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 Local desconhecido, 2013

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A 29 de junho de 2007 foi colocado à venda o iPhone. Foi há 10 anos, apenas 10 anos, mas muito mudou desde então. Esta data talvez venha a ser identificada pelos historiadores do futuro como o início simbólico da revolução que agora vivemos. Em poucas décadas tudo vai mudar, tudo vai ser diferente. Vivemos num processo revolucionário em curso não só tecnológico mas também social, económico e biológico. É uma revolução em que a mudança acontece a uma velocidade estonteante, como nunca antes se verificou na História da Humanidade, e que pode representar o fim da espécie humana, como a conhecemos, que será substituída por algo de diferente.

 

E nunca como agora fará mais sentido recordar esta frase de Charles Darwin escrita há mais de 200 anos:

 

It is not the strongest of the species that survives, nor the most intelligent, but the one most responsive to change.

 

Charles Darwin, 1809

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A evolução da tecnologia permite-nos ter no nosso bolso um equipamento extremamente poderoso, com capacidade de acesso em mobilidade a uma fonte inesgotável de informação e de registar e partilhar, de imediato, tudo aquilo que fazemos, pensamos ou sentimos. É o smartphone, um artefacto com capacidades que apenas há algumas décadas nem nas mais clarividentes ficções futurísticas seriam imagináveis.

 

Fui recentemente a um concerto, em que as pessoas pagaram um bom preço para poderem estar presentes, um momento supostamente único e irrepetível. E é com espanto que se constata que muitas das pessoas presentes passam mais tempo a olhar para o seu smartphone do que a usufruir do momento. A consultar as últimas das suas redes sociais, a expor ao mundo o esplendor da sua vida, a trocar mensagens ou a filmar o palco, a maioria das pessoas não estava verdadeiramente focada em usufruir do momento. Dividiam a sua presença entre a realidade do que estava a acontecer no local, e certamente que fizeram um esforço assinalável para poder estar lá, e a pequena janela para o mundo virtual que representa o seu smartphone. Ainda há poucos anos os turistas japoneses eram a chacota do mundo por se deslocarem sempre com as suas máquinas fotográficas em punho a fotografar tudo o que lhes aparecia pela frente. Pois hoje parece que nos tornámos todos em turistas japoneses, e não só quando fazemos turismo mas no nosso dia-a-dia habitual.

 

Todos nós estamos ainda em fase de aprendizagem sobre o que devemos fazer, e não devemos fazer, com tanto poder ao nosso alcance. Somos como crianças com um brinquedo novo e sem supervisão parental. A tecnologia está a fazer nascer uma nova forma de viver, e navegamos por territórios para os quais ainda não existe mapa. O que faremos no futuro com a tecnologia está a ser definido pela nossa utilização dessa tecnologia hoje, a cada momento. E para essa definição do que queremos do futuro, não nos podemos esquecer que a vida acontece, por enquanto, no mundo real. E não creio que no seu leito de morte alguém vá um dia lamentar não ter passado mais tempo da sua vida nas redes sociais.

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Ser-se adulto é estar-se sozinho, sozinho perante as nossas decisões e sozinho na responsabilidade das suas consequências. Não temos em quem delegar as decisões da nossa vida. Não temos desculpas para o que fazemos ou deixamos de fazer. Isto não é necessariamente mau, com a coragem necessária conseguimos encontrar na responsabilidade uma beleza obscura muito própria, mas cansa ser-se adulto a tempo inteiro. Há dias em que anseio desesperadamente de uma desculpa para conseguir explicar-me porque faço o que os outros esperam de mim, em vez de fazer aquilo que eu esperava de mim.

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A Inteligência Artificial está no caminho de uma evolução notável, o que nos gera um sentimento misto de admiração, fascínio e de medo. Neste campo uma das áreas mais visíveis é o software de IA para assistência pessoal que as empresas gigantes de tecnologia disponibilizam. Com capacidade para perceber e responder utilizando a linguagem natural, com acesso ao mundo de informação e possibilidades da internet e, o mais importante, com capacidade para aprender com a utilização os hábitos do seu humano, com resultados individualizados. Estes artefactos estão cada dia mais poderosos e o seu limite é fundamentalmente o da imaginação humana.

 

No livro “Homo Deus, história breve do amanhã”, Yuval Noah Harari faz uma antecipação do futuro possível destes assistentes pessoais que é, no mínimo, assustadora. Estes assistentes poderiam conhecer o seu “humano” melhor que ele próprio, antecipar as suas ações e inclusivamente decidir por ele em determinados assuntos. Assistentes de humanos diferentes iriam interagir de forma autónoma, por exemplo, preparando uma reunião entre os seus “donos”. No futuro poderão inclusivamente substituir-se aos seus donos nos resultados dessa reunião, chegando os assistentes pessoais a uma conclusão que seria apresentada aos seus humanos. Os ricos teriam assistentes mais poderosos e as versões mais recentes, o que lhes daria uma vantagem fundamental sobre os outros.

 

Um aspeto curioso destes assistentes é terem nome e voz de mulher. Qual o motivo de ser assim? Será um vestígio da ideia machista do papel de “ajudante” ser de uma mulher? Será pelo preconceito de as mulheres serem mais pacientes e dóceis? Ou será simplesmente por a maioria nas equipas dos seus criadores serem homens?

 

O novo “Homo Deus” tornou-se Deus e, tal como o seu antecessor, fez a criatura à semelhança do criador: com os seus desejos e preconceitos.

 

Livro: “Homo Deus, história breve do amanhã”, Yuval Noah Harari

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O recurso a testes ADN na investigação criminal é relativamente recente e em julgamentos efetuados há algumas dezenas de anos não era possível recorrer a este método que pode, de forma inequívoca, determinar culpados e ilibar inocentes. Nos últimos anos nos EUA foram vários os condenados que foram libertados na sequência da realização de testes ADN que provaram, para além de qualquer dúvida, que eram afinal inocentes.

 

O curioso é que entre estes condenados que foram posteriormente ilibados existem vários casos de pessoas que têm memória de terem cometido o crime. Essas pessoas recordam-se do seu crime, apesar de estar provado que são inocentes. A acusação do crime acabou, ao longo do tempo, por criar nessas pessoas memórias de o terem cometido.

 

Estranho? Talvez não, pois a nossa memória é algo que somos nós que construímos e pode ter, ou não, fundamento na realidade. A memória e o imaginário têm fronteiras difusas e uma memória não é algo de imutável, está em permanente construção e desconstrução. Uma memória é uma obra sempre inacabada.

 

A verdade é algo de muito bonito, mas o que sobra da nossa verdade quando não podemos confiar na memória? O que representa para nós o passado senão uma ilusão, uma estória elaborada pelo nosso cérebro e que vai sendo retocada meticulosamente utilizando como matéria-prima uma mistura variada de realidades, de desejos, de medos, de esquecimentos seletivos e de imaginário, qual artesão incansável de uma obra nunca terminada.

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Vila Franca de Xira, 2017

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É demasiado perturbador, e obviamente contra a nossa experiência, que o livre arbítrio seja apenas uma ilusão. O que existe no mundo é matéria, espaço e tempo. E as leis que os regem. Qual será então a última esperança do livre arbítrio?

 

Os nossos pensamentos o que são? Provavelmente serão somente reações bioquímicas/elétricas que conjugadas em milhões de neurónios produzem a nossa sensação de pensamento. Mas a ciência ainda está a dar os primeiros passos no conhecimento do cérebro, ou por outras palavras, o cérebro só agora começou a conhecer-se a si mesmo. O funcionamento do nosso cérebro é um dos mais profundos mistérios da ciência. A esperança reside na nossa ignorância

 

Na física as leis quânticas inauguraram num mundo estranho aparentemente não determinístico. É possível que algo semelhante possa acontecer no nosso cérebro, e que nos permita a existência de algo não determinismo que nos possibilite ser donos do conceito de decisão.

 

É esta a última esperança do livre arbítrio. Mas isto é apenas expetativa, não é ciência.

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Num mundo em que todos os deuses estão mortos, a Humanidade ficou órfã do seu sentido de vida superior e da sua alma. Em troca, recebeu a total responsabilidade pelas suas decisões. A religião de todos nós, crentes e não crentes, é agora o Humanismo, em que o Homem e os seus desejos são a medida de todas as coisas.

 

Simultaneamente a ciência diz-nos que tudo é causa e consequência e, por leis que ainda não conhecemos na totalidade mas que sabemos que existem, tudo o que acontece pode ser determinado conhecendo o estado inicial. Assim, também as nossas decisões são pré-determinadas, seja pela nossa genética, pela composição bioquímica no cérebro no momento da decisão, ou por algo que, de tão complexo para o nosso entendimento, nos parece controlado por nós. Mas pode não ser. A decisão poderá ser uma ilusão.

 

Se assim for, o livre arbítrio é imaginário e jaz, juntamente com a nossa alma e o nosso sentido de vida, no cemitério dos deuses. Neste caso, o que nos sobra?

 

Livro: “Homo Deus, uma breve história do amanhã”, Yuval Noah Harari

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A Rotina

07.06.17

Quando fazemos determinadas tarefas que se repetem ao longo dos dias o nosso cérebro tem a capacidade de criar a ilusão nefasta de comprimir a nossa experiência da passagem do tempo. Quem não experimentou a agradável sensação do tempo passar mais lentamente quando, por um dia, se abandona a sua rotina habitual? Mas o certo é que, se durante alguns dias estivermos fora da rotina habitual essa ausência de rotina se metamorfoseia numa nova rotina, e a passagem do tempo volta a acelerar. E estando instalada uma rotina, sair desse ciclo exige de nós um esforço adicional, como se existisse uma inércia na rotina: quebrar a rotina exige esforço. Mas a rotina é também o nos permite viver de forma ordenada, sem surpresas e com uma falsa sensação de previsibilidade, que de alguma forma o nosso cérebro deve necessitar para sua tranquilidade.

 

A rotina é construída no nosso cérebro e só existe dentro de nós, mas é um sequestrador imaginário da nossa capacidade de usufruir da liberdade e um poderoso encolhedor do Tempo. Se não existisse esta sensação de rotina quão diferente seria o nosso Tempo?

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