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Não contesto minimamente que há necessidade de moderar a intervenção pública de quem não partilha os valores da tolerância, da equidade e do laicismo e da utilização de argumentos baseados em preconceitos. No debate público vivemos tempos em que o “politicamente correto” se impôs. Mas a realidade raramente é simples e esta mordaça autoimposta do politicamente correto está gradualmente a assumir proporções em que a restrição na linguagem pode facilmente entrar em contradição com a realidade ou, o que é mais grave, tornar-se limitadora da liberdade de expressão e de pensamento.

 

Recentemente foi notícia em vários países um memorando interno de um funcionário da Google em que se defendia que existe justificação para os cargos relacionados com tecnologias de informação serem maioritariamente ocupados por homens, isto porque, defendia o memorando, existirem diferenças biológicas entre os sexos em que maioritariamente as mulheres se interessam mais por áreas de relacionamento humano e artísticas e o homens por questões mais técnicas. Ou seja, o seu argumento é que a ausência de mulheres nestas funções não se deve a algum filtro imposto sobre o género feminino na progressão nas carreiras nesta área, mas sim a um desinteresse genuíno das mulheres em seguirem funções relacionadas com tecnologias de informação. É uma reflexão fundamentada que, concorde-se ou não, não é ofensiva nem discriminativa. O resultado? Esta questão interna de uma empresa foi notícia em todo o mundo por ser considerado sexista e o funcionário acabou por ser despedido da sua empresa. E assim o politicamente correto fez mais uma vítima.

 

Onde devia existir um debate de ideias, com argumentos racionais e intelectualmente honestos, e que podem obviamente ser rebatidos nos mesmos termos por quem não concorde, existe agora uma fronteira, o politicamente correto, que estamos todos, não apenas no debate público, impedidos de passar. O politicamente correto tem uma função na sociedade mas creio que se está claramente a entrar em áreas que extravasam de forma verdadeiramente irracional o seu papel.

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