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O Poema

26.09.18

 

O poema é antes de tudo um inuntensílio.
Hora de iniciar algum
convém se vestir roupa de trapo.
Há quem se jogue debaixo de carro
nos primeiros instantes.
Faz bem uma janela aberta
uma veia aberta.
Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema
enquanto vida houver.
Ninguém é pai de um poema sem morrer.

 

 

Manoel de Barros

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O inutensílio

25.09.18

Disse o poeta que era antes de tudo um inutensílio. É o que sinto da minha vida, milhares de dias, uns vividos outros passados, com uma ilusão de objetivo, para me trazerem até aqui, a este descampado árido, a este nó que não pode ser desatado. A resignação e o silêncio são as armas que me restam para esculpir no caos o sentido do tudo. A minha vida transformou-se em um inutensílio.

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(C)alma

20.09.18

DSC_1171.JPG

 

Águeda, 2018

 

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A vida deu-me um nó tenho de fazer o que não quero e viver como não quero. Agora reparo na felicidade dos outros. Penso que a imaginação é uma solução digna. O consolo de viver prazeres imaginados é que por vezes a imaginação supera a realidade. Só que entretanto, no mundo real, os dias estão tão bonitos. E a imaginação nunca consegue ser melhor que um dia bonito ou que uma noite de chuva.

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Com unhas e dentes

 

Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.

 

Luis Filipe Parrado,

Entre a carne e o osso

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O escândalo

12.09.18

 

Teologia II

 

Deus existir
ou não: o mesmo
escândalo.

 

Orides Fontela (1940-1998)

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Só o celibatário que ama superiormente os filhos vê mais além de si próprio e mede as consequências de infligir a sansão da vida a um não-ser. Será a vida tão extraordinária, alegre, feliz, lúdica, desejável, fácil, para oferece-la aos rebentos o homem? Será necessário amar tanto a entropia, o sofrimento, a dor e a morte para, ainda assim, oferecer a vida como uma trágica prenda ontológica?

 

Michel Onfray, A potência de existir, Manifesto hedonista

Campo da Comunicação, 2009

 

Com estas palavras Michel Onfray exprime a sua opinião sobre se o ser humano tem o direito de querer ter filhos, o que significa, como refere, “inflingir a sansão da vida a um não-ser”. Existe, é claro, um importante fator animal: todos temos o instinto, que partilhamos com todos os nossos antepassados, de nos reproduzirmos para deixar a nossa herança genética à próxima geração. Todos pertencemos a uma linha de vida ancestral, com origem no primeiro ser que se reproduziu, em que todos os nossos antepassados se reproduziram com sucesso. É portanto natural que, se estamos vivos hoje, é porque os nossos antepassado tinham todos este instinto de reprodução que nos acompanha até hoje. Sempre que um ser não se reproduz, por opção ou não, há uma linha de vida que se quebra definitivamente. A reprodução é a única forma de imortabilidade ao nosso alcance: deixar a nossa herança genética no mundo.

 

Vejamos para além do instinto, pois o animal que existe em nós está disfarçado debaixo de uma fina mas importante camada de verniz civilizacional. A vida pode ser, e é, constituída por sofrimento. O tempo em que não é sofrimento será pura ilusão ou estupidez nossa. O meu sentimento dominante é de uma tristeza esclarecida, de uma melancolia permanente. Ainda assim, decidi ser pai e, para surpresa minha, a paternidade foi a maior epifania da minha vida. Sei que os meus filhos terão que sofrer ao longo da vida. Mas cada sorriso, cada momento de felicidade, cada sentimento de amor e carinho, faz valer a pena todo esse sofrimento. Cada instante de alegria é uma derrota sobre a não-existência.

 

A minha questão primordial, colocada ao Universo,“Porque é que existe algo em vez de nada?” tem , em certa medida, resposta na reprodução: se existe algo, se o Universo venceu a inércia e foi capaz da extrema improbabilidade de criar consciência, temos o dever de, talvez com o elevado custo do sofrimento, combater a não existência. É só o que nos resta.

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UMA PALAVRA



Longe de mim querer corromper a juventude,
É um trabalho que sobreleva as
Minhas capacidades.
Antes cicuta.
Mas tenho que explicar o sentido
Da palavra “desesperança”.

É uma esperança negativa.
A gente senta-se num cais
E deixa o sol trabalhar.
O sol minúsculo, isto é, o calor na pele.
Chamo a isto a experiência mínima.

Feito isto:
Venha de lá então
Essa catástrofe.



Manuel Resende, Poesia Reunida,
Lisboa, Cotovia, 2018

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Há vários silêncios

Desde o início aprende a dizer

O plural

 

José Tolentino Mendonça

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Para ouvir é necessário, para além de uma aparelhagem orgânica de ouvidos, tímpanos e nervos, um cérebro. E um cérebro necessita de neurónios, de um coração a bombear sangue, de pulmões para respirar, de estômago e intestinos a trabalhar ruidosamente para extrair os nutrientes. O silêncio não existe, porque para ouvir o silêncio é necessária uma máquina relativamente ruidosa. O único silêncio possível é o silêncio da mente.

 

Vivemos quase sempre imersos num mundo ruidoso. Quando sinto a aparência do silêncio, gosto de simplesmente ficar a ouvi-lo. No início, quando começamos a ouvir o silêncio, não conseguimos distinguir nada. Mas, lentamente, como olhos que se habituam à escuridão, o nosso cérebro vai conseguindo encontrar e distinguir ténues sons no silêncio que ouvimos. E vamos imaginando a sua origem, as suas causas e consequências, ficções em torno desses ruídos que são o respirar do mundo que nos rodeia. É talvez aconteça que seja no silêncio que se esconde a verdade.

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