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A concepção do mundo baseada na méritocracia esbarra desde logo num escolho intransponível: o mérito é algo de subjetivo, dependente das circunstâncias. Fulano teve sucesso na vida e Cicrano foi um falhado. Se trocarmos o Homem com a circunstância de cada um, em muitas situações, o resultado seria diferente. Quando se nasce do lado errado do mundo, não há mérito que salve o Homem.

 

Não há mérito nem desmérito absoluto dentro de cada Homem. E é por este motivo que todos, enquanto pessoas, somos mais iguais do que diferentes quando nascemos.

 

Como refere a conhecida máxima do filósofo Ortega y Gasset: "O homem é o homem e a sua circunstância". 

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Ainda sobre a desigualdade da distribuição da riqueza no mundo vem a propósito o pensamento sobre se esta situação per si pode ser encarada como sendo algo de natural ou como sendo deplorável e que se deve tentar corrigir. Afinal os ricos, se ganharam o seu dinheiro cumprindo os requisitos legais e éticos e sem beneficiar de apoios enviesados e descriminatórios de grupos fechados de casta, não são culpados de absolutamente nada, pelo contrário, têm o seu mérito. Ou se, pelo contrário, a situação deve ser vista como algo de profundamente envergonhador na história da Humanidade haver poucos que possuem tanto e muitos que quase nada têm.

 

Estas duas formas de refletir sobre a situação dividem as pessoas fundamentalmente em dois grupos: a direita e a esquerda. A divisão entre direita e esquerda existe em todos nós, em diferentes graus e independentemente do nosso nível de engajamento político. É algo que efetivamente é uma característica de cada um, e não há muita gente que pssa dizer-se indiferente a esta questão.

  

A melhor definição que conheço do que é a direita e a esquerda é a de Norberto Bobbio, filósofo político italiano. Bobbio parte da constatação de duas formas diferentes de pensar sobre o que é a Humanidade: no pensamento de alguns, os Homens devem ser considerados fundamentalmente como iguais entre si, de outro ponto de vista cada indivíduo é essencialmente diferente dos outros. Os que consideram mais importante aquilo de comum que une os Homens, podem ser denominados como igualitários e são de esquerda. Os que acham mais relevante a diversidade entre os Homens podem ser denominados de meritocratas e são de direita.

 

Assim, são de esquerda as pessoas que se interessam, independentemente do mérito, pela eliminação das desigualdades e são de direita os que insistem na convicção de que as desigualdades são naturais e positivas, enquanto tal, e não devem ser eliminadas.

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A desigualdade

14.10.15

 

Se não houvesse outros motivos, o ano de 2015 poderia ficar marcado na história da Humanidade por ter sido o primeiro ano em que se atingiu algo de único, embora nada positivo: pela primeira vez as pessoas que pertencem ao 1% mais rico da humanidade possuem mais de metade da riqueza existente. Ou seja, 1% da Humanidade é mais rica que os restantes 99%. E os 70% da população mais pobre detêm unicamente 3% da riqueza.

 

Esta tendência para a desigualdade na distribuição de riqueza tem vindo a aumentar ao longo da História, tendo nos anos mais recentes, de profunda crise económica, acentuado-se. Perante a pobreza indigente da grande maioria da população, que sofre por motivos perfeitamente evitáveis, não existe qualquer pudor nas demonstrações de riqueza de uma elite que tende a perpetuar-se através de um verdadeiro sistema informal de castas. A casta dirigente, garante a sua permanência do poder: as escolas que os seus filhos frequentam não são as mesmas que os outros podem frequentar e um sistema de influências garante que as oportunidades de ascensão social para quem não pertença a esta casta são residuais perante uma oligarquia que se auto-perpetua no poder. Quando refiro poder, refiro o verdadeiro poder, o poder sobre decisões económicas e políticas, dado que esta elite rica tem uma influência ilegítima, sempre na sombra, sobre as mais importantes decisões políticas.

 

 

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What is this life if, full of care,
We have no time to stand and stare.

No time to stand beneath the boughs
And stare as long as sheep or cows.

No time to see, when woods we pass,
Where squirrels hide their nuts in grass.

No time to see, in broad daylight,
Streams full of stars, like skies at night.

No time to turn at Beauty’s glance,
And watch her feet, how they can dance.

No time to wait till her mouth can
Enrich that smile her eyes began.

A poor life this is if, full of care,
We have no time to stand and stare.

 

William Henry Davies

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O Navio Fantasma.jpg

 

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Ao contrário de um pintor, que à medida que vai criando a sua obra se pode afastar de tempos a tempos para verificar o o seu trabalho de outra perspectiva, o actor da vida não consegue distanciar-se da sua representação para observar o resultado e assim conseguir detectar e corrigir as pequenas imperfeições da sua actuação.

 

Estamos demasiado perto da nossa obra, vivemos imersos na nossa representação, e desta forma carecemos da visão global que só a distância permite obter. Como seria bom que estivesse facilmente ao nosso alcance a possibilidade de conseguirmos afastarnos da nossa vida para conseguimos detectar as imperfeições e corrigir a nossa obra. A maioria dos (falsos) problemas que enfrentamos no dia-a-dia resultam desta incapacidade de nos distanciarmos. E quando mais confudirmos a nossa personagem com o nosso ser, mais difícil será conseguir este distanciamento.

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Teatro da Vida

07.10.15

Na vida em sociedade o nosso comportamento perante os outros, aquilo em que dizemos acreditar e as nossas acções estão subordinadas a uma espécie de guião, que tal como em qualquer peça de teatro, não passa de uma ficção dramatizada em que cada interviniente é um mero actor de uma encenação. Nesta encenação gigantesca que é viver em sociedade todos nós representamos um papel que está a uma certa distância, em medidas diferentes em cada indivíduo mas sempre presente, do que cada um é na realidade. Esta peça de teatro é representada com tanto afinco que muitos chegam a confundir a sua personagem com o seu eu.  Ser bom actor não é confundir-se com a personagem e creio bem que o nosso mundo seria bem melhor se todos estivéssemos cientes que uma coisa é o que somos e outra coisa é a nossa personagem.

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Viver todos os dias é impossível mas é imperativo que, de tempos a tempos, saibamos ser capazes de, qual mamifero marinho, subir à superficie das profundezas escuras da rotina para respirar o ar da vida. Também é sabedoria lutar por quebrar as correntes do dia-a-dia, do piloto automático, do que fazemos por que tem que ser. É certo que viver deixa pouco tempo livre, mas o que é viver senão ter tempo livre? A alternativa é afogarmos-nos nas profundezas da rotina sem nunca saber qual a cor do céu.

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É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade

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