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É fácil cair na tentação da húbris e considerar-nos superiores às leis da natureza. Quando inevitavelmente a punição chega, somos reconduzidos de deuses a animais, a nossa alma torna-se um lugar escuro e apertado. O que nos resta? O presente, o nosso efémero infinito.

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Tal como só na doença, é que conseguimos dar o devido valor à saúde, parece que com a infelicidade nos acontece o mesmo. Só nos momentos em que estamos infelizes conseguimos compreender como, afinal, éramos felizes anteriormente. Somos realmente limitados a avaliar o sentimento de felicidade do momento. E nos momentos em que o céu desaba sobre nós, sem uma réstia de luz ao fundo, que saudades temos desses momentos que podíamos olhar em frente e ver, e que éramos felizes e não o sabíamos.

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Medo do nada

12.10.17

Por vezes o futuro transforma-se num nevoeiro negro que, subtilmente e sem permissão, começa a alastrar para o nosso presente, toldando os nossos dias. Nesses momentos exige-se, mais do que nunca, o foco no agora. O presente é o nosso único infinito e há momentos em que o futuro, esse nada, consegue ser uma sombra sobre os nossos dias. Não o permitirei, seria a vitória do inexistente sobre o que existe.

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Somos prisioneiros desta dimensão temporal impelidos a viajar irremediavelmente em direção ao futuro. Passageiros involuntários de um comboio que ruma ao desconhecido. Viver o presente é a única alternativa, mas nem sempre fácil de utilizar. Há momentos em que o desejo é que o Tempo interrompa o seu fluxo e ficar parado no momento. A usufruir o presente, sem os nevoeiros do futuro.

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O amor e o desejo são sentimentos frágeis que se podem estilhaçar facilmente se não forem manuseados com extremo cuidado. E se, por descuido, distração ou inação, um sentimento se quebra o efeito é irremediável. Se os danos não forem graves ainda se pode, se existir vontade e paciência, tentar colar os múltiplos bocados em que ficou estilhaçado, mas por mais perfeito que seja este labor de artificie o resultado final nunca será exatamente igual ao sentimento primordial. Ficam sempre marcas, imperfeições, cicatrizes que o tempo pode disfarçar mas que nunca cura. Quando se quebra um sentimento o nosso mundo nunca mais volta a ser o mesmo.

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Ser-se adulto é estar-se sozinho, sozinho perante as nossas decisões e sozinho na responsabilidade das suas consequências. Não temos em quem delegar as decisões da nossa vida. Não temos desculpas para o que fazemos ou deixamos de fazer. Isto não é necessariamente mau, com a coragem necessária conseguimos encontrar na responsabilidade uma beleza obscura muito própria, mas cansa ser-se adulto a tempo inteiro. Há dias em que anseio desesperadamente de uma desculpa para conseguir explicar-me porque faço o que os outros esperam de mim, em vez de fazer aquilo que eu esperava de mim.

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Alma de poeta

18.05.17

 

Conversávamos ao jantar sobre o facto de a minha filha de 12 anos ter começado recentemente a deslocar-se de autocarro sozinha:

- “Já estás crescida, já andas de um lado para o outro sozinha”

- “E isso tem algum mal?”

- “É bom por umas coisas e mau por outras”

- “O que tem de mau?”

- “É o papá que está a ver a sua bebé a crescer” – intromete-se o seu irmão de 9 anos.

 

Poucos dias antes tinha dito esta mesma frase (sem que o meu filho estivesse presente). Sinto que a minha filha está a crescer demasiado depressa, o tempo avança irremediavelmente, cada vez mais rápido. O meu filho, com o seu instinto natural para os sentimentos, consegue ler o que sinto com uma profundidade desarmante. Tem alma de poeta o rapaz.

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Há sentimentos que não são possíveis de partilhar, não há palavras suficientemente poderosas para representar o que sente a alma, não há símbolos que possam projetar uma sombra que seja da realidade. As palavras foram inventadas para motivos práticos, para as minudências do dia-a-dia, só os poetas lhes conseguem ocasionalmente extrair o sentimento para que não foram feitas, como o escultor extrai a estátua do bloco de pedra. Nesses momentos, os que não têm alma de poeta estão irremediavelmente confinados com seus sentimentos, isolados do Universo, sozinho, o Homem e as suas circunstâncias. É nestes momentos que o corpo chora.

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No budismo existe uma distinção profunda entre os sentimentos de compaixão e de piedade. Compaixão é fazer nosso o sofrimento dos outros, é considerar os sentimentos de todos os seres sencientes como se fossem nossos, assumindo verdadeiramente o lugar do outro e ajudando os outros como se nos estivéssemos a ajudar a nós próprios, é a equidade entre o "eu" e o "outro". A compaixão é um sentimento fundamental de todos os budas, em que a felicidade só é atingida através da compaixão. A verdadeira felicidade é ajudar os outros, sendo portanto a compaixão um sentimento de duplo sentido, pois dá felicidade a quem a recebe e a quem a dá. Já a piedade é um sentimento baseado no medo. No medo de que o sofrimento do outro nos possa acontecer a nós. A piedade assume uma diferença entre o “eu” e o “outro” que a compaixão não admite e não confere felicidade nem ao objeto da piedade nem a quem a sente.

 

Esta distinção, depois de interiorizada em nós, faz-nos pensar: o que estou a sentir perante o sofrimento no mundo será compaixão ou piedade?

 

Livro: O Livro tibetano da vida e da morte, Sogyal Rinpoche

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A felicidade não é muito mais que a capacidade de estarmos de bem com a passagem do tempo, sem estarmos angustiados com o passado nem ansiosos com o futuro, estando em paz com a passagem do tempo. Conseguir viver o momento, usufruindo totalmente o agora. O que não é pouco.

 

Tenho o sentimento que o tempo está a passar demasiado depressa, como areia que nos foge por entre os dedos. Tudo acontece demasiado depressa, e receio não estar a ser capaz de usufruir o momento, incapaz, por inépcia ou preguiça, de atribuir prioridade ao que verdadeiramente é importante. A angústia de saber que o tempo tem uma única direção e que cada segundo desperdiçado nunca mais poderá ser recuperado.

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