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rua do imaginário

Porque existe algo em vez do nada?

Porque existe algo em vez do nada?

rua do imaginário

17
Mai16

O apanhador de desperdícios


Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

 

Manoel de Barros

13
Mai16

In Time

In Time é um filme de ficção que decorre num mundo onde as pessoas têm implantado no braço um contador decrescente que indica o seu tempo de vida. Quando esse contador chega a zero a pessoa morre. O trabalho é renumerado em tempo e o pagamento do que se compra é efetuado em tempo e o tempo pode ser transacionado entre pessoas. Uma pessoa rica, que possua muito tempo, poderia viver eternamente. O argumento é complexo, bem elaborado e consegue mostrar de forma realista o que seria uma sociedade regida por esta lei do tempo, incluindo o efeito na sociedade da acumulação excessiva da riqueza (do tempo) por alguns.

 

Este mundo é o nosso mundo, apenas com uma suave diferença: em In Time as pessoas sabiam a cada momento quanto tempo tinham e possuiam a possibilidade de, de alguma forma, aumentar esse tempo. No nosso mundo, não sabemos quanto tempo temos (mas sabemos que é finito) e gastamos tempo que temos para adquirir riqueza.

 

O fundamental do filme é recordar-nos uma verdade límpida e cruel mas que temos uma enorme tendência para esquecer: a nossa riqueza é o tempo, e tudo o que fazemos, ou compramos, custa-nos tempo. A verdadeira e única riqueza é possuir tempo, tempo de vida e tempo disponível para viver.

 

Filme: In Time, Andrew Niccol, 2011

11
Mai16

Luxo supremo

O maior luxo de todos é ter tempo. E tendo tempo não ter nada que fazer com ele. Não ter nenhuma obrigação a cumprir, não ter uma urgência que atender, não ter ordens de alguém para executar, não ter um telefonema que fazer, não ter alguém com que se queira conversar, não ter um livro que se queira ler, não ter um passeio que se queira dar, uma paisagem que se queira admirar, não ter uma brisa fresca para apreciar, e, enfim, nem ter sono para dormir.

 

O luxo supremo é, portanto, o aborrecimento.

10
Mai16

Previsões auto-realizáveis

A economia é uma ciência que labora principalmente sobre o imaterial, a sua matéria-prima são sentimentos como a confiança ou as expectativas. A economia emana do Homem, não da Natureza. O dinheiro é uma ficção, talvez a mais magistral invenção da Humanidade, é uma abstração total e tudo o que existe à sua volta é etéreo e imaginário. É por este motivo que não me deixo de admirar com as previsões para o futuro que uma miríade de organizações, a maioria com interesses concretos no resultado do que preveem, se dedicam a publicar e a que os jornais, que frequentemente ignoram temas bem reais, reproduzem em textos sérios. Imagino centenas de equipas de economistas a analisarem centenas de indicadores e complexos gráficos, a utilizarem algoritmos evoluídos que tentam detetar relações entre infindáveis variáveis, para com base no comportamento do passado preverem o comportamento futuro. Mas, quase tudo se resumindo a sentimentos, a sua divulgação vai afetar o próprio comportamento. O facto de o prever vai alterar a probabilidade do acontecimento. São as previsões auto-realizáveis.

09
Mai16

A Decisão

Há decisões impossíveis. Qualquer opção é simultaneamente um erro e um acerto. O que deve prevalecer é o impulso, o primeiro milisegundo, os valores elevados, o amor, a poesia, a estética de viver, as memórias do nosso futuro. Para estas decisões o cérebro atrapalha, amarra-nos ao correto e, com isto, empurra-nos para o arrependimento. Não há uma escolha certa, mas há uma escolha que nos permite o orgulho de existir. Há decisões impossíveis, e decidi errado.

06
Mai16

Rotina

A rotina. Enreda-nos com suavidade numa aparente normalidade. Os hábitos, as obrigações, os horários, a tranquilidade de não haver surpresas. Mas tem um preço elevado: cilindra-nos cruelmente, faz-nos esquecer que o tempo é finito e, na ilusão das obrigações, constrói a miragem de um sentido de vida, mirra os sonhos, confunde as prioridades, domestica a vontade e acelera o tempo. A rotina faz-nos esquecer o fundamental: a nossa impermanência e de tudo o que nos rodeia.

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