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A poesia é conseguir transmitir o que está para além dos limites da palavra. É conseguir sair um pouco fora da jaula que nos impõe a linguagem. O físico Carlo Rovelli, no seu belíssimo livro “A ordem do tempo”, refere algo que a princípio me surpreendeu: que a ciência tem origem na poesia.

 

A ciência é também conseguir ver um pouco (muito) além do que os nossos sentidos nos conseguem dizer. É a Terra nos parece plana e conseguir ver que é redonda. É o Sol gira em torno de nós e conseguir ver que somos nós que giramos em torno do Sol. É pensar que somos o centro do Universo e conseguir ver que não passamos de uma insignificância ocasional perdida na sua imensidão. É acreditar que a eternidade existe e conseguir ver que o tempo teve um início e provavelmente terá um fim. É sentir que o tempo é sempre igual e conseguir ver que o tempo é diferente em cada lugar.

 

A poesia, tal como a ciência, é sentir e ver com a mente.

 

Livro: A Ordem do Tempo, de Carlo Rovelli, Objectiva, 2018

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Sobre o cansaço

26.10.18

O pequeno livro do filósofo coreano-germano Byung-Chul Han , “A sociedade do cansaço”, atraiu-me me primeiro lugar pelo seu título. O cansaço é o ruído de fundo da nossa sociedade consumista e hiperativa. Neste século XXI estamos numa nova era relativamente ao que nos pode destruir. Durante milénios os perigos para o Homem derivaram de ameaças externas, como as doenças provocadas por bactérias e vírus. Numa lógica militar, viveu-se uma época em que o que é estranho é que é prejudicial, o inimigo é o outro. No século XX a ciência desenvolveu medicamentos capazes de identificar estes agentes externos e destruí-los o que diminuiu bastante a ameaça. Mas a constatação do autor é que na sociedade do século XXI as ameaças vêm do que não consideramos como estranho, o inimigo vem de dentro. Doenças como a hiperatividade, a depressão, o desgaste emocional por excesso de trabalho (burn-out) são provocadas por aquilo que consideramos como nosso, amigo, aquilo que gostamos de fazer e é o nosso estilo de vida. O inimigo já não é o outro, o estranho, o que é diferente. O inimigo vem de dentro de nós. Recorrendo novamente à analogia militar, a guerra mudou, de duas partes organizadas e claramente divididas, enfrentamos o terrorismo onde o ataque vem que quem está entre nós.

 

Identificado este sintoma, o autor passa a elaborar sobre as causas. E a principal causa é vivermos numa sociedade consumista, do querer sempre mais, em que nos auto-exploramos (já ninguém necessita de chicotes para obrigar a trabalhar, o chicote utilizamo-lo nós próprios em nós mesmos). em que nos impomos ritmos de vida alucinantes. Dividimos a nossa atenção entre uma miríade de focos e em que não temos tempo para aprofundar nada.

 

Byung-Chul Han repara, e bem, que mantendo este ritmo não vamos conseguir fazer nada de novo, vamos apenas continuar a fazer mais do mesmo, talvez só mais depressa. A verdadeira mudança exige a sabedoria de saber parar, saber dizer que não, de querer fazer diferente. O cansaço não é o nosso inimigo. O cansaço é um sintoma que devemos ter a sabedoria para saber escutar, para dizer que não e mudar o que verdadeiramente nos está a matar neste tempo: nós mesmos.

 

Livro: “A sociedade do cansaço”, Byung-Chul Han, Relógio D'Água, 2014

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Estado corrente

22.10.18

Não me sacudam que estou cheio de lágrimas.

 

Louis Calaferte, a partir de uma entrevista de António Lobo Antunes

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DSC_1254.JPG

 

Serra de Sintra, 2018

 

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Por mais que tente manter-me no presente sou regularmente assombrado por fugazes fantasmas do futuro. O futuro, no que ele encerra para o fim do que hoje existe, é uma sombra constante sobre o presente. Não quero saber do que está para lá da curva, quero manter-me no presente, mas o que está para lá da curva, seja o que for,  já começa a lançar as suas sombras sobre o caminho. O que não ainda não existe, o imaginário mas inevitável futuro, é hoje o que de mais concreto tenho nos meus dias. 

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Certeza é uma palavra sem beleza

Conforme o tom que nela se coloca;

Dúvida: eis a palavra que convoca

Beleza com certeza.

 

António Barahona, OCARINA

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O conceito de sucesso que nos é incutido desde o berço é baseado no consumo, em ter mais que os outros e, acima de tudo, em todos acharem que têm o direito a tê-lo. Vivemos numa sociedade formatada para o consumismo. A vida de sucesso é-nos apresentada como tendo que ser uma sucessão de prazeres, e tudo o que esteja aquém deste objetivo inexistente é pouco. É uma sociedade de adultos infantilizados. O meu receio é que a gerações mais novas, cuja bitola se rege pelo que vêm nas “redes sociais” sejam ainda casos mais extremos deste conceito do que é ser-se feliz, profundamente perigoso a longo prazo para o bem-estar espiritual de cada um. Portanto, lembrar que a vida e a felicidade exigem sacrifício e dor, que nenhum de nós é especial nem o centro do universo e que o sentido da vida está em sabermos escolher aquilo por que queremos sofrer, em vez de ser escolher o que queremos ter, pode parecer demasiadamente óbvio mas talvez seja mesmo necessário. O título e a linguagem em que está escrito dão um ar leve ao texto, mas as questões são importantes.

 

No entanto, é tarefa inútil. Como aqueles vídeos ou textos inspiradores colocados nas a transmitir que a verdadeira vida está fora das “redes sociais”. Para quem os entende não são verdadeiramente úteis, para os outros, que concordam num aceno breve de admiração e os partilham de imediato com os seus “amigos” passando logo a atenção para os posts que se seguem e são de imediatos esquecidos.

 

Livro:  “A Arte Subtil de Saber Dizer que se F*da”,  Mark Manson (Desassossego)

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Outono

10.10.18

Vitória da Natureza.jpg

 

Autumn is more the season of the soul than of nature.

 

Nietzsche

 

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Perante o indizível, o sentimento mantém-se puro, incontaminado pela palavra.  Mas o sentimento tem o tropismo de escapar de dentro de nós, como o ar que procura a baixa pressão, “há um aperto doloroso, que nos faz sentir tudo aquilo que sentimos falta” (Cláudio Magris, Instantâneos). A palavra liberta o sentimento, sim, mas transforma-o numa sombra da sua essência. Para libertar o sentimento mantendo-o puro as lágrimas são a solução (uma lágrima é a essência pura do sentimento). Isto se eu o conseguir...

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Sendo a vida um entre nadas, entre dois nadas distintos, ela é também um outro nada. Nada somos para além de uma breve centelha de auto-consciência num Universo que nos ignora. Somos um nada entre dois nadas. Mas este nada que somos é distinto do nada de antes de existirmos e do nada do depois de existirmos. É um nada que é tudo o que temos. É um nada que é tudo.

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