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Rosa à chuva

17.06.16

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Depois de passar uns dias no campo, a viver a rotina sossegada de acordar com a sinfonia dos vários chilreares dos pássaros, a tomar o pequeno-almoço sobre a parreira, que nesta altura do ano já começa a encher-se de folhas e a preparar os seus cachos, dias preenchidos de tarefas inconsequentes de jardinagem, num trabalho feliz de Sísifo, o regresso à cidade é penoso. É no momento do regresso à cidade que compreendo que o sossego do campo não é só proporcionado pela paisagem montanhosa e pela leveza do ar, por conseguir ver milhares de estrelas no céu nas noites transparentes, pela constante companhia das aves cantoras ou pela inexistência de horários a cumprir: o verdadeiro sossego do campo é a ausência de pessoas. Porque no regresso à cidade, a primeira impressão negativa, o que custa mais, o que provoca dor, cansaço, até, confesso, repulsa, é a quantidade de pessoas, de desconhecidos, que nos rodeiam em todo o lado. Multidões de espírito negativo que espalham à sua volta uma nuvem de ansiedade, agressividade e indiferença para com os outros que inevitavelmente polui o espaço à sua volta. Pessoas que não souberam fabricar o seu frasquinho de Antídoto.

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Antídoto

16.06.16

Dentro de nós, no mais íntimo de nós, num sítio onde nós não nos conhecemos, todos temos um pequeno frasco de veneno. De vez em quando,por condições misteriosas, esse pequeno frasco de veneno verte um pouco do seu liquido que se espalha pelo sangue, pelos pulmões, pelo cérebro, na boca. Queima. Domina os nossos pensamentos, as nossas palavras, os nossos gestos, controla-nos. Alastra, atinge os outros, ofende quem nos rodeia. A amizade, a alegria, mesmo o amor, vão amarelecendo à nossa volta como plantas secas. É veneno.

 

E é dentro de nós, no mais íntimo de nós, num sítio onde nós não nos conhecemos, que temos que fabricar, no mais íntimo de nós, um pequeno frasco de antídoto. Abençoados aqueles que, com sabedoria e experiência, aprenderam a fabricar o seu pequeno frasco de antídoto.


Inspirado em “Antídoto” de José Luís Peixoto.

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Na impossibilidade de viver o que pretendemos o sonho substitui, com vantagens, a realidade. A imaginação nunca nos desilude, a realidade muitas vezes sim.

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Desejo de partir

09.06.16

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Pergunta-me o meu filho: Porque é que eu existo? Porque é que a minha alma, que está no meu cérebro e no meu coração, existe em mim e não num cão ou num pássaro?

 

A profundidade e a intensidade dos seus sentimentos fazem dele criança muito especial. Tem uma capacidade de amar, e uma intensidade de sentimentos, que impressiona, não por ser uma criança de 8 anos, mas num ser Humano de qualquer idade. O que me preocupa, enquanto seu pai, é que quanto maior a sua capacidade de amar os outros maior será o seu sofrimento. Para o bem e para o mal, amar significa viver e também significa sofrer. Esta sua sensibilidade é simultaneamente um dom e uma maldição. Da minha parte o que está ao meu alcance é somente ajudá-lo a perceber como poderá utilizar da melhor maneira esta extraordinária sensibilidade. Espero estar à altura da responsabilidade e nunca desiludir quem tão grandes expetativas coloca em mim.

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Certezas

06.06.16

De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando...
A certeza de que precisamos continuar...
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar...


Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo...
Da queda um passo de dança...
Do medo, uma escada...
Do sonho, uma ponte...
Da procura, um encontro...

 

Fernando Sabino

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Moçambique, 2009

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Se confrontados com a materialização da iminência nossa morte, que na espuma dos dias que passam vemos como algo difuso e abstrato, apesar de todos os avisos para a impermanência das coisas, qual é o maior medo? O de deixar inacabada a obra maior: a preparação dos filhos para a vida. Nesse caso, será por eles o meu último lamento.

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É este portanto dilema do ecologista: mais do que um regresso idílico do Homem à Natureza, um retorno aos tempos de agricultura de subsistência e a alimentação orgânica, a solução para o nosso planeta perante a pressão da Humanidade talvez esteja no sentido oposto: uma gradual separação do Homem da Natureza, o fabrico artificial de alimentos e a concentração dos Humanos em mega-cidades. A não ser assim, iremos inevitavelmente destruir o planeta. O Homem já não é um ser da Natureza, conseguimos criar novas espécies e prolongar o nosso tempo de vida, como bem nota Yuval Noah Harari em “Sapiens - De animais a deuses”. Deixemos assim à natureza o que é da natureza e paguemos o preço de nos termos tornado deuses: o retiro, não no Olimpo, mas em bolhas densamente povoadas e isoladas do mundo natural.

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