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Na origem da povoação de Marialva esteve um povo lusitano conhecido pelos Aravos. O seu nome terá a sua origem na palavra Aravor (alta colina) que refere o local que hoje se conhece como Marialva, onde foi fundado um castro pelos Túrdulos no séc. VI a.C, e que deu mais tarde deu nome ao povo, os Aravos. Ao longo dos tempos vieram outras culturas, os romanos, que batizaram a aldeia de Civitas Aravorum, os godos, os árabes, que alteraram o nome para Malva, e os cristãos. Foi o rei Fernando Magno de Leão que, após a consquista aos mouros em 1063, deu o nome de Marialva.

 

Em Marialva sente-se o peso da  história. As pedras do chão estão moldadas ao passar do tempo e dos homens que insistiram em viver nestas paisagens rudes e pedregosas. Em cada passo que damos sobre quelas pedras não podemos deixar de pensar sobre as estórias, as alegrias, tristezas, vidas e mortes que testemunharam. Foram companheiras da evolução cultural humana deste tempos imemoriais e continuarão a resistir ao tempo muito para lá da existência da Huamnidade.

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Marialva

02.08.16

Do alto do monte o que mais impressiona é o silêncio profundo. Pressente-se ao longe, lá em baixo, a atividade usual dos seres humanos mas não nos chega dela qualquer vestígio de ruído. No remanso do fim de tarde até os pássaros e as cigarras respeitam o silêncio. A algumas centenas de metros vê-se o Castelo de Marialva, ruína que teimosamente continua a resistir aos milénios, rodeado pelas velhas casas de pedra da antiga aldeia. Ao longo de milénios de convivência entre a paisagem e o Homem, todas as pedras nos remetem para homens ancestrais que arduamente extraíram sustento desta terra dura e que lentamente se adaptaram formando uma única entidade: a paisagem e o Homem moldaram-se mutuamente. As casas não se distinguem das pedras do chão.

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Depois da viagem há o trabalho de cristalizar uma memória. Escolher o que consideramos importante recordar, para que a memória não fique dependente das vias misteriosas do nosso inconsciente. É um trabalho laborioso e constante, de filigrana, de delapidação de uma pedra bruta, que demora o seu tempo e não pode ser apressado. Desta viagem tenho memórias de paisagens profundas, de pedras com o peso da história que se adaptaram à passagem do Homem ao longo de milénios e conseguiram resistir ao esquecimento do tempo. E de dias de calor extremo e estados de espírito contraditórios. Matéria difícil de delapidar, vai dar o seu trabalho para conseguir obter uma pedra límpida, bela e verdadeira.

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Depois da viagem é necessário cristalizar uma memória. De tudo o que vivemos temos que fazer uma terrível escolha: o que recordar e o que esquecer. É certo que o esquecido nunca o é verdadeiramente, muitos anos depois, inopinadamente, podemos conjurar memórias há muito julgadas perdidas. Mas a escolha do que queremos recordar pode ser feita por nós, em vez de deixar essa tarefa entregue aos desconhecidos meandros do nosso inconsciente. Construir uma memória, eleger o que recordar, garante-nos o privilégio de escolhermos criteriosamente o que não queremos esquecer. 

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Viagem, o plano

07.07.16

Depois da ideia, mais tarde, algumas vezes muito mais tarde, eventualmente surge a oportunidade da viagem, de concretizar um sentimento que habita dentro de nós. Planear uma viagem é uma arte, é gerir um equilíbrio entre a anarquia da improvisação e a ditadura do planeamento. O resultado da viagem é um compromisso meticuloso entre informação, planeamento e improvisação.

 

Conhecer o destino para saber interpretar o que vamos ver e para melhor compreender o que nos rodeia é fundamental. Também para saber o que conhecer, a rota da viagem, o que é importante ver, implica um esforço de conhecimento prévio: leituras, conversas, investigação. Depois entra-se numa fase mais fina, a definição de etapas, de itinerários, a elaboração de uma cronologia planeada. Mas é fundamental saber quão fina queremos esta análise, é preciso saber quando devemos parar o detalhe, para não tornar a viagem num enfadonho e previsível cumprimento de um roteiro pré-definido.

 

Planear a viagem faz já é a própria viagem. Parte do prazer da viagem está no seu planeamento. E as ferramentas que a tecnologia agora colocam à nossa disposição, que nos permitem estando em frente a um computador ter literalmente acesso a todo o mundo, tornam o planeamento da viagem numa verdadeira etapa da viagem.

 

E se a viagem frequentemente desilude, o seu planeamento nunca o faz. Não há calor ou frio, mosquitos, turistas, estados de espírito ou contratempos. Planear uma viagem é construir, e também uma forma de viver, a viagem perfeita.

 

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Viagem, a ideia

06.07.16

A viagem começa a nascer dentro de nós, ainda antes de termos consciência da sua existência. É algo de difuso, um sentimento ténue que se começa a formar: um destino nasce dentro de nós. De onde surge esse destino? De um livro, uma referência num artigo, uma conversa com amigos, uma fotografia, uma memória de uma viagem anterior, um prato que se saboreia, um sonho, um sentimento, um instinto. As origens da escolha do destino são diversas e insondáveis. Umas vezes lentamente outras de rompante, viagem constrói-se dentro de nós, ganha forma e cresce, como a planta que nasce da semente. Até que, um dia, tal como a planta floresce, a viagem ganha urgência. Nasceu a viagem dentro de nós.

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Quando se inicia uma viagem? Quando fechamos a porta de casa? Quando, ainda em casa e meses antes da partida, fazemos o seu planeamento, decidimos etapas, investigamos culturas e hábitos? No momento em que o destino germina em nós? Não existe um único momento de início de uma viagem. Uma viagem vai-se construindo, primeiro como uma ideia de destino que se apodera de nós, depois como algo imaterial e difuso que começa lentamente a ganhar forma, até ao momento em que, eventualmente, a viagem acontece. Mas não é certo que uma viagem para existir tenha que acontecer realmente. E, de resto, também não existe um momento em que a viagem termina. Já muito depois de regressarmos a casa, viagem continua a existir dentro de nós, nas memórias que cristalizamos, nas aprendizagens que absorvemos, em tudo o que deixou em nós. Qualquer viagem do passado continua viva e pode retornar a nós, acontecendo novamente. Uma memória, um cheiro, um sentimento, um sabor, um ambiente. A viagem vive em nós.

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O livro A teoria da viagem: Uma poética da geografia do filósofo francês Michel Onfray é um pequeno e delicioso texto sobre a viagem e a importância pessoal e civilizacional do acto de viajar. Está escrito com uma linguagem profunda e complexa, que proporciona uma leitura prazerosa e com vários níveis de interpretação, ao jeito de uma prosa poética. Nem todas as opiniões do autor são partilhadas por mim, nomeadamente na questão entre viajar sozinho ou acompanhado ou do esforço extremo, do sofrimento, como método de se atingir um objectivo. Mas é um daqueles livros que gosto de ter como companhia e que, até pela sua dimensão, é ideal para viagens. Pode e deve ser lido e relido que em cada leitura consegue retirar um prazer distinto.

 

A teoria da viagem: Uma poética da geografia, Michel Onfray

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Viajar é diferente de fazer turismo especialmente no sentido em que o viajante pretende conhecer o local para onde se desloca, imergir no destino abdicando do ar que respira, abandonar a sua zona de confiança. O turista nunca, em momento algum, pretende sair da sua bolha conforto. O viajante abandona o seu mundo, o turista viaja com ele.

 

O viajante tenta ver o mundo com olhos de principiante, esquecendo a formatação que a sua educação lhe incutiu. Viajar é pretender ser o destino, é ver e sentir tudo como pela primeira vez. Libertarmo-nos dos condicionalismos culturais sabemos que é tarefa impossível, mas  ao viajante será, de todos, o que mais perto estará de o atingir. 

 

A tragédia do viajante é a explosão do turismo e a globalização das útlimas décadas. O que o viajante vê não é o destino mas aquilo em que o destino se transforma quando é observado. Tal como no Princípio da Incerteza de Heisenberger, também aqui a observação altera o comportamento do observado. O turismo degenerou o seu alvo, criando algo que não é genuíno e impossibilitando o real objetivo do viajante.

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A viagem acontece, não pelo local que se percorre, mas pelos olhos com que se olha. Quando nos  dispomos a sair da nossa bolha, o tem mais relação com a atitude do que com a geografia, os nossos sentidos ficam alerta e reparamos em pormenores que nos passam despercebidos na sonolência da rotina. Reparamos em outras gentes, outras culturas e outras formas de vida. Observamos as pessoas, como falam, como se vestem, o que comem, as suas conversas e os seus gestos. Como somos todos tão diferentes e como somos todos tão iguais. Recebemos uma sabedoria valiosa: que o mundo é afinal maior que as nossas vidas. Conseguimos, enfim, tocar o mundo. Viajar é assim a forma mais completa de educação.

 

Ao olhar um mapa e ver os nomes enigmáticos de cidades, aldeias, montanhas ou rios, as estradas que traçam percursos,  questiono como serão as pessoas que lá vivem, como serão as paisagens, a que cheirará o ar. Gostava de sentir o ambiente desses locais mas sei que, quase certo, nunca os conhecerei. Cada Homem tem a sua lenda, o seu sonho por cumprir: o sonho de viajar, de ser nómada como os nossos antepassados, sem destino e sem pressas. Mas, tal como as árvores, os Homens também podem ganhar raízes.

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