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rua do imaginário

Porque existe algo em vez do nada?

Porque existe algo em vez do nada?

rua do imaginário

16
Nov20

Acima de tudo, o que mais importava era o que era verdadeiro

Da mesma forma em que não é possível mentir em nenhum de dezenas de milhares de passos necessários para nos levar à Lua ou a outros planetas, porque todos os passos em todas as missões têm que ser verdadeiros para ela ter êxito, não podia haver mentiras neste novo mundo que que partilháva-mos. Ambos sabíamos que a nossa felicidade dependia da nossa integridade um com o outro e que mesmo uma pequena mentira seria uma forma de separação, por insignificante que fosse. Tudo o que fazíamos juntos tornava-se mais uma maneira de fazer amor.

 

Ann Druyan sobre a sua relação com Carl Sagan, Cosmos - Mundos Possíveis, Ann Druyan, edição: Gradiva

 

26
Out20

Mundos possíveis

“Cosmos – Mundos Possíveis" de Ann Druyan é um livro, e uma serie de televisão, sobre o esplendor do Universo mas, e principalmente, sobre a maravilhosa aventura do conhecimento da Humanidade que nos permite conseguir começar a vislumbrar a linguagem em que o Universo está escrito. É uma mensagem sobre a infinita variedade da existência e as enormes possibilidades da inteligência. E é, também, sobre a nossa insignificância individual.

 

No "Terra inabitável" somos cilindrados com dureza pelo egoísmo do Homem que está a levar o planeta a um desiquilibrio catastrófico. Neste "Cosmos  - Mundos Possíveis" recebemos a profunda beleza da maior construção da Humanidade, em que geração após geração, homens e mulheres movidos apenas pela curiosidade vão desbravando a ignorância e construindo a catedral do conhecimento.

 

Mas não é exactamente sobre o livro "Cosmos – Mundos Possíveis", nem sobre a dicotomia magnificiência/inconsciência da humanidade que quero aqui escrever, mas sobre o amor entre Ann Druyan e Carl Sagan. Porque, de entre todos os mistérios do Universo, o amor será sempre o maior e mais belo de todos.

 

Quando nos apaixonámos, para mim foi como descobrir um mundo novo. Um mundo que eu tivera esperança que existisse mas nunca tivera oportunidade de ver. Neste novo mundo a realidade excedia a fantasia em todos os sentidos.

(...)

Numa noite estrelada, juntos num convés de um navio no Pacífico, vimos um casal de golfinhos a acompanhar-nos. Ficámos a vê-los talvez durante dez minutos quando de súbito, num único movimento gracioso, deram um mergulho em ângulo recto e desapareceram no mar profundo. Moveram-se em uníssono, como se tivessem comunicado de alguma maneira misteriosa. Carl olhou para mim e sorriu: “Somos nós, Annie”, disse ele.

 

Cosmoa - Mundos Possíveis, Ann Druyan.jpg

Cosmos - Mundos Possíveis, Ann Druyan, edição: Gradiva

 

 

20
Out20

Terra Inabitável

“A Terra Inabitável – Como vai ser a vida pós-aquecimento global” de  David Wallace-Wells pretende ser um dramático grito de alerta e um forte abanão para acordar consciências perante os efeitos trágicos que as alterações climáticas irão ter sobre o nosso planeta. E, nesse sentido, é extremamente eficaz. Fica claro que as alterações climáticas não são uma questão do incómodo de suportar temperaturas uns graus mais elevadas, ou tempestades mais intensas de quando em vez, ou que apenas afectam populações de países sub-desenvolvidos e distantes de nós. São consequências que vão, e já estão, a provocar a morte de milhões de pessoas, em todas as latitudes do planeta, em países ricos ou pobres. Todos somos ou seremos vítimas, mais cedo do que imaginamos.

 

Os efeitos das alterações climáticas são descritos ao pormenor, sempre com base científica, e nem o facto de o que vier a acontecer ainda depender do que for a nossa ação nos próximos anos nos pode tranquilizar de alguma forma. Mesmo no improvável cenário de a reação da humanidade ser extremamente rápida e eficaz, os efeitos serão extremamente graves. O livro está fundamentamente dividido duas partes, numa primeira parte o autor percorre todos os efeitos que as alterações climáticas terão sobre as nossa vidas, todas as formas em que irão provocar mortos e sofrimento. Numa segunda parte do livro  o autor tenta compreender os motivos para, perante toda a evidência cientifíca do que nos vai acontecer e as consequências esmagadoras, o estranho facto de a humanidade continuar tranquila e indiferente.

 

E é sobre as razões dessa indiferença, dessa estranha incapacidade de ver a tragédia à nossa frente, que é curioso refletir um pouco. Existem diferentes motivos para esta ignorância, alguns principais que passo a indicar, e um outro motivo adicional que talvez seja o mais importante.

 

As alterações no planeta decorrem a uma escala muito lenta

Este é provavelmente o pior erro. As alterações climáticas estão a ser catastróficas e extremamente rápidas. Isto porque é um fenómeno que se auto-alimenta provocando que o aumento de velocidade do desiquilibrio não seja linear mas exponencial. Um exemplo: a queima de combustíveis fósseis liberta dióxido de carbono que provoca efeito de estufa. O aquecimento diminui a superfície gelada nos pólos, o que diminui a reflexão da luz (o designado efeito albedo) o que provoca mais aquecimento. Este aquecimento provoca que a camada de permafrost (solo que está permanentemente congelado) que cobre as superficies árticas comece a descongelar, o que liberta enormes quantidades de metano (que é um poderoso gás de efeito de esstufa) e outros gases, o que aumenta o aquecimento. Podia-se continuar, mas é fácil entender que a noção que este tipo de alterações climáticas são lentas e cujos os efeitos demoram milénios a fazerem-se sentir pode ser extremamente errada. Depois de se iniciar um processo de desiquílibrio o ecosistema pode desmoronar-se de forma catastrófica muito rapidamente.

 

Homem e Natureza são coisas distintas

Foi há mais de 450 anos que Copérnico retirou o Homem do centro do Universo e há mais de 150 anos que Charles Darwin lhe retirou o estatuto de espécie priviligiada da restante vida. No entanto, o conceito de que o Homem é, na sua substância, diferente dos restantes ser vivos que connosco partilham o planeta ainda persiste. A ideia que as consequências das alterações climáticas poderá provocar a extinção em massa de inúmeras espécies, mas que o Homem vive numa bolha isolada e que não faz parte da Natureza, é obviamente incorreta. Tudo o que comemos e todo o ar que respiramos vem da Natureza e nós dependemos totalmente, tal como qualquer outro ser vivo, das condições do nosso planeta, que é muito mais que apenas a nossa casa.

 

A tecnologia consegue resolver todos os nossos problemas

Esta é uma ideia muito recente, mas bem enraizada. Existe o conceito que a ciência e a tecnologia conseguem sempre, mais cedo ou mais tarde, resolver os problemas. É consequência de vivermos numa civilização que endeusa a tecnologia. Neste aspecto a recente pandemia veio abalar muitas certezas quando, perante uma doença que paralisou o mundo, a ciência se viu impotente para no imediato o evitar. As alterações climáticas são um fenómeno extremamente complexo, um hiper-objecto, no termo cunhado por Timothy Morton, em que ninguém isoladamente terá a capacidade para perceber todas as suas complexidades, interligações e consequências. Pensar que a tecnologia será suficiente para salvar a humanidade é somente ingénuo.

 

Finalmente há um outro motivo adicional: o egoísmo. Apesar de muitos estarmos conscientes dos impactos, poucos estão dispostos a abdicar do seu conforto e da recompensa imediata do seu estilo de vida para nos salvarmos a nós e os que vierem depois de nós. Há algo que é preciso ficar claro: não é o planeta que está em causa, somos nós. E não estamos a falar dos nossos bisnetos que já não iremos conhecer, estamos a falar de nós e dos nossos filhos. O planeta Terra já superou cinco grandes eventos de extinção massiva e vai superar mais este que neste momento estamos a provocar. Quem não ira sobreviver é a Humanidade.

 

A Terra Inabitável, David Wallace-Wells.jpg

A Terra Inabitável, David Wallace-Wells.edição Lua de Papel

 

15
Out20

Ronda Transmontana

Ronda Transmontana - Capacetes_20200904_v2.jpg

 

Depois da viagem chega o momento de a reviver, de construir memórias, de ressentir emoções. Foi este o objectivo destes pequenos textos sobre esta viagem, não a podia perder nos confins misteriosos da memória. É preciso cuidar das memórias como o jardineiro cuida do seu jardim.

 

Quando se inica a viagem? O início da viagem é difuso: há a ideia que nasce, há os planos que se desenham, há a viagem imaginada. Tudo isto também é viagem. Olhar para o mapa e escolher percursos, imaginar estradas e paisagens, fazer escolhas e pesquisar, ler nomes num mapa e desejar lá ir apenas por um instinto íntimo e nada mais. Várias vezes o plano da viagem foi alterado, retocado e corrigido até que possuímos a versão final, a poucos dias de iniciar a viagem. E na viagem o plano foi somente esboço, várias vezes foi ignorado, várias vezes nos perdemos, várias vezes seguimos estradas e caminhos que não foram planeados. E ainda bem.

 

Tal como o arquétipo excede a realidade, quase sempre o plano da viagem é melhor que a viagem. Não foi o caso. A viagem excedeu a expectativa, o concreto superou a ideia. Viajámos por um mundo maravilhoso, um mundo feito de beleza, segredos, silêncios e feitiços. Foi assim também porque, como escreveu Pessoa, “quem faz a viagem é o viajante”, não são os planos, os mapas, o GPS, as estradas ou as paisagens. E neste caso quem fez a viagem foram dois corações eternamente apaixonados.

 

Das limitações do GPS

 

Há lugares

que não aparecem

nos mapas –

 

só o coração

os pode habitar

 

José Carlos Barros, A educação das crianças

 

13
Out20

Estrela

O dia estava reservado para cruzar a Serra da Estrela, do seu lado este para oeste. E não podia começar melhor, com um magnifico troço de estrada, a N232 entre Belmonte e Manteigas. Após uma paragem breve em Manteigas seguimos em ritmo turístico para desfrutar as monumentais paisagens do Vale Glaciário do Zêzere, com uma agradavel paragem no Covão Da Ametade, uma antiga lagoa glaciar, com um belo bosque de bétulas e reodeado de imponentes afloramentos graníticos, aqui denominados por cântaros. É neste magnífico local que o rio Zêzere toma forma pela primeira vez, só que, infelizmente, no momento em que por lá passámos o seu leito encontrava-se totalmente seco.

 

A Serra da Estrela tem paisagens excepcionais e, com um dia de luz perfeita e temperatura amena naquelas altitudes, foi possível desfrutar plenamente destas magníficas panorâmicas. É no entanto uma zona bem mais concorrida do que os territórios desobstruídos que percorremos por estes dias. Depois de vários dias habituados a um profundo sossego, a  um quase isolamento em territórios pouco povoados, a frequência destas estradas da Estrela sente-se como um pouco excessiva.  Foi assim que, evitando a sempre confusa Torre, iniciamos de imediato a descida da vertente oposta, em direção a Seia, onde almoçámos no restaurante do Museu do Pão.

 

Restava agora a viagem até Bolfiar para a última etapa desta viagem. No dia seguinte faríamos ainda a estrada recurvada entre Bolfiar e o Luso, em jeito de despedida das inúmeras fabulosas estradas recheadas de curvas que percorremos por estes dias maravilhosos. Depois, foi o regresso a casa, de coração cheio e plenos de memórias para cuidar.

 

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Covão Da Ametade

 

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Os primeiros passos do Zêzere, que aqui se apresentava seco

 

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Vale Glaciário do Zêzere

 

09
Out20

N221

Retomamos viagem, circulando agora na fabulosa N221. O troço desta estrada entre Freixo de Espada à Cinta e Barca D’Alva é simplesmente maravilhoso, pelo traçado das curvas, pela beleza panorâmica, pelo puro prazer de viajar de mota. Parte deste troço de estrada acompanha as curvas do rio Douro, com uma vista fabulosa sobre o rio e sobre os montes selvagens do outro lado da fronteira. Foi com a sensação de ter terminado depressa demais este percurso que atravesamos, pela última vez nesta viagem, o rio Douro que foi nossa companhia intermitente nos últimos dias. Entramos em Barca D’Alva, deixando Trás-os-Montes para trás nesta viagem.

 

Devido ao facto de no dia anterior termos jantado num restaurante chamado “O Lagar” em Torre de Moncorvo veio-nos à memória uma recomendação de que em Escalhão havia um restaurante chamado “Lagar” que não podíamos deixar de experimentar se por lá passássemos. Ora, como já não estávamos longe de Escalhão, apesar de a hora para almoçar já ir bastante adiantada, decidimos passar por Barca D´Alva sem parar para ir diretos ao recomendado “Lagar” de Escalhão.

 

Assim que arrivamos a Escalhão dirigimo-nos de imediato ao restaurante mas, para  nossa surpresa, encontrava-se fechado para férias. Não só esse restaurante como também o único outro restaurante existente na localidade. A alternativa seria regressar a Barca d’Alva ou seguir para Figueira de Castelo Rodrigo para procurar quem nos servisse um almoço, mas a hora já ia adiantada e o mais certo seria que quando chegássemos a qualquer um desses destinos já os restaurantes estariam fechados para almoços. Não houve alternativa que abancar numa esplanada à beira da estrada N221, mesmo junto a mais uma imponente igreja totalmente desprocionada para o tamanho da localidade de Escalhão, e acabámos por almoçar o que por ali havia, umas sandes de queijo e umas minis.

 

Depois do petisco no Escalhão seguimos viagem, com passagem por Figueira de Castelo Rodrigo. Este foi o ponto da viagem onde a nossa rota se cruzou, pois alguns dias antes passámos neste mesmo local na nossa ida para norte. Seguimos agora em rota para sul e, apenas com uma breve paragem em Pinhel para conhecer o centro histórico e beber umas águas refrescantes, o dia terminou já junto ao sopé da Serra da Estrela, na bonita vila de Belmonte.

 

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Castelo de Belmonte

 

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Rua da antiga judiaria de Belmonte

 

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Fim de tarde com vista para a Serra da Estrela

 

08
Out20

Calçada de Alpajares

Na busca pela Calçada de Alpajares o GPS levou-nos para um caminho que não era mais que uma estreita faixa de asfalto, muito retorcido e com vistas verdadeiramente esplendorosas. Neste dia, e pela primeira vez nesta viagem, fazia um calor abrasador que vinha dar consistência ao antigo dizer de que em trás-os-montes são “nove meses de inverno e três de inferno”. Foi sobre este calor, com temperaturas a rondar os 38 graus, que continuamos obdientes às indicações do GPS por esta semi-estrada que gradualmente parecia afastar-se de qualquer sinal de civilização, adentrando-se numa paisagem remota e intocada. A certo momento avistamos uma impressionante parede de rocha que se ergue do chão de forma abrupta, imponente e insólita, que mais tarde vim a saber tratar-se de um monumento geológico conhecido como Muro de Abalona.

 

Alguns quilómetros depois a escassa faixa de alcatrão transforma-se num íngreme troço de terra batida que em breve termina num pequeno largo no topo de um  monte e daí para a frente apenas nos permite seguir a pé por um trilho que desce a encosta. O GPS continua a insistir para continuarmos, mas provavelmente esqueceu-se que estávamos de mota. 

 

Depois da desilusão inicial pela impossibilidade de prosseguir, observamos que no fundo desse vale existia algo que deveria ser a Calçada de Alpajares. Tão perto, mas tão inatingível. Tinhamos que prosseguir viagem e não podíamos fazer aquele troço a pé pela encosta, para mais com o calor terrível que se fazia sentir. Optámos que desistir de ver mais de perto a tão desejada Calçada de Alpajares, serviu-nos o consolo de a ver à distância. Fizemos meia-volta e, regressando calmamente pelo mesmo estreito caminho, fomos ao encontro de outra das estradas míticas deste país, a fabulosa N221.

 

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Caminhos que rasgam montanhas

 

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O fim da estrada para a Calçada de Alpajares

 

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A Calçada de Alpajares, vista à distância

 

06
Out20

Penedo Durão

Continuando pela estrada que nos levou à gravura do Cavalo de Mazouco, um belo troço de caminho rural que serpenteia a escassos metros da margem direita do rio Douro, chegamos à povoação de Freixo de Espada à Cinta. Aqui tivemos a oportunidade de usufruir da sombra do seu icónico freixo,  árvore com mais de 500 anos mesmo no centro da povoação, entre a igreja e o castelo, decorada com uma enorme espada pendurada no seu tronco. De acordo a lenda, o Rei D. Dinis, de passagem pela localidade, descansou junto a um freixo colocando sua espada no tronco da arvore, o que teria sido a origem do curioso nome desta vila.

 

Foi enquanto descansávamos em Freixo de Espada à Cinta que decidimos as próximas paragens: visitar o miradouro de Penedo Durão e a Calçada de Alpajares, que seria um troço de uma antiga estrada calcetada, provavelmente de origem romana.

 

Do miradouro do Penedo Durão é possivel usufruir de uma visão infinita sobre o Douro e os montes que o acompanham. Várias aves de rapina voam silenciosamente, por vezes a um nível inferior ao que nos encontramos, o que nos permite acompanhar o seu voo visto de cima. O calor que apertava e o profundo silêncio da paisagem conferiam uma beleza superior a estas paisagens selvagens e magníficas. Foi com pena que seguimos viagem e deixámos para trás aquele silêncio verdadeiramente único.

 

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A igreja,o freixo e o castelo em Freixo de Espada à Cinta

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O esplendor da vista do Penedo Durão

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Voando no silêncio

 

02
Out20

O Cavalo de Mazouco

Seguimos rumo à aldeia de Mazouco. Tínhamos lido que por lá existem gravuras rupestres, que decidmos conhecer. As gravuras ficam numa encosta íngreme junto ao atual nível da água de uma pequena enseada na foz da ribeira de Albargueira que aqui se junta com o Douro.  Pelo que li, existem naquele local vestígios de quatro figuras esculpidas na pedra de xisto mas o desgaste do tempo e a fragmentação da pedra fez com que só uma delas possa ser hoje claramente observada, É a figura de um equídeo que aparenta semelhanças com a raça Przewalsky, espécie há muito extinta por cá mas que ainda hoje cavalga nas planicies da Mongólia. Quando estas rochas foram gravadas aquele local seria bastante diferente do que hoje vemos pois o nível da água estaria 40 metros mais abaixo, dado que o atual nível de deve à existência de uma barragem a jusante do Douro. O acesso à gravura é fácil e bem sinalizado, chegando-se ao local através de uma estreita estrada rural depois de se atravessar a aldeia de Mazouco sendo apenas necessário percorrer a pé um pequeno trilho encravado na encosta até junto à linha de água. Esta figura foi o primeiro painel de gravuras rupestres a ser descoberto na zona, e foi a sua existência que originou a pesquisa que posterioriomente iria possibilitar a descoberta de muitos outros locais com gravuras rupestres que vieram mais tarde a dar origem ao Parque Arqueológico do Vale o Côa.

 

A primeira impressão que temos ao ver o desenho marcado na pedra é de uma profunda emoção. A datação deste género de gravuras rupestres não é simples nem precisa, mas sabemos que o cavalo de Mazouco terá sido gravado durante o Paleolitico Superior, seguramente há mais de 10 000 anos, sendo provavelmente bastante mais antiga. Na altura a agricultura não tinha sido inventada e o Homem vivia em pequenos grupos de caçadores-recoletores que deveriam percorrer aqueles territorios em busca de alimento. É profundamente comovente pensar que há milhares de anos, alguém que nunca saberemos quem, desenhou nestas encostas agrestes este animal, não sabemos com que intenção, não sabemos com que pensamentos, não sabemos com que estado de alma. Só o podemos imaginar. Alguém que, como nós, se questionou sobre a essência do mundo. Alguém que como nós sentiu medos e alegrias. Alguém que, através desta imagem, comunica agora connosco de forma tão poderosa.

 

O desenho é de uma beleza insuperável, simples mas rigoroso, conseguindo transmitir a sensação perfeita da fisionomia do animal e do seu movimento. Em certo sentido é profundamente moderno. Ver esta gravura, expressão artística com todo o seu esplendor, tão distante e tão próxima de nós, gera uma emoção primordial. O Cavalo de Mazouco permite prodigiosamente criar um elo de ligação com o mistério da nossa origem, da nossa verdadeira natureza, com a natureza do que é a Humanidade. É sentir que quem, há dezenas de milhares de anos, fez esta arte estava agora ali connosco a partilhar dos nossos sentimentos. O que nos recorda, o que hoje é cada vez mais premente, que temos nós também responsabilidades sobre quem vier depois de nós viver neste planeta.

 

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O Cavalo de Mazouco

 

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Vista atual do local onde foi dsenhado o Cavalo de Mazouco

 

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O esplendor da paisagem a caminho de Mazouco

 

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