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Vivemos numa era em que a informação é uma matéria-prima com um valor incalculável. O volume astronómico de informação que constantemente fornecemos é colocado ao serviço de poderosos algoritmos que se dedicam a minerar, depurar e lapidar a informação até se obterem preciosas pepitas. Algoritmos cada dia mais poderosos, alimentados cada vez com mais informação que nós fornecemos voluntariamente e a custo zero, conseguem literalmente saber mais sobre nós do que nós próprios. Conseguem antecipar os nossos movimentos, saber o que estamos a pensar comprar, o que vamos necessitar em breve, para onde nos deslocamos e qual o caminho que escolhemos, se estamos de saúde ou doentes, felizes ou tristes. Enfim, basicamente tudo. E com que objetivo? Fundamentalmente consquistar tempo da nossa atenção para nos vender algo.

 

Os dados são o novo petróleo e esta matéria-prima é fornecida por nós, voluntariamente e gratuitamente, numa troca não explícita por aplicações que colocamos nos nossos smartphones que nos acompanham para todo o lado e com acesso a todas a informação que neles guardamos. Coletivamente comportamo-nos como os indígenas das américas que com a chegada dos primeiros conquistadores europeus trocavam o seu ouro por contas de vidro sem valor.

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Os invisíveis

28.07.17

Existem seres humanos que, estando excluídos dos limites do que é considerado como a normalidade da vida em sociedade, são tratados como se fossem invisíveis. Um exemplo são os sem-abrigo, que vivem nas cidades como fantasmas vivos, como que invisíveis a quem por eles passa. O desconforto que o seu sofrimento provoca faz com que sejam ignorados coletivamente, o seu falhanço é também o nosso falhanço, que pretendemos esconder de nós próprios continuando imperturbáveis com as nossas vidas.

 

O comportamento da sociedade perante a presença dos seres humanos que nos incomodam, que nos fazem questionar o direito ao nosso conforto e as suas consequências, será semelhante ao de uma mãe que, ouvindo o seu bebé, a chorar coloca a música mais alta para não ouvir o choro. Se não vemos o problema, não existe problema.

 

Nos últimos anos surgiu nas sociedades europeias uma nova classe de invisíveis: os refugiados do norte de África. Perante a tragédia de milhões de pessoas que tentam fugir de uma vida sem esperança, arriscando tudo numa viagem louca e desesperada, a sociedade comporta-se como se eles não existissem, tentando ao máximo ignorar o seu sofrimento. É uma espécie de acordo tácito entre todos com os serviços mínimos para garantir a sua recolha, vivou ou mortos, e o resto a sociedade que os tenta ignorar na medida possível. No Mediterrâneo, o mar berço da cultura ocidental, onde por estes dias de Verão turistas se banham nas suas águas cálidas, e que tudo fazem para conscientemente ignorar que estão a mergulhar num verdadeiro cemitério de seres humanos desesperados.

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Desilusão no sentido literal é perder uma ilusão. Será algo de positivo portanto, a dura realidade é sempre preferível à doce ilusão. Mas nem sempre. Uma desilusão é também o sentimento de que alguém ficou aquém da nossa expetativa, que falhou o que se esperava. Mas todos nós, humanos e falíveis, temos momentos em que desiludimos os outros e, também, a nós próprios. Não significa isto que andemos iludidos, mas falhamos momentaneamente e humanamente. A palavra desilusão é utilizada em dois sentidos e portanto insuficiente para destrinçar a suave diferença entre a desilusão no sentido de decepção, triste mas momentânea, com uma falha humanamente aceitável e a outra desilusão, no sentido de desengano, triste mas definitiva e clarificadora, por andarmos enganados e finalmente conseguirmos ver a realidade.

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É importante, diria mesmo, fundamental, comemorar o que de bom a vida nos dá. E não só.

 

Quando era adolescente recordo-me de uma viagem automóvel em que seguia toda a família. Era eu que conduzia porque tinha tirado a carta recentemente e estava a ganhar experiência na condução, quando subitamente na autoestrada rebenta um pneu. O carro rodopiou pela autoestrada e depois de embater nos rails de um e outro lado, escapando por mero acaso ao tráfego, imobilizou-se na berma, virado em sentido contrário ao da circulação. O carro ficou severamente danificado de ambos os lados, mas em condições de prosseguir viagem, depois de substituído o pneu. O que verdadeiramente me marcou nesta viagem foi, depois de termos chegado ao destino, o meu pai ter aberto uma garrafa de champanhe para comemorarmos o facto de estarmos todos vivos e de saúde. O que para a maioria seria visto como um infortúnio, para o meu pai foi um dia digno de comemoração, pois as consequências poderiam ter sido muito mais devastadoras.

 

Nesse dia recebi do meu pai uma lição de vida: é importante saber reconhecer e celebrar o que de bom nos acontece. Lembrei-me desta lição de vida porque hoje também tenho motivos para celebrar. Só que celebrar não é andar numa perseguição constante de prazer imediato. A melhor forma de celebrar é nunca esquecer de como é boa a vida e como temos que aproveitar, com sentido e profundidade, cada segundo desta extrema improbabilidade que nos aconteceu: estarmos, mesmo que por um fugaz momento, vivos e conscientes.

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No mundo empresarial, na sociedade de consumo e modelo ultra-liberal das democracias ocidentais, é assente no princípio que as empresas existem exclusivamente para dar lucro. O “mercado”, essa entidade imaginária e abstrata, é que define as regras. O lucro é o alfa e ómega, e tudo é permitido em seu nome. Mais, muitas empresas consideram que investir é, per si, algo de meritório. O investidor, que agora se denomina recorrendo ao imaculado conceito de empreendedor, surge como uma espécie de super-herói de capa esvoaçante ao vento que se destaca da turba como o defensor do nosso estilo de vida, o paladino da sociedade de consumo, o arauto da felicidade prometida.

 

Mas bondade do investimento não pode ser inquestionável se esse investimento não for efetuado com uma perspetiva de ética e de responsabilidade social e ambiental. A extração pura e simples de lucro da sociedade, sem respeitar as todas as pessoas envolvidas e o ambiente, não é um bem. Os fins nunca podem justificar os meios.

 

Uma empresa é uma ficção em nome da qual se extrai riqueza da sociedade. Mas o fundamental é: as pessoas e sociedade são as bases que sustentam e justificam qualquer empresa, não o inverso. Por conseguinte as empresas também têm uma forte responsabilidade social. Não é portanto exigir nada de extraordinário esperar que uma empresa se comporte de forma ética e responsável com todos. Infelizmente, o “mercado”, essa ficção, submete-nos com outro critério: o lucro. Sacrificar lucro em nome da responsabilidade social e da ética deveria ser algo normal, exigível e considerado como justo e natural. O que podemos fazer? Na voragem do consumo é preciso ter calma e discernimento, as nossas escolhas não são inócuas.

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A magia da cor

17.07.17

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Águeda, 2017

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O pensador Zygmunt Bauman definiu o conceito de “modernidade líquida” em que um dos aspetos é a incapacidade da sociedade consumista de se fixar, numa ânsia de estar sempre à procura de algo mais, que é simultaneamente o próprio fundamento do sistema consumista. Para garantir a sua própria sobrevivência a mão invisível não cessa de nos empurrar  e, tal como quem anda de bicicleta, temos que pedalar para não cair.

 

Vivemos assim numa sociedade em que o conceito de felicidade não é um estado, é uma procura. As pessoas procuram a felicidade como o navegador que persegue o horizonte sem nunca o atingir. É preciso mais, ganhar mais, gastar mais, ter mais, mostrar mais. E nunca é o suficiente. O consumidor é feliz enquanto existir a possibilidade de continuar a procurar a felicidade.

 

Só que o fundamental é o que se perde nesta vã perseguição: o tempo. Esse é cada vez menos, e menos especialmente para o que precisamente é o mais importante para a felicidade sólida: os sentimentos, a partilha, a reflecção, o auto-conhecimento ou o tempo para, simplesmente, sentir em paz a passagem do tempo.

 

Livro: A arte da vida, Zygmunt Bauman

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A renúncia é a libertação. Não querer é poder.

 

Bernardo Soares, Livro do Desassossego

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O mais importante é a cada momento ter a noção de que estamos vivos e conseguir estar à altura desse acontecimento efémero e extremamente improvável.

 

Primeiro parágrafo de "Breve história de quase tudo" de Bill Bryson:

 

Bem-vindo. E parabéns. Estou encantado com seu sucesso. Chegar aqui não foi fácil, eu sei. Na verdade, suspeito que foi um pouco mais difícil do que você imagina. Para início de conversa, para você estar aqui agora, triliões de átomos agitados tiveram de se reunir de uma maneira intrincada e intrigantemente providencial a fim de criá-lo. É uma organização tão especializada e particular que nunca antes foi tentada e só existirá desta vez. Nos próximos anos (esperamos), essas partículas minúsculas se dedicarão totalmente aos biliões de esforços jeitosos e cooperativos necessários para mantê-lo intacto e deixá-lo experimentar o estado agradabilíssimo, mas no qual não damos o devido valor, conhecido como existência. Por que os átomos se dão ao trabalho é um enigma. Se você não é uma experiência gratificante no nível atômico. Apesar de toda a atenção dedicada, seus átomos na verdade nem lhe ligam – eles nem sequer sabem que você existe. Não sabem nem que eles existem. São partículas insensíveis, afinal, e nem estão vivas. (A ideia de que você se desintegrasse, arrancando com uma pinça um átomo de cada vez, produziria um montículo de poeira atômica fina, sem nenhum sinal de vida, mas que constituiria você, é meio sinistra.) No entanto, durante sua existência, eles responderão a um só impulso dominante: fazer com que você seja você.

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O verdadeiro luxo é conseguir viver em paz com o tempo que passa, ser dono do nosso tempo e conseguir usufruir do tempo em plenitude, sem pressas, sem angústias. Estamos a desaprender o simples prazer de usufruir do tempo que passa. Ao invés, creio que a maioria de nós, que vivemos no sistema consumista, nos sentimos constantemente como que a ser empurrados por uma mão invisível que nos impele a correr contra o tempo, seja em trabalho, seja em lazer. Provavelmente essa mão que sentimos será a mesma mão do suposto equilíbrio do capitalismo de Adam Smith.

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