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Uma vez sonhei que tudo o que existia era nada. Nada é nada. Não existia matéria nem tempo. Nesse sonho abriu-se um buraco dentro de mim, uma ausência total, um abismo negro que me deixou vazio de mim. A incoerência de conseguir sonhar sobre um Universo que não existe deixou-me uma desconfortável sensação de estranheza, uma angustia incomum, como se o facto de eu o conseguir pensar tornasse a minha (suposta) existência em algo profundamente inverosímil e racionalmente impossível de aceitar. Não fosse o facto de o meu cérebro me dizer o contrário, teria assumido nesse momento que eu não existia. A morte deve ser isto.

 

Este sonho foi um retorno inconsciente da questão fundamental de toda e qualquer dúvida: Porque é que, podendo não existir nada, existe algo?

 

No texto “Is the Universe a conscious mind?” de Philip Goff, professor de filosofia na Universidade de Budapest, o autor defende a teoria de que o existe uma consciência holística do Universo como forma de justificação para a sua existência improvável. O Universo é definido por um conjunto de constantes físicas, que definem a interação entre as partículas. O motivo de essas constantes terem o valor que têm, e não outro, não o sabemos. Sabemos que terão sido forjadas nos primeiros instantes do Universo e que se essas constantes tivessem outros valores o Universo seria totalmente diferente. E que sendo diferente muito provavelmente não permitiria a existência de vida, qualquer tipo de vida, já para não referir a nossa existência e o desenvolvimento da auto-consciência.

 

Os exemplos citados por Goff incluem:

  • A força nuclear forte tem um valor de 0,007. Bastava ser um pouco inferior, por exemplo, 0,006, o Universo não teria nada para além de hidrogénio.
  • Se a massa de um quark fosse superior num fator de 3 o universo seria apenas hidrogénio.
  • Se a massa de um eletrão fosse superior num fator de 2,5 o Universo não teria nada mais do que neutrões.
  • Se a força da gravidade fosse ligeiramente superior, as estrelas seriam formadas com menos matéria, logo teriam um período de vida inferior. Nesse universo uma estrela típica teria um período de vida de 10 000 anos, em vez de 10 000 milhões como ocorre neste Universo. Um ciclo de vida das estrelas substancialmente mais curto significaria que o tempo da estrela não seria suficiente para a criação dos planetas e o surgimento e evolução da vida.

 

O físico Leo Smolin estimou em “The life in Cosmos” que, considerando as conjugação dos diversos fatores que permitiram que o nosso Universo seja como é, que a probabilidade de surgir um Universo com as características do nosso seria de 1 para 10 elevado a 229. Esta ordem de grandeza indica que a nossa existência está muito para além de uma improbabilidade, é tão extraordinária que está para lá da sorte, do acaso ou da coincidência. É tão estranho que é algo que necessita de uma explicação.

 

Quem está dotado com o dom da fé não terá dificuldade em explicar: seria Deus. Mas isso é apenas elevar o nível da dúvida, porque o que explicaria então a existência de Deus? A teoria do multiverso (existindo infinitos Universos, a existência de um Universo com as características do nosso não seria uma improbabilidade) será outra solução. Infelizmente esta resposta está fora de alcance do nosso conhecimento, o nosso Universo é o nosso limite absoluto.

 

Teremos então que aceitar que a explicação do motivo de existir algo está fora do nosso alcance? Seria de facto estranho que a complexidade do Universo fosse na exata medida das possibilidades de compreensão do nosso cérebro (ou vice-versa).

 

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