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Viver o agora

31.10.16

Um dos capítulos do livro “Ensaios de Amor” de Alain de Botton tem por título “Medo da felicidade” e reflete sobre a nossa incapacidade de sermos verdadeiramente felizes, em parte por culpa precisamente da pressão exercida pela sociedade para sermos felizes. A felicidade, tal como é entendida pela sociedade,  é uma sensação transitória, é um momento. Antecipamos com expectativa os momentos que esperamos vir a ser de felicidade (o futuro), uma viagem, umas férias ou um jantar com amigos, por exemplo. No entanto, quando vivemos esses momentos (o presente) nunca corresponde realmente a uma felicidade total e livre de angústias. Porquê? Porque sabemos que é transitório e que esse momento e nunca corresponde totalmente ao antecipado. Não estamos a viver o momento.

 

É fundamental sabermos que a felicidade é também saber viver o momento, sem nostalgias pelo passado ou ansiedades pelo futuro. Viver o agora é poderoso e pode transformar a nossa vida. Escrevia com sabedoria Marie Curie numa carta à sua filha Irene: “Com a idade aprendemos que a capacidade de viver o momento é um bem imenso, como um estado de graça.”

 

“Ensaios de Amor” é o primeiro livro de Alain de Botton, escrito quando tinha apenas 23 anos, e talvez seja o mais interessante dos que conheço. Um misto entre uma estória de amor e um tratado filosófico sobre este tema, o livro consegue ao longo de uma banal (para os outros) estória de amor ir refletindo sobre conceitos filosóficos de forma muito interessante.

 

Livro: Ensaios de Amor, Alain de Botton

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A árvore, II

28.10.16

Árvore na Paisagem.JPG

Marialva, 2016

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A morte absoluta

28.10.16

 

Morrer.

Morrer de corpo e alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão — felizes! — num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante…
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança duma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento.
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: “Quem foi?...”

Morrer mais completamente ainda,
— Sem deixar sequer esse nome.


Manuel Bandeira

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Agora admito, creio eu, que nem o meu corpo nem a memória da minha existência vão perdurar. Mas há convicções que só no momento em que são confrontadas com a realidade as podemos confirmar. Estranhamente o avanço na idade parece que ajuda a aceitar a morte. A filosofia também. Mas a ideia de nada existir, para sempre, o vazio total e o infinito absoluto são conceitos que não estão ao alcance do espírito do Homem. Seremos sempre esmagados por algo que nunca conseguiremos compreender. A solução talvez esteja em inverter o que questionamos ao Universo, e ao invés de tentar compreender como será possível nada mais existir para sempre, regressar à minha dúvida primordial e questionar: porque é que, podendo não existir nada, existe algo?

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Recordo-me de em criança, naqueles momentos em que deitado no escuro aguardava o sono, pensar ocasionalmente sobre a morte e sentir um indescritível peso dentro de mim pelo inconcebível que seria a não existência de nada, uma escuridão final e irreversível e nunca mais ver aqueles que amava e que faziam parte da minha vida. Desde de cedo que considerei que a religião não era solução, seria de facto reconfortante ter fé, mas não passava de uma delusão. A alternativa seria o fim de tudo e a decomposição do nosso corpo até retornar à Natureza, de onde tinha vindo. E isso eu não conseguia aceitar, estava para lá da minha compreensão, o fim de tudo para mim, como se todo o Universo terminasse com a minha morte.

 

Alguns anos mais tarde, adolescente, já admitia a morte como inevitável e considerava que a única possibilidade de imortalidade seria manter a nossa memória viva, após a morte física. Os famosos versos de Camões no Canto I dos Lusíadas “E aqueles que por obras valerosas, Se vão da lei da Morte libertando” resumiam a única forma de escapar à morte. Enquanto recordarmos os feitos de pessoas que há muito morreram estas não estão verdadeiramente mortas.

 

Mas sei hoje que, por muito famoso que alguém se torne, por muitos feitos heroicos, bondosos e extraordinários tenha atingido, por muito que tenha sido amado e admirado, mais cedo ou mais tarde a sua memória acabará também por se desvanecer e cair no esquecimento geral. A memória de alguém é uma ficção e também esta um dia desaparecerá. E aí sim, chegará a morte absoluta.

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Rosa Montero em a “A ridícula ideia de não voltar a ver-te” inspira-se num curto diário que Maria Curie escreveu durante um ano após a morte, inesperada, do seu marido Pierre. A autora, também ela tendo vivenciado recentemente a morte do seu companheiro, faz uma reflexão sobre o luto e a morte, entre outros assuntos vários inspirados na vida extraordinária da única dupla vencedora do prémio Nobel, numa época em que a função da mulher na sociedade estava sujeito a extremas limitações.

 

Uma das reflexões de Rosa Montero está relacionada com o medo do esquecimento de quem sobrevive à morte de um ente amado. A nossa memória é selectiva, falível e criativa. Como podemos ter a certeza de conseguir recordar a pessoa que nunca, mesmo nunca, mais vamos ver? Como saber se não vamos esquecer ou deturpar na nossa memória auqeles pormenores pormenores que nem as fotografias registam, como a sua voz, o seu sorriso, a profundidade da cor dos seus olhos, os seus estados de espírito e as pequenas manias que fazem a personalidade do que cada um de nós é? E desta forma Montero resume de forma sucinta as que são talvez as duas faces mais terríveis do horror do luto: o nunca mais, para todo o sempre, ver-se uma pessoa e o medo da alteração das nossas memórias sobre essa pessoa.

 

É certo que uma pessoa só morre verdadeiramente para nós quando é esquecida, mas esse é um fraco consolo. Imediatamente após a morte o nosso cérebro vai iniciar um processo de seleção e alteração das memórias que em nós vão criar o demónio do medo de nunca mais nos ser possível saber quem era verdadeiramente a pessoa que perdemos.

 

Livro: A ridícula ideia de não voltar a ver-te, Rosa Montero

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A árvore

21.10.16

Árvore.JPG

 

Ramila, 2016

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O sal da língua

20.10.16

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.

Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.

Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.

Elas são a casa, o sal da língua.

 

Eugénio de Andrade

 

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Enquanto esperamos pela entrega do take-away para o jantar vou dar um pequeno passeio com os meus filhos e reparo como a minha filha está vaidosa, apesar de ter apenas onze anos. Penso que em breve deixará de ser a minha bebé e que o último dia em que lhe pego ao colo pode já acontecido. E ambos começam a querer contar coisas, partilhar acontecimentos e ideias comigo, a contar o que têm visto e o que têm feito. Como se o passeio se tornasse num catalizador de partilha. São estes inesperados parentesis nas obrigações do dia a dia que proporcionam verdadeiros momentos de usufruto do tempo em que estamos juntos e nada mais. A felicidade é apenas isto.

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Da lista dos três venenos que estão na origem do sofrimento identificados pela filosofia budista nota-se a ausência da tristeza. A tristeza é um sentimento autónomo, não é uma consequência. Alguns pode-se considerar que têm tudo, que não é muito, para ser feliz e no entanto vivem num constante nevoeiro de tristeza. Nós, que estamos vivos e somos testemunhas dessa extrema improbabilidade que é existirmos e sermos sencientes, temos os motivos que bastem para sermos felizes. Sentimos a brisa na cara, só por isso devíamos ser felizes. Mas a tristeza está lá. E o mais curioso é que nos podemos habituar a esse nevoeiro, a essa bruma que nos envolve o espírito, a esse aperto que se torna aconchegante. E, voltando à sabedoria budista dos três venenos, podemos concluir que a tristeza não é de facto sofrimento nem origem de sofrimento. Como se estar triste possa ser para alguns uma forma de se ser feliz.

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