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Se a linha que separa o que é vida do que não o é, o que separa o Universo morto do Universo vivo, pode ser difícil de delinear, o mesmo se aplica à morte: O que é a morte? Pode-se definir como morte o momento em que uma entidade deixa de ter as características da vida: uma estrutura organizada que consegue converter substâncias do seu meio ambiente para produzir energia para manter a sua organização, crescer e reproduzir-se. Mas se todos os componentes de uma célula não são vida o que significa, para cada um dos constituintes da célula, a morte? Ao seu nível nada acontece, para a substância não existe morte. A morte é apenas quando termina uma determinada organização química. A morte é a inexistência de uma organização, mas no nível imediatamente inferior dessa organização já não faz sentido de falar de vida e de morte, nada nasce nem dada morre: tudo é Universo.

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O que é a vida?

30.03.16

Nós, seres humanos, acreditamos ter consciência, sentimentos e vontade própria, que estamos vivos e que iremos morrer. Mas o que é estar vivo? Esta é uma questão, aparentemente simples, que é bastante difícil de responder.

 

Tudo o que consideramos como seres vivos é constituídos por células. Uma célula é uma entidade que nasce, alimenta-se, cresce, reage ao meio-ambiente e reproduz-se. E, eventualmente, morre, isto é, deixa de conseguir transformar energia para manter uma certa ordem. Tudo o que uma célula faz encaixa na definição de vida, mas não e mais que o resultado de reacções químicas e físicas resultantes das leis do Universo. Uma célula, não sente, não tem vontade própria e não tem consciência da sua existência. Nada do que constitui uma célula é vivo, é apenas matéria a reagir quimicamente. A mesma partícula de matéria pode num momento fazer parte de um torrão de terra e noutro momento fazer parte de uma célula viva. Faz sentindo distinguir se esse mesmo pedaço de matéria é vida? Existe um preciso momento em que seja possível traçar uma linha que separe o que é o Universo físico, que consideramos como não vivo, do que é a vida?

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Existe um mundo que é só nosso e que não sabemos em que medida difere do mundo imaginário do Outro. Não podemos saber qual o nível de fiabilidade com que o nosso cérebro reflete a realidade exterior e para comunicar com o Outro estamos fortemente limitados pela estrutura da linguagem e pela convenção dos significados. A inquietante conclusão é: todos nós vivemos fechados no nosso imaginário.

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A estrutura da linguagem impõe-nos certas restrições à forma como pensamos. É o esqueleto que nos limita sobre o que podemos pensar. E quando utilizada na comunicação a linguagem é também, para além desse esqueleto, uma convenção sobre determinados conceitos que conhecemos mas que nos é impossível comparar.

 

Por exemplo, se digo “amarelo”, sei no que estou a pensar, mas nada me garante que o meu interlocutor ao ouvir “amarelo” vai pensar na mesma coisa. Se estamos ambos a olhar para um objecto e concordamos que esse objecto é amarelo, significa apenas que os objetos com essa caraterística são percepcionados por nós de forma idêntica. Todos os objectos amarelos refletem frequências de luz que o nosso cérebro recebe e interpreta de determinada forma, mas não poderemos saber se essa percepção é igual para mim e para o meu interlocutor.

 

E a mediação da linguagem aplica-se também á ideias que temos sobre objectos concretos. Quando refiro o conceito  de “cadeira” penso numa cadeira específica de entre as infinitas possibilidades de cadeiras que existem. O meu interlocutor pensará certamente, mas não o sei, numa cadeira diferente com uma cor diferente. Portanto quando digo “cadeira amarela”, sem me estar a referir a uma cadeira específica, eu e o meu interlocutor poderemos estar a pensar em objectos totalmente distintos.

 

E esta impossibilidade de comunicação precisa aplica-se não só aos nossos sentidos, como a um conjunto alargado de conceitos interiores, como os sentimentos, a dor, o prazer, a felicidade ou a tristeza, ou conceitos abstratos, como a paz, harmonia ou beleza. A sua interpretação, o seu significado íntimo, é diferente para cada um de nós.

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Admitindo que a linguagem Humana constitui uma formatação que impõe limites ao raciocínio e à exploração de novas ideias, e de forma mais bem visível à sua transmissão e partilha entre humanos, será que as máquinas estão sujeitas as estes limites? Sabemos que a capacidade de uma máquina de relacionar factos e de retirar inferências a partir de um volume de informação é infinitamente superior à capacidade Humana, pela quantidade de dados e na velocidade que os conseguem processar. Mas terão também as máquinas superioridade pelo facto de o seu “pensamento” não estar condicionado pela linguagem Humana? Haverá um dia que as máquinas consigam pensar em assuntos cuja compreensão esteja fora do nosso alcance porque a nossa linguagem simplesmente não é adequada?

 

Suponho que sim, e por este motivo devemos temer a inteligência artificial. As máquinas poderão um dia ser mais inteligentes que nós, de uma forma que nem nos seja possível compreendê-lo. Um dia poderemos ser para inteligência artificial o que os animais são para nós.

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Que limites impõe a linguagem ao pensamento? A linguagem é fundamental para o pensamento, para estruturar ideias, identificar linhas de raciocínio e relacionar conceitos. A língua limita a forma como pensamos. Nas áreas da ciência exacta a linguagem utilizada é a matemática, que, caso seja efetivamente a língua em que está escrito o Universo, permite-nos avançar no conhecimento sem limites. Mas a língua em que falamos e pensamos á uma construção Humana, que nos foi útil para garantir a nossa sobrevivência num mundo hostil para o qual estávamos fisicamente mal preparados, que nos permitiu cooperar em grupos alargados e transmitir conhecimento entre gerações. Em determinadas funções a linguagem Humana é extremamente eficaz, mas há áreas em que nos impõe limites ao que nos é possível pensar. Certamente que as possibilidades do Universo não foram construídas com o cadinho da nossa linguagem, ao contrário do que poderá acontecer com a linguagem matemática. A língua é um molde que formata o nosso pensamento. Podemos também admitir que linguagem Humana diferentes possam ter limites de raciocínio diferentes.

 

Poderemos pensar num conceito para o qual não temos forma de o exprimir? E mesmo que o consigamos pensar, se não o conseguirmos transmitir de forma correta e completa aos outros, de que nos valerá?

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Ao longo dos séculos, e desde dos filósofos da antiguidade Grega, que um dos temas centrais da filosofia tem sido o problema da nossa incapacidade de conhecer o mundo real. Tudo o que sabemos chega-nos através dos nossos sentidos, que mais não são que filtros muito potentes que conseguem receber uma ínfima parcela do que nos rodeia e que o interpretam da forma mais eficaz para a nossa sobrevivência, mas que certamente não será a melhor interpretação para saber o que existe. O que é verdadeiramente a realidade é para nós algo fora do nosso alcance, talvez de forma irremediável e definitiva. Platão soube expressar esta nossa prisão dos sentidos através da sua famosa Alegoria da Caverna.

 

O filósofo irlandês George Berkeley (1687 – 1753) levou ao extremo este tema, considerando ser totalmente impossível que nos fosse possível conhecer a verdadeira substancia do mundo que nos rodeia. Dizia Berkeley, na sua filosofia que ficou conhecida como imaterialismo, que tudo o que existe é o que existe na nossa mente. Não se nega a existência do mundo exterior, mas como não o conseguimos conhecer, a verdadeira substância do que existe é o que existe enquanto pensamos nessa substância. Quer isto dizer que as coisas só existem enquanto são pensadas. Se vejo uma cadeira, ela só existe, enquanto cadeira, enquanto a penso. E se pendo num unicórnio cor-de-rosa, ele existe enquanto o penso. Claro que Berkeley teve que enfrentar a questão de que se ninguém estiver a pensar num objecto ele deixa de existir? A resposta a esta questão foi que Deus existe para pensar as coisas por nós. Encontramos aqui pontos de contacto com os argumentos de Tomás de Aquino, Deus existe porque a existência é Deus.

 

A filosofia de Berkeley parece um pouco excêntrica mas é curioso como o imaterialismo se tem vindo a adaptar às recentes evoluções do conhecimento científico, nomeadamente na física quântica. O princípio da incerteza de Heisenberg ou a dualidade onda-partícula confirmam que o mundo exterior depende muito do observador, ou seja, de quem interpreta. A existência material é apenas uma caraterística do que pensamos, porque tudo o que pensamos existe. O mundo é o imaginário.

 

Livro: Um breve guia para clássicos filosóficos, James M Russel

 

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Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse com «suma piedade e sem efusão de sangue».
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer
aniquilando mansamente, delicadamente
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que,
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Lisboa, 25-06-1959.

 

Jorge de Sena

 

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Manhã submersa

18.03.16

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A Pátria

17.03.16

A minha pátria são os meus filhos

 

Roberto Bolaño

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