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A Verdade

12.12.18

Uma das “lições” de Yuval Noah Harari  no livro “21 Lições para o Século XXI” diz respeito ao conceito de verdade. E a lição é que não há ninguém, nenhum líder, nenhum cientista, nenhum filósofo, nenhum visionário, enfim, ninguém que tenha a noção do que é a verdade. A verdade é demasiado complexa para que uma única pessoa consiga ter o conhecimento e a capacidade de dedução que lhe permita compreender a maioria dos temas. Talvez, apenas talvez, todos nós enquanto espécie tenhamos esse conhecimento difuso, mas não existe um qualquer individuo que tenha a visão global. Vivemos tempos de hiperespecialização, em que cada um, com sorte, apenas pode conhecer em profundidade um assunto muito especifico. Do resto, apenas conhecemos a espuma. O filósofo  Timothy Morton cunhou o termo “hiperobjeto” para descrever precisamente essa complexidade. A interligação entre todos os acontecimentos, as inúmeras variáveis que os podem influenciar e o facto de estarmos dentro do problema (e é preciso sair do problema para o conseguir ver) impedem qualquer compreensão individual do que acontece. O aquecimento global, os movimentos sociais, o conteúdo da internet ou o fluir da nossa própria existência são hiperobjetos que nos estão inacessíveis.

 

Este conceito de verdade inacessível releva uma epifania: não há ninguém que perceba o que nos está acontecer, não há ninguém que saiba para onde estamos a ir. E esse é o consolo.

 

Livro: 21 Lições para o Século XXI, Yuval Noah Harari 

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Não existimos mais que os nossos sonhos.

 

Teixeira de Pasoaes

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O Homem Só

06.12.18

Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.

 

Poema do Homem Só, António Gedeão

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Porque existe algo em vez do nada? O que moldou as leis fundamentais da física? O que é a consciência e de onde vem ela? Não sabemos quais as respostas a estas perguntas e a esta ignorância damos o majestoso nome de Deus.

 

Yuval Noah Harari. 21 lições para o século XXI 

 

Ninguém pode ser ateu sem conhecer todas as coisas. Somente Deus é ateu. O demónio é o maior dos crentes, e lá tem as suas razões.

 

Flannery O’Connor, Um diário de preces

 

Deus não é só ignorância. O avanço da ciência pode ir diminuido o espaço de ação de Deus, mas não o mata. Se Deus fosse apenas ignorância,  não haveriam ignorantes (todos nós) ateus. Deus é algo mais, é o mistério da consciência, que subsiste mesmo quando tudo está explicado e compreendido. Nem o próprio Deus será ateu, terá ele próprio o seu Deus. E entre os ignorantes (todos nós) há quem tenha o dom da fé e quem não tenha esse dom. A mim falta-me esse consolo. E se Deus existisse saberia bem a falta que Ele me faz.

 

 

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Nazaré, 2018

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Ondas de tempo

30.11.18

Viver é uma relação com o tempo. O tempo que passa, o tempo que passou e o tempo que virá. A beleza disto é que o tempo não existe, o que existe são eventos do momento.  O tempo é imaginário, algo de intimo de extremamente pessoal. Somos nós, cada um de nós, que deve ter o trabalho de inventar o seu tempo. Imagino o meu tempo como as ondas de um oceano que eu tento surfar. É preciso observação e paciência para escolher a que ondas devemos tentar apanhar. E de vez em quando, apanho uma onda. A maioria das vezes são as ondas que passam por mim. É preciso a sabedoria do surfista para escolher as melhores ondas. É que nem todo o tempo que temos em nós é mesmo nosso.

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não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino.

 

Paulo Leminski

 

Discutir com o destino, ou com o Universo e as suas regras que nos reduzem a um nada, é um inútil desperdício de tempo e energia. Aceitar o nada e a impermanência seria bastante mais sensato. Ainda assim…deixar de discutir soa a desistência. O que nos resta, senão gritar, gritar, como quem tenta calar o mar, contra o tempo e as forças do Universo?

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O tempo é isso, e por isso nos fascina e inquieta, e talvez também por isso, leitor, irmão, está a ler este livro. Porque não é mais que uma instável estrutura do mundo, uma flutuação efémera no acontecer do mundo, aquilo que tem a característica de dar origem ao que somos: seres feitos de tempo. Que nos faz existir, que nos dá o presente precioso da nossa própria existência, que nos permite criar a ilusão da permanência, que é a origem de todos os nossos sofrimentos.

 

Livro: A ordem do tempo, Carlos Rovelli, Ed. Objetiva 2018

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O Beijo

16.11.18

O Universo é descrito melhor em termos de eventos do que de existência. Carlo Rovelli descreve a diferença da seguinte forma: um beijo é um evento, uma pedra é uma existência. Se faz sentido perguntar onde estava aquela pedra ontem ou onde estará amanhã, fará algum sentido questionar onde estava ontem este beijo que te dou agora ou onde estará ele amanhã? E é isso que nós somos: um evento, uma complexa reação física e química, em constante mutação, num equilíbrio efémero, uma chama que se auto-consome que, por mero acaso e sem ser esse o objetivo, deu origem à consciência. Impermanentes por definição. Qual o sentido de perguntar onde estava eu antes de existir ou onde estarei depois de terminar? O que sobrará de mim? O mesmo o que sobrou daquele beijo imaginado: uma suave memória da sua existência.

 

Livro: A ordem do tempo, Carlos Rovelli, Ed. Objetiva 2018

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O livro “A ordem do Tempo” destruiu tudo o que pensava saber sobre o tempo. De uma forma quase poética Rovelli explica conceitos extremamente complexos e demonstra que este universo onde vivemos é bem mais estranho que que poderíamos supor. A dúvida é se o nosso cérebro (o do Homem) estará à altura de conseguir compreender toda a complexidade do universo. Não existe qualquer motivo para que tal aconteça. Mas supondo que sim, Rovelli leva-nos por uma viagem a um mundo alucinante e extremamente estranho, que é o mundo do que sabemos hoje sobre o nosso Universo.

 

O que se conclui é que o tempo não é necessário na explicação do Universo. Que não faz parte integrante do que existe. A noção que temos de tempo e do seu fluxo em sentido único é algo que emerge do que existe no Universo, que resulta de conhecermos o mundo de forma desfocada, mas que não existe per si no Universo. O que move o universo não é o tempo, nem a energia, é a entropia (que é única variável física fundamental que tem uma direção, tende sempre a aumentar).

 

Estas ideias de “A ordem do tempo” consistem numa revolução copernicana que, sem mudar nada, nos dá uma perspetiva totalmente diferente do que é este estranho mundo, em que o tempo é um subproduto involuntário do que existe, tal como o somos nós próprios. O tempo só existe para nós, para cada um de nós, e não para o Universo. O nosso sentido do fluxo de tempo resulta de registarmos memórias do passado e de tentarmos prever ou antecipar o futuro. Porque o que existe é apenas o presente e nada mais. O tempo somos nós, o tempo é imaginário.

 

Livro: A ordem do tempo, Carlos Rovelli, Ed. Objetiva 2018

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