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rua do imaginário

Porque existe algo em vez do nada?

Porque existe algo em vez do nada?

rua do imaginário

25
Set20

Fraga do Puio

Quando nos aproximamos de Miranda do Douro destaca-se de imediato o edificio da Sé Catedral, verdadeiramente imponente em toda a sua grandeza. A mota ficou estacionada no Largo do Castelo (Lhargo de L Castielho em língua mirandesa) e percorremos as ruas principais da zona dentro de muralhas. Toda a zona do centro histórico se encontra impecavelmente arranjada, a maioria das ruas reservada a peões e, não fosse o calor que se fazia sentir naquela hora, o agradável passeio teria sido bastante mais demorado.

 

Resolvido o almoço seguimos para um outro miradouro, o da Fraga do Puio, Peinha de l Puio em mirandês, na aldeia de Picote, uma bonita aldeia quase dependurada nas arribas do Douro. O miradouro é fabuloso, com vista sobre um gancho do rio Douro e as suas incríveis ravinas. Nele foi construída uma plataforma sobre as falésias com chão de vidro, que inevitavelmente provoca algumas vertigens e fotos sempre espetaculares. Mas, talvez por ser um miradouro mais turistico, no momento em que lá fomos estavam vários visitantes, o que dificulta o usufruto tranquilo da vista e, talvez o mais importante, do seu silêncio.

 

A palavra “miradouro” é aqui duplamente bem aplicada, pois é precisamente a vista do rio Douro que eles nos permitem desfrutar. No entanto, ao contrário de todo o sentido que nos possa parecer ter quando estamos a desfrutar das vistas do rio Douro, a palavra não tem origem no nome do rio. A origem está no sufixo de origem latina “-douro”, ou “-doiro”, que, neste caso, significa "local destinado a determinada ação" (outros exemplos são "comedouro" ou “lavadouro”).

 

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Centro histórico de Miranda do Douro

 

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Sé Catedral

 

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Na fraga do Puio

 

 

24
Set20

São João das Arribas

A ronda transmontana tinha atingido o seu apogeu, o ponto mais a norte da viagem, e iniciávamos o rumo a sul. Ficou para trás Gimonde e o Parque Natural do Montesinho e vamos agora para um outro parque natural, o do Douro Internacional. Seguimos pela estrada nacional N218, mais uma estrada recheada de deliciosas curvas e paisagems esplenderosas. Foram tantas as estradas fantásticas que percorremos nos últimos dias que já começamos a ter dificuldade em lhes dar o devido valor, o prazer de viajar de mota é o novo normal para nós nestes territórios. Foi uma certa sensação de dose excessiva que quase nos deixa incapazes de saborear alguns destes momentos. Mas, sabendo nós que após esta viagem nos esperam meses seguidos de estradas utilitárias, de imediato nos focamos novamente no prazer daqueles momentos.

 

Seguimos para Miranda do Douro com uma breve paragem no Vimioso para um breve descanso e um café. Apesar de ter sido uma visita muito curta, Vimioso deixou boas impressões, de uma vila tranquila e bem organizada onde se destaca a sua imponente igreja matriz.

 

Quando nos vamos aproximando de Miranda do Douro, notamos de imediato as estranhas placas com o nome das localidades em duas línguas: o português e o mirandês. Estamos agora em pleno território com duas línguas oficiais e é muito interessante ver o mirandês escrito em vários locais. O mirandês é uma lingua oficial de Portugal que tem origem no asturo-leonês, ao contrário do português que tem o seu berço no galego. Ainda antes do almoço em Miranda dirigimo-nos a Aldeia Nova, Aldinuoba em língua mirandesa, para conhecer o miradouro de São João das Arribas, a poucos quilómetros de Miranda.

 

O miradouro de São João das Arribas permite-nos saborear a plenitude do que são as arribas rochosas e vales profundos por onde o Douro desliza tranquilo. É o mesmo rio Douro que uns dias antes nos tinha encantado mas agora as paisagens são totalmente diferentes. Ao contrário dos vales suaves e domados do Douro vinhateiro temos agora a natureza selvagem, pura, rugosa e intocada. Aqui o labor do Homem não se atreveu a transformar estas escarpas, que se mantêm inalteradas, esculpidas somente pela natureza e pelo tempo. E mesmo junto ao miradouro existem vestígios de um castro da idade do ferro, a recordar-nos que estas terras agrestes são povoadas, em hamonia, há muitos milhares de anos.

 

Uma vez mais é o silêncio que mais nos impressiona. Silêncio telúrico, que emana profundeza daqueles vales rasgados ao longo de milhões de anos, um silêncio avassalador que, de imediato, nos invade a alma e nos tranquiliza a mente. Para quem vive numa cidade é verdadeiramente impossível usufruir de um silêncio com esta profundidade e só quando o ouvimos compreendemos a falta que ele nos faz.

 

Pairando sobre o silêncio, enormes aves de rapina no seu voo planado, tranquilo mas predador, conferem uma beleza misteriosa a estes céus.

 

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Em terras bilingues

 

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A natureza selvagem do Douro Internacional

 

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O silêncio que se consegue ouvir

 

22
Set20

Aldeia de Dine

Após o agradável passeio matinal na tranquila e bucólica aldeia de Rio de Onor regressámos a Bragança e estacionámos a mota dentro do castelo, mesmo junto ao edificio medieval ícone da cidade, o Domus Municipalis. Almoçámos de forma excelente e tranquila num pequeno restaurante dentro das muralhas do castelo, a Tasca do Zé Tuga. Nesse momento ainda não havia qualquer plano para a tarde desse dia e foi, debruçados sobre o mapa, que reparámos numa aldeia com um nome curioso que ficava no fim da estrada N308-3, perdida em pleno Parque Natural do Montesinho. Não tinhamos qualquer informação sobre esta aldeia mas pareceu-nos ser um bom passeio, e foi assim que decidimos ir à aldeia de Dine.

 

Foi portanto uma escolha absolutamente caual que nos levou a descobrir uma das mais fantásticas estradas que percorremos por estes dias. A estrada N308-3 que termina na aldeia de Dine é plena de curvas maravilhosamente encadeadas, quase que a um ritmo musical, não demasiado lentas, com um piso em estado perfeito, sem trânsito, enfim uma estrada mais que perfeita para ser usufruída de mota. Sempre acompanhados, é claro, pelas paisagens maravilhosas do Montesinho, onde a árvore dominante é o castanheiro, árvores imponentes e belas, que nesta altura do ano se apresentam carregadas de ouriços de castanhas, muito bonitas nos seus dois tons de verde, o das folhas e o dos ouriços.

 

Chegados à aldeia de Dine, o local onde a estrada acaba, ou começa, tentámos visitar duas das atrações descritas nesta aldeia: os antigos fornos de cal e a Lorga de Dine. Assim que estacionamos a mota, num pequeno largo rodeado de casas de pedra maravilhosamente conservadas e cheias de canteiros floridos, uma senhora de idade que ia a passar inicia conversa connosco e logo nos informa que não conseguiriamos visitar o Lorga ou o seu pequeno museu, por a sua amiga que acompanha estas visitas estar hospitalizada. Tentámos ir a pé sozinhos encontrar os referidos fornos de cal, só que um engano no percurso levou-nos a percorrer um bonito trilho pedestre em pleno bosque do Montesinho. Uma vez mais, valeu a pena andarmos perdidos. Regressámos à aldeia, tomamos o caminho certo e finalmente encontramos os antigos fornos de cal, estruturas circulares de pedra  onde o calcário era transformado em cal através da calcinação, processo em que camadas alternadas de lenha e pedra de calcário eram colocadas a arder lentamente, durante vários dias, até se produzir a cal.

 

Posteriormente descobririamos que a Lorga de Dine é uma pequena gruta calcária com vestigios de ocupação humana do calcolíico e da Idade do Bronze, havendo também um pequeno centro interpretativo com alguns dos objectos recolhidos nesse local. Foi uma pena não nos ter sido possível visitar estes locais, certamente teria sido muito interessante.

 

Em Dine sentimos que estávamos no verdadeiro local onde a estrada começa, e seria impossível não recordarmos aqui o maravilhoso poema de um só verso de Mário Cesariny: “Ama como a estrada começa”.

 

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Casas na aldeia de Dine

 

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Forno de cal na paisagem do Parque Natural do Montesinho

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Castanheiros plenos de ouriços

 

21
Set20

Rio de Onor

No planeamento que fizémos da viagem este dia de estadia em Gimonde, seria a única vez que ficariamos duas noites no mesmo local, estava reservado para uma grande ronda por trás-os-montes, com passagem por várias localidades transmontanas. Sabemos bem que os planos são feitos para serem alterados, e foi o que fizémos. Em vez de seguir o plano que nos levaria a fazer muitos quilómetros nesse dia, optámos por ususfruir de um dia mais tranquilo e conhecer algumas aldeias do Parque Natural de Montesinho, já que estávamos instalados mesmo às portas deste parque natural.

 

A aldeia de Rio de Onor fica a cerca de vinte e cinco quilómetros de Bragança percorridos numa estrada muito agradável, não muito retorcida e com vistas amplas para as paisagens do Parque Natural de Montesinho. Escolhida como uma das sete aldeias maravilha de Portugal, era uma candidata mais que óbvia a receber a nossa visita. Famosa por ser uma aldeia que é dividida pela fronteira, sem dúvida muito bela, construída nas margens calmas e verdejantes do rio que lhe dá o nome, casas típicas de pedra castanha e telhados de lousa negra. A maioria das casas estão bem conservadas e nota-se que os residentes, que devem ser escassos, têm orgulho na beleza da aldeia e preocupam-se em a manter bonita e florida para os visitantes que recebe. É uma das últimas aldeias comunitárias, o que significa que o trabalho com os terrenos e rebanhos é partilhado por todos, tem ainda um moínho de água e um forno comunitários e existe inclusivamente uma língua própria, o rionorês. Foi curioso passarmos a fronteira no nosso pequeno passeio dentro da aldeia e verificar que em parte da aldeia as placas com os nomes das ruas são escritos em português e noutra zona da aldeia o são em castelhano. Aproveitámos até para atravessar a fronteira de mota e ficar em Espanha alguns segundos, somente para fazer a estreia da mota em viagens internacionais.

 

É impossível visitar estas aldeias e não pensar sobre qual será o seu futuro. É recorrente encontrar nas aldeias remotas do interior de Portugal casas abandonadas, outras que se nota estarem fechadas há muito, eventualmente sendo apenas utilizadas durante as férias, e muitas, muitas casas com cartazes de venda. A população destas localidades diminuiu imenso nas últimas décadas. Da geração que saiu já poucos regressarão para viver nas aldeias, para além de alguns dias de ferias anuais. Ficaram os mais idosos, a sobreviver com base em pensões e numa agricultura de subsistência. Entretanto esses idosos vão desaparecendo deixando as aldeias vazias e as casas ao abandono. Não existindo já crianças que cresçam nestas povoações será inevitável que dentro de uma ou duas gerações estas aldeias fiquem irremediavelmente abandonadas. Recentemente surgiram no entanto novas formas de povoação destes territórios abandonados que lhes trazem alguma vida. As plataformas que permitem o aluguer de casas para uso turístico, o que dinamizou a recuperaçãode muitas casas, e aqueles, essencialmente estrangeiros, insatisfeitos com a vida exigente e artificial das cidades e que procuram um regresso a uma vida simples, um sentido de comunidade e contacto com a natureza, vindo re-povoar estas terras remotas. São estes os motivos da esperança de vir a ser possível evitar em alguns casos que, mais tarde ou mais cedo, aldeias inteiras caiam no total abadono.

 

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As casas vaidosas de Rio de Onor

 

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Represa de água para o moinho comunitário

 

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Por terras de caretos, Património Cultural Imaterial da Humandidade (Varge)

 

18
Set20

N304

Viajar de mota por estes recantos de Portugal e não aproveitar para percorrer o mítico troço da estrada nacional N304 que ladeia o Parque Natural do Alvão até Mondim de Basto seria algo que me iria deixar um peso na consciência por muito tempo. Assim, ao deixar as paisagens património mundial do Douro vinhateiro em direção ao coração de trás-os-montes fizemos um desvio para percorrer esta estrada maravilhosa, plena de curvas amplas e encadeadas e com uma paisagem a perder de vista sobre montanhas.

 

O dia de viagem iniciou-se com o retomar da N222, desta vez entre o Pinhão e a Régua, um suave troço de estrada que acompanha a margem esquerda do rio Douro, mas com algum movimento a que já não estávamos habituados depois de alguns dias a viajar em estradas praticamente desertas. Foi na Régua que nesta viagem atravessamos pela primeira vez o rio Douro e iniciamos o trajecto rumo a Terras de Basto. Em Santa Marta de Penaguião uma vez mais o GPS resolve indicar a estrada mais retorcida possível e dirige-nos para uma estrada regional que atravessa o coração da Serra do Marão, em alternativa à, agora na moda, estrada N2 que nos poderia ter levado ao mesmo destino de forma bastante mais tranquila e mais rápida. A travessia do Marão foi efetuada numa estrada de montanha incrivelmente retorcida, plena de curvas, ganchos e ziguezagues. Uma estrada muito lenta, deserta de trânsito e com uma paisagem tremenda, com os picos rochosos da serra a imporem a sua imponência sobre a nossa pequenês. Houve momentos em que parecia estarmos perdidos em alguma estrada dos Alpes, tal a grandeza dos picos de rocha nua que nos rodeavam.

 

Foi depois de termos percorrido, literalmente, as voltinhas do Marão que encontrámos o início do troço da N304 do Parque Natural do Alvão. O troço está assinalado com uma placa num enorme marco de pedra, tal é o seu vedetismo. É sem dúvida uma das mais belas estradas do país com curvas que parecem ter sido desenhadas somente com o intuito de proporcionar prazer de condução. No ritmo descontraído em que percorremos este troço proporcionou um enorme prazer de condução sendo que o mais difícil é conseguir manter a atenção na estrada, perante uma paisagem deslumbrante com a ondulação dos vários planos de montanhas a perder de vista.

 

Interrompemos temporariamente o prazer da N304 para subir em direção às Fisgas do Ermelo, onde se consegue avistar uma das maiores cascastas do país. A subida é feita numa estrada estreita que trepa a montanha. Durante a subida tivémos um prenúncio para o que nos esperava quando vários camiões de bombeiros se cruzaram connosco. Ao chegar ao miradouro das Fisgas do Ermelo o pior confirmou-se: um incêndio, que agora se encontrava em fase de rescaldo, tinha colorido a falésia que ladeia a cascata num único tom negro de carvão, uma paisagem que anteriormente era verde, castanha e cinzenta, de vegetação e pedra. Alguns carros de bombeiros permaneciam no  miradouro e outros podiam ver-se no cume, a acompanhar o rescaldo, onde ainda se viam focos de chamas e fumo. É smepre desolador ver uma paisagem tão bela destruída desta forma. O que nos consola é sabermos que o poder de regeneração da natureza é enorme e que dentro de algumas primaveras a vegetação naqueles locais estará novamente verdejante. Do lado oposto ao incêndio, em cima de fragas sobre o abismo, viam-se cabras selvagens, também elas vítimas desta desgraça.

 

Foi com o coração pesado pelo triste espectáculo des destruição que são os incêncios que voltamos a descer à N304 em direção a Momdim de Basto. Fazia parte do nosso plano subir ao monte da Nossa Senhora da Graça mas também ele estava desolador, carbonizado por um incêncio há alguns meses. Ver a partir de Mondim a bela silhueta do Monte Farinha perfeitamente desenhada mas agora negra desanimou-nos em lá ir. A visita ao Alto da Senhora da Graça teria que ficar para quando o monte esteja novamente verde, não seria nada agradável percorrer aquela bonita estrada que num caracol perfeito sobe o monte sempre rodeados por árvores queimadas. Após o almoço em Mondim seguimos em direção ao nosso destino do dia, a aldeia de Gimonde, já nos arredores de Bragança.

 

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Início do troço da N304 do Parque Natural do Alvão

 

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Fogo nas Fisgas do Ermelo

 

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Cabras do Parque Natural do Alvão

 

15
Set20

Quinta de Ventozelo

Ao entrar na Quinta de Ventozelo somos de imediato arrebatados por uma vista inacreditável das vinhas onduladas num vale maravilhoso debruçado sobre o Douro. Depois de instalados, numa antiga casa de apoio agricola agora transformada num excelente alojamento com vista para os socalcos das vinhas e olivais da quinta, fomos ao bar da piscina beber um vinho branco enquanto sentiamos os últimos raios de Sol. Estava a terminar um dia que tinha sido fantástico. Há momentos puros, perfeitos, em que tudo parece estar bem. E são estes momentos que nos fazem pensar que, de todos os mundos possiveis, pouco poderá ser melhor do que este mundo. E recordam-nos também que devemos estar permanentemente gratos pela extrema improbabilidade  da oportunidade que temos de usufruir de cada um destes instantes.

 

A Quina de Ventozelo é uma das mais antigas da região, com referências desde o ano 1500. Recentemente, e em boa hora, decidiu partilhar a sua maravilhosa paisagem e permitir usufruir das esplenderosas paisagens para enoturismo e turismo de natureza. A quinta localiza-se num local verdadeiramente privilegiado, com uma vista deslumbrante sobre o serpentear do Douro. Os montes que nos envolvem são riscados por socalcos que, nesta altura do ano, se mostram pintados pelo verde das parras de videiras carregadas de uva madura. Ocasionalmente, surge na paisagem o verde escuro de esguios ciprestes a conferir um contraponto de verticalidade às linhas horizontais que desenham o ondular da paisagem.

 

Um magnífico restaurante, com uma varanda fabulosa sobre o vale do Douro, jardins, pequenos museus de instrumentos de produção de vinho e uma bela piscina sobre o Douro complementam a oferta da quinta. As portas e as janelas dos edificos brancos da quinta estão de pintados cum um bonito tom de azul, sendo essa cor conhecida como o Azul de Ventozelo. E Azul de Ventozelo é também o nome de um dos vinhos mais conhecidos produzidos da quinta.

 

O jantar no restaurante Cantina de Ventozelo foi extremamente agradável, pratos originais, bem apresentados e confecionados, naturalmente acompanhados de um excletente vinho. A refeição foi desfrutada numa noite de verão fantástica com o acompanhamento de uma fogueira que conferia ao ambiente uma luz suave e acolhedora. Depois de terminada a refeição, já com a temperatura a refrescar, soube bem estar um pouco junto à fogueira a sentir o seu calor enquanto se desfrutava do silêncio destes vales.

 

O silêncio é, de tudo, o que mais nos marca nestas paisagens. É um silêncio espesso, palpável, que entra em nós e nos tranquiliza os sentidos e diminui a velocidade do tempo. É um silêncio que fica connosco muito depois de o deixarmos. Ha muito para ver nestas paisagens do Douro vinhateiro mas, acima de tudo, há muito para sentir, neste ambiente de tradição secular, tranquilo, sustentável e respeitador, onde o tempo não pertence ao Homem, o tempo é o da  Natureza.

 

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Serpentear do Douro visto da Quinta de Ventozelo

 

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Ondas desenhadas pela Natureza e pelo Homem

 

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Silêncio que se ouve

 

14
Set20

Alto Douro Vinhateiro

A paisagem muda e abruptamente deixamos o planalto para entrar nas retorcidas subidas e descidas dos vales do rio Douro e os seus afluentes. Antes de chegarmos ao museu do parque arqueológico do vale do Côa, onde vamos almoçar, atravessamos novamente o  Côa, agora já um rio largo e tranquilo junto do local onde desagua no Douro.

 

Depois de um bom almoço com a companhia da vista deslumbante sobre o rio Douro do Museu do Côa seguimos agora pela mítica estrada N222, considerada uma das mais bonitas do mundo. Pela paisagem extraordinária que acompanha sempre esta estrada, mas também pelo encadeamento de curvas que permite um enorme  prazer de condução muito especialmente para quem viaja de mota, como nós o fazemos. Viajar de mota é algo muito diferente de o fazer de carro, de mota viajamos com os elementos e com a paisagem. Sentimos o frio ou o calor, o vento, os cheiros, seguimos imersos no ar que atravessamos. Viajar de mota é estar dentro, é pertencer à paisagem, e neste momento estávamos dentro de uma paisagem absolutamente fabulosa e arrebatadora.

 

A paisagem do Douro vinhateiro foi sendo lentamente moldada ao longo de séculos, um trabalho de gerações que foram construindo os socaldos que naqueles declives rochosos permitem extrair sustento destas arribas agrestes. É uma paisagem única no mundo, de uma beleza insuperável e é também um perfeito exemplo de como a humanidade pode tansformar a natureza numa simbiose respeitosa sem destruir a sua beleza e o seu equiibrio. O Douro vinhateiro é uma lição dos nossos antepassados sobre como é possível cooperar com a natureza sem a destruir. Um exemplo e uma esperança nestes tempos em que por ganância e cegueira estamos no caminho de provocar o colapso do nosso planeta, da nossa casa.

 

Quando passamos na localidade de São João da Pesqueira, não sei se por erro de navegação ou por opção de um GPS temperamental que teima em nos indicar caminhos estranhamente alternativos, deixamos a N222 e entramos numa deserta estrada regional que serpenteia sobre os montes da segunda linha dos vales do Douro. Atrevessamos o vale do rio Torto, nunca um nome de rio foi tão descritivo e tão poético, e enfrentamos mais curvas e contracurvas a escalar declives até ao cume destes montes. Sempre rodeados de uma paisagem maravilhosa de socalcos cuidadosamente cultivados, preenchidos essencialmente com vinha e oliveiras. O raro trânsito que se cruza connosco são ocasionais carrinhas de caixa aberta carregadas de uvas, atarefadas nas vindimas que decorrem por estes dias e que darão origem aos fabulosos vinhos desta região. É tão bom quando nos perdemos e encontramos estradas e paisagens com tanta beleza.

 

Centenas de curvas depois, e várias paragens para fotografar a paisagem inebriante, retomamos novamente a N222 junto a Valença do Douro. Já estamos agora próximo do nosso destino, a Quinta de Ventozelo. Que esta quinta produz excelentes vinhos já o sabemos, estava curioso para saber se produz também excelentes estadias.

 

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A paisagem transformada

 

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O rio Côa a poucos metros de desaguar no Douro

 

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A riqueza do Douro

 

 

 

11
Set20

Castelo Rodrigo

Continuamos a viagem em direção a norte imersos no território de Riba-Côa, a margem direita deste rio. Após duas dezenas de quilómetros de estrada tranquila que rasga o planalto encontramos o monte destacado de Castelo Rodrigo.

 

Castelo Rodrigo é uma aldeia histórica bem conservada, com excepção do palácio de Cristovão Moura, mas descobrimos depois que existe uma explicação histórica para o seu atual estado. É uma aldeia monumento, de uma enorme beleza e com vistas deslumbrantes para o imenso planalto que a rodeia. O único amargo que nos deixa a visita é o facto de ser quase apenas isso, um monumento, com raros habitantes, vida própria que escasseia e muitas casas fechadas ou abandonadas. O comércio que existe é direcionado para turistas, sendo a amêndoa o produto estrela destas terras.

 

Dentro das muralhas de Castelo Rodrigo destacam-se as ruínas do palácio de Cristóvão de Moura, governador que no tempo da crise sucessória de 1580 apoiou os rei de Castela. Com a restauração de indepêndencia no ano de 1640 o palácio foi destruído e incendiado pelo povo no momento em que recebeu notícia desse acontecimento, porque o palácio representava um símbolo deste período de domínio de Castela. E ainda hoje se mantém em ruínas.

 

Naquela manhã, com um belo céu límpido, ar leve e cristalino, era possível avistar, no lado sul da muralha, Almeida, de onde tínhamos saído há pouco, e do outro lado, a partir das antigas janelas do palácio, dislumbrar, já junto às montanhas dos vales do rio Douro, sinais da povoação de Vila Nova de Foz Côa, para onde íamos agora seguir viagem.

 

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 Igreja medieval de Nossa Senhora do Rocamador com vista sobre o planalto

 

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Casas de Castelo Rodrigo

 

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Ruínas da entrada do palácio de Cristovão de Moura

 

10
Set20

Almeida

Foi no Sabugal que cruzamos pela primeira vez o rio Côa. Iremos encontrar-nos várias vezes com o Côa nos próximos dias. Após o Sabugal a estrada nacional que nos leva a Almeida acompanha, a alguma distância, a margem esquerda do Côa e ao aproximar-nos de Almeida, que fica na margem direita, voltamos a cruzá-lo. Em tempos este rio marcou a fronteira com o Reino de Leão e foi apenas no reinado de D. Dinis, em 1297 com o Tratado de Alcanizes, que Almeida passou a fazer parte do território de Portugal. A sua localização estratégica foi importante nesses tempos de definição de fronteiras e também o foi, vários séculos mais tarde, por altura as invasões francesas. Almeida recorda todos os anos estes tempos de violentas batalhas fazendo recriações de acampamentos e de combates com as tropas de Napoleão que, por coincidência, estavam a decorrer no dia em que por lá estivémos.

 

A paisagem é plana, rochosa e de vegetação escassa e sempre rasteira ou de árvores de pequeno porte. Impressiona o isolamento desta vila fortaleza no planalto, como um navio solitário a navegar o enorme mar. Por aqui as povoações são escassas e distantes vários quilómetros entre si, geralmente localizadas junto aos vários castelos existentes nas raras elevações do terreno. Cada povoação existe fechada sobre si, reminiscências dos tempos em que estes territórios foram a frente de defesa da fronteira, o que em Almeida é simbolicamente ainda mais marcado por estar dentro de uma  fortaleza e apenas com dois acessos através de túneis que atravessam as grossas muralhas.

 

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O casario de Almeida

 

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A entrada da fortaleza

 

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Combates em Almeida

 

09
Set20

Portas de Rodão

A vila estava deserta e adormecida. No ar um cheiro estranho, talvez o resultado indesejado das indústrias que rodeiam Vila Velha de Rodão. Não foi fácil encontrar um restaurante onde fosse possível almoçar, a oferta é escassa e alguns estavam fechados, resultado do período de férias ou de não terem sobrevivido ao confinamento da pandemia, não o sabemos. Depois de almoço, uma bela estrada retorcida levou-nos inesperadamente ao castelo do Rei Vamba, uma torre de vigia estrategicamente construída sobre imponentes falésias que formam estreito das Portas de Rodão. O Rei Vamba terá sido um dos últimos reis Visigodos, reinou entre os anos de 672 e 680. Para tornar mais interessante este castelo nem falta a lenda de uma maldição, provocada pelos amores da rainha e o rei mouro que reinava na outra margem do Tejo. Um pouco abaixo do castelo consegue-se vislumbrar a imponência das Portas de Rodão, uma garganta rochosa e escarpada num rio Tejo que, de resto, se estende, naqueles lugares, pacífico entre margens mais suaves. Naquele dia o céu mostrava-se maravilhoso, pontilhado de nuvens brancas suspensas num azul límpido e profundo, que atribuía uma beleza aumentada a esta paisagem.

 

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Rio Tejo, visto do Castelo do Rei Vamba

 

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Caetlo do Rei Vamba

 

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Portas de Rodão

 

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