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rua do imaginário

Porque existe algo em vez do nada?

Porque existe algo em vez do nada?

rua do imaginário

07
Jun20

Cinquenta

Para a lebasI Knitter, no dia em que completa 50 anos, 50 pequenas e grandes coisas que suponho ter aprendido em 50 voltas ao Sol. É singelo, simbólico e insuficiente agradecimento por receber essa enorme improbabilidade que é o nosso amor, que hoje, e todos os dias, é também celebrado.

  1. O grande mistério do Universo é existir algo, quando podia, e seria tão mais simples, não existir nada.

  2. Existindo algo, podia não existir o amor. A criaçao do amor é a excentricidade extrema do Universo.

  3. O universo é um sítio muito estranho e ainda mais estranho é conseguirmos perceber quão estranho ele é

  4. A complexidade do Universo não tem qualquer obrigação de estar ao alcance dos limites de compreensão do nosso cérebro.

  5. Compreender é sempre simplificar a realidade até ao limite do nosso cérebro.

  6. O que está para além dos limites de compreensão do nosso cérebro é o que chamamos de Deus.

  7. Perante a pequenez e a insignificância da nossa existência, não há diferença na revolta do crente e do não-crente.

  8. A longo prazo nada, absolutamente nada, tem qualquer importância.

  9. Não devemos confundir o nosso Ser com a nossa mente.

  10. É fundamental controlar a nossa mente, caso contrário é a mente que nos controla a nós.

  11. O tempo não existe. O passado e o futuro são uma ilusão criada pela nossa mente. O que existe é o momento.

  12. Perante a extrema improbabilidade da nossa existência vivamos cada momento com profunda gratidão.

  13. Nenhum momento desperdiçado poderá alguma vez ser recuperado.

  14. Estar aborrecido é um desnecessário desperdício de vida para quem tem um cérebro à sua disposição.

  15. É fundamental gostarmos de estar sozinhos, temos que ser uma boa companhia para nós próprios..

  16. A essência do prazer de viver está escondido nos pequenos prazeres.

  17. Ter o espirito fechado ao maravilhoso e à beleza do Universo é a mais grave forma de cegueira.

  18. Nunca nos devemos comparar com outros, somos seres demasiado complexos para sermos comparáveis.

  19. Devemos viver com vagar, sem pressa que o futuro chegue.

  20. Só no silêncio da mente é possível ouvir dentro de nós o que nos é importante.

  21. A Humanidade é capaz do magnífico e do horrendo, é impossivel compreender o que é isso da natureza humana. O que nos dá a responsabilidade de ter o poder para escolher o que queremos ser.

  22. A vida não tem sentido e isso é bom. Significa que somos seres livres para construir o sentido da nossa vida.

  23. Por vezes, não fazer nada é o mais importante que podemos fazer.

  24. Nunca somos injustiçados. Justiça é um conceito imaginário que existe só dentro de nós.

  25. A capacidade de mentir, de imaginar o que não existe, é o que de mais importante distingue o Homem dos animais.

  26. Estar vivo é, acima de tudo, manter o espírito de uma criança, sempre com a alma espantada perante o maravilhoso do Universo.

  27. O imaginário é algo tão concreto como o real.

  28. A felicidade não se pode procurar ou encontrar, é o resultado de uma vida vivida da forma correta.

  29. O mais complicado do saber viver é aprender a saborear a vida simples.

  30. Os outros só nos conseguem afetar na exata medida em que o permitirmos.

  31. É mais importante a direção que a velocidade.

  32. Não temos o arbítrio de escolher o que desejamos, mas podemos escolher o que fazemos com os nossos desejos.

  33. Podemos desiludir-nos com os outros mas o fundamental é agir de forma a nunca nos desiludirmos connosco.

  34. Com o primeiro filho nascem sempre três novos seres: uma criança, uma mãe e um pai.

  35. Os filhos são a única forma de imortalidade ao nosso alcance.

  36. Devemos primeiro saber dar valor ao que somos antes de ambicionar o que não temos.

  37. Felicidade não é o mesmo que estar feliz.

  38. A única certeza que podemos ter é que nunca devemos ter certezas.

  39. O ritual é fundamental na vida, também para quem não tem o dom da fé.

  40. Nunca nos devemos esquecer de construir e de cuidar das nossas memórias, como o jardineiro cuida do seu jardim.

  41. O infinito que existe dentro de nós é maior que o Universo.

  42. O que é importante faz mais sentido se for partilhado com quem amamos.

  43. Aprendemos mais com a tristeza do que com a alegria.

  44. Toda a palavra é uma sombra do pensamento, só o silêncio consegue ser exacto.

  45. O melhor de tudo é ouvir um filho a dizer-nos “Gosto muito de ti”.

  46. Só o amor transcende o tempo e o espaço.

  47. A tristeza também pode ser uma forma de felicidade.

  48. O esquecimento total é o nosso destino.

  49. Tudo é impermanente.

  50. O fim está sempre próximo.

 

 

25
Mai20

Ilusão e realidade

Reconhecer a realidade como uma forma da ilusão, e a ilusão como uma forma da realidade, é igualmente necessário e igualmente inútil.

 

14-5-1930

Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II, Fernando Pessoa

 

25
Mai20

O tempo não existe

O tempo é ilusão. O passado são apenas memórias residentes no cérebro algures entre os nossos neurónios e as ligações das suas sinapses. As memórias são uma construção só nossa. O futuro é uma expectativa, apenas isso. O que existe é o agora, somente o Agora. O tempo psicológico é a ilusão  de uma continuidade entre passado e futuro criada pelo nosso cérebro, uma poderosa ilusão de uma linha que flui entre o passado, as nossas memórias, e um futuro que assumimos existir mas que não tem qualquer realidade.

 

Na física as conclusões são semelhantes: não existe tempo. O tempo único e Universal, o metrónomo que marca o ritmo universal, não existe. O Universo pode ser explicado matematicamente sem recurso a uma variável que represente o tempo.

 

Existe assim uma curiosa semelhança entre o entendimento do nosso tempo pessoal, o nosso Ser, e o atual conhecimento da ciência sobre o que é o tempo. Certamente que não é coincidência. Nem o tempo nem a realidade são o que nos parecem. O mundo e  tempo que conhecemos existe só dentro de nós, no nosso imagimário. Conseguir aceitar este facto, libertarmo-nos da ilusão do tempo, é uma profunda revolução que faz toda a diferença na forma como entendemos o que é vida e o que é viver.

 

A realidade não é o que parece, Carlo Rovelli.jpg

A realidade não é o que parece, Carlo Rovelli

 

O Poder do Agora, Eckhart Tolle.jpg

O Poder do Agora, Eckhart Tolle

 

 

 

 

 

15
Mai20

Cinco anos de Imaginário

 

Rua do Imaginário.JPG

 

Foi há cinco anos que iniciei o “Rua do Imaginário”. O que desde então aqui anotei, pequenos pensamentos, desabafos, inquietações, momentos, sentimentos ou poesia que me tocou de alguma forma especial, existe, real e concreto, no imaginário. Já não sou a mesma pessoa que há cinco anos iniciou estes apontamentos, isso é certo. Um pouco da história dessa transmutação contínua do eu a que chamamos viver está aqui descrita

 

E foi assim que tudo começou:

 

Em Évora existe uma rua chamada “Rua do Imaginário”. Não é propriamente uma rua, é uma travessa, estreita e um pouco retorcida, emuldurada de casas caiadas de branco e amarelo. Naquele dia estava deserta.

 

É um bonito nome para uma rua, um nome que por si só é um poema. Um nome que nos remete para um mundo íntimo e irreal. Sim, é íntimo, mas não irreal. Tudo o que é verdadeiramente importante é o que existe no nosso imaginário, a realidade é só um constrangimento. O que existe é o que acreditamos que existe e nada morre verdadeiramente enquanto existir no nosso imaginário.

 

Na idade dos porquês perguntavam-me os meus filhos se a fada dos dentes existe. A resposta, só pode ser uma: sim, existe enquanto acreditarem que existe. Como existem dragões, unicórnios, a justiça, o amor ou o sentido da vida.

 

O imaginário é a realidade mais importante.

23
Abr20

Dia Mundial do Livro

De todos os bens materiais nenhum é mais pessoal, íntimo e único do que a biblioteca formada pelos livros que vamos acumulando ao longo da vida. Os nossos livros revelam os nossos interesses, os nossos gostos pessoais, as nossas preocupações, o nosso sentido estético e também a sua evolução ao longo dos anos de vida. A biblioteca é um ADN, exclusivo de cada um de nós, onde os genes são livros. Uma biblioteca é algo de tão íntimo que na verdade só é importante e só faz sentido para quem a construiu.

 

(reedição parcial desta publicação a propósito da comemoração do Dia Mundial do Livro)

21
Abr20

A húbris desconstruída

A sociedade dos países desenvolvidos vive na bolha da superioridade que a tecnologia lhe concede. Temos estações espaciais, manipulamos a genética de seres vivos, viajamos de um lado ao outro do planeta em poucas horas, temos no bolso acesso a conhecimento infinito, fabricamos máquinas absolutamente magnificas. Que mal é que a natureza ainda nos pode provocar?

 

Esta geração nasceu e vive com esta sensação de libertação das leis da natureza, com o orgulho da criatura que suplantou o criador, com a arrogância que quem dominou o medo e com a insolência de quem considera que tudo no mundo existe somente para seu usufruto.

 

Comportamo-nos como um imperador confiante na força dos seus exércitos e, no deslumbramento do nosso poder, desprezamos as ameaças. Os efeitos das alterações climáticas nunca foram minimamente levados a sério. Os alertas do desastre iminente não valeram o esforço de alterar o nosso estilo de vida, por pouco que fosse, pois acreditamos que, mais cedo ou mais tarde, de uma forma ou de outra, a nossa superioridade perante a natureza vai resolver problema.

 

Com a pandemia esta geração encontra algo de inédito: a natureza ameaça de forma grave o nosso estilo de vida e a ciência e tecnologia, por enquanto, de pouco nos podem valer. Esta situação fez surgir um medo, que é não apenas desta pandemia, mas um medo ancestral, mais profundo e mais denso. Para esta pandemia irá certamente surgir um medicamento ou uma vacina. Para os efeitos das alterações climáticas sobre a nossa vida não vai existir medicamento nem vacina. E este medo é o medo de voltar a ter medo, é o medo de descobrir que afinal há problemas que não conseguimos resolver, é o medo de viver novamente subjugado e de ter que renunciar à soberba. Afinal, não somos imunes ao que acontece na natureza. Afinal, a natureza consegue alterar de maneira radical os nossos hábitos mais básicos. Afinal, o imperador talvez tenha pés de barro.

30
Mar20

Emergências

Vivemos em duas situações de emergência: desde há cerca de duas semanas devido ao coronavirus, e outra, que já conhecemos há algumas décadas, de emergência climática. Se nada fizermos as alterações climáticas vão provocar muito mais morte e sofrimento que esta pandemia, mas foi este medo imediato da pandemia que fez a montanha mexer-se. Nas ameaças climáticas a espada pende sobre as próximas gerações, sobre os nossos filhos, os nossos netos e seus descendentes. Como sabemos que ao manter o nosso estilo de vida consumista estamos a roubar vida aos nossos filhos, alguma culpa inconsciente deverá residir em nós, enquanto sociedade. Para mim foi surpreendente a mudança imediata e drástica provocada pela pandemia. Provavelmente esta reação tão célere perante a pandemia seja também, em parte, fruto de um profundo sentimento de culpa pela inação egoísta perante uma ameaça mais grave à vida dos nossos filhos e gerações seguintes.

28
Mar20

O regresso ao normal

As ruas da cidade estão vazias. Para entrar no supermercado é preciso esperar numa fila esticada de seres humanos, a maioria  assustados, outros espantados. Mas o que mais impressiona é o silêncio das pessoas. Duvido sobre qual pandemia mais perigosa: se a provocada por um virus se a provocada por um medo. E que medo é este? De que profundidades subiu agora este medo à tona?

 

Será medo da doença ou da morte? A vida sempre foi muito frágil, é estranho que seja este o medo. Será medo de perder para sempre um estilo de vida? Ou será que esta pandemia foi tão somente a ignição que revelou um cansaço acumulado, um mal-estar latente de uma vida vivida em permanente desiquilibrio?  

 

Espera-se pelo regresso ao normal, mas creio que esse será o maior erro: o nosso anterior normal foi, também ele, parte do problema.

23
Mar20

Pandemia, os números que importam

Nestes dias de pandemia todos os dias somos inundados com números, como se tudo o que existe e o que não existe fosse possível de simplificar com uma estatística, até mesmo o novo silêncio das ruas vazias da cidade. É também nestes dias que mais precisamos dos poetas, para nos recordar que existem outros números bem mais importantes.

 

Em cem pessoas,

 

sabedoras de tudo melhor —

cinquenta e duas;

 

inseguras de cada passo —

quase todo o resto;

 

prontas para ajudar,

desde que não demore muito —

quarenta e nove;

 

sempre boas,

porque não conseguem de outra forma —

quatro, talvez cinco;

 

dispostas a admirar sem inveja —

dezoito;

 

constantemente receosas

de algo ou alguém —

setenta e sete;

 

aptas para a felicidade —

vinte e tal, quando muito;

 

individualmente inofensivas,

em grupo ameaçadoras —

mais de metade, com certeza;

 

cruéis, 

por força das circunstâncias —

é melhor não sabê-lo,

nem aproximadamente;

 

com trancas na porta depois da casa roubada —

quase tantas como

aquelas que as têm, antes da casa roubada;

 

não levando nada da vida a não ser coisas —

quarenta,

embora preferisse estar enganada;

 

agachadas, doloridas

e sem lanterna no escuro —

oitenta e três,

mais tarde ou mais cedo;

 

dignas de compaixão —

noventa e nove;

 

mortais —

cem em cem.

Número, até agora, não sujeito a alterações.

 

Wisława Szymborska, in Instante, tradução de Elżbieta Milewska e Sérgio Neves, Relógio D'Água

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