi conseguindo evoluir de forma a reproduzir-se até hoje. E os que são melhores a sobreviver até deixar sobrevivência que também consiga reproduzir-se são os que tiveram maior sucesso. O “objetivo” da vida é conseguir reproduzir-se mas aparentemente alguns dos mais eficazes nesta tarefa desenvolveram um sentido de consciência e sentimentos. Será um acaso, uma consequência não necessária para o objetivo, mas que, e isso não podemos negar, existe em cada um de nós qpesar de não sabermos exatamente do que se trata. Como refere Yuval Harari a nossa consciência e sentimentos seriam apenas “poluição mental” gerada pelo funcionamento do nosso corpo.

 

Livro: Homo Deus – Uma breve história do amanhã, Yuval Harari

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