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Ondas de tempo

30.11.18

Viver é uma relação com o tempo. O tempo que passa, o tempo que passou e o tempo que virá. A beleza disto é que o tempo não existe, o que existe são eventos do momento.  O tempo é imaginário, algo de intimo de extremamente pessoal. Somos nós, cada um de nós, que deve ter o trabalho de inventar o seu tempo. Imagino o meu tempo como as ondas de um oceano que eu tento surfar. É preciso observação e paciência para escolher a que ondas devemos tentar apanhar. E de vez em quando, apanho uma onda. A maioria das vezes são as ondas que passam por mim. É preciso a sabedoria do surfista para escolher as melhores ondas. É que nem todo o tempo que temos em nós é mesmo nosso.

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não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino.

 

Paulo Leminski

 

Discutir com o destino, ou com o Universo e as suas regras que nos reduzem a um nada, é um inútil desperdício de tempo e energia. Aceitar o nada e a impermanência seria bastante mais sensato. Ainda assim…deixar de discutir soa a desistência. O que nos resta, senão gritar, gritar, como quem tenta calar o mar, contra o tempo e as forças do Universo?

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O tempo é isso, e por isso nos fascina e inquieta, e talvez também por isso, leitor, irmão, está a ler este livro. Porque não é mais que uma instável estrutura do mundo, uma flutuação efémera no acontecer do mundo, aquilo que tem a característica de dar origem ao que somos: seres feitos de tempo. Que nos faz existir, que nos dá o presente precioso da nossa própria existência, que nos permite criar a ilusão da permanência, que é a origem de todos os nossos sofrimentos.

 

Livro: A ordem do tempo, Carlos Rovelli, Ed. Objetiva 2018

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O Beijo

16.11.18

O Universo é descrito melhor em termos de eventos do que de existência. Carlo Rovelli descreve a diferença da seguinte forma: um beijo é um evento, uma pedra é uma existência. Se faz sentido perguntar onde estava aquela pedra ontem ou onde estará amanhã, fará algum sentido questionar onde estava ontem este beijo que te dou agora ou onde estará ele amanhã? E é isso que nós somos: um evento, uma complexa reação física e química, em constante mutação, num equilíbrio efémero, uma chama que se auto-consome que, por mero acaso e sem ser esse o objetivo, deu origem à consciência. Impermanentes por definição. Qual o sentido de perguntar onde estava eu antes de existir ou onde estarei depois de terminar? O que sobrará de mim? O mesmo o que sobrou daquele beijo imaginado: uma suave memória da sua existência.

 

Livro: A ordem do tempo, Carlos Rovelli, Ed. Objetiva 2018

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O livro “A ordem do Tempo” destruiu tudo o que pensava saber sobre o tempo. De uma forma quase poética Rovelli explica conceitos extremamente complexos e demonstra que este universo onde vivemos é bem mais estranho que que poderíamos supor. A dúvida é se o nosso cérebro (o do Homem) estará à altura de conseguir compreender toda a complexidade do universo. Não existe qualquer motivo para que tal aconteça. Mas supondo que sim, Rovelli leva-nos por uma viagem a um mundo alucinante e extremamente estranho, que é o mundo do que sabemos hoje sobre o nosso Universo.

 

O que se conclui é que o tempo não é necessário na explicação do Universo. Que não faz parte integrante do que existe. A noção que temos de tempo e do seu fluxo em sentido único é algo que emerge do que existe no Universo, que resulta de conhecermos o mundo de forma desfocada, mas que não existe per si no Universo. O que move o universo não é o tempo, nem a energia, é a entropia (que é única variável física fundamental que tem uma direção, tende sempre a aumentar).

 

Estas ideias de “A ordem do tempo” consistem numa revolução copernicana que, sem mudar nada, nos dá uma perspetiva totalmente diferente do que é este estranho mundo, em que o tempo é um subproduto involuntário do que existe, tal como o somos nós próprios. O tempo só existe para nós, para cada um de nós, e não para o Universo. O nosso sentido do fluxo de tempo resulta de registarmos memórias do passado e de tentarmos prever ou antecipar o futuro. Porque o que existe é apenas o presente e nada mais. O tempo somos nós, o tempo é imaginário.

 

Livro: A ordem do tempo, Carlos Rovelli, Ed. Objetiva 2018

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Quando o Universo nos olha de frente e demonstra a nossa insignificância em toda a sua brutalidade as palavras tornam-se inúteis para descrever o negro sentimento que nos impõe o sem-sentido da nossa existência. Agarro-me ao momento, a viver apenas o agora, como naufrago que se segura a uma pequena esperança perdida na imensidão do oceano gelado.

 

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Na adversidade encontro algum consolo em ter um bom livro na mão, seguro-me ao livro como se fosse a boia que me pode vir a salvar do naufrágio inevitável. Para este efeito tem que ser um livro não demasiado grande, tenho que o conseguir agarrar facilmente com uma única mão, e considero especialmente indicados livros de filosofia ou astrofísica. Penduro-me ao livro como se fosse a minha última ligação a um mundo imaginário, onde não existe a insensibilidade deste Universo em que nada somos e em que nada tem que fazer sentido.

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1 de novembro

02.11.18

Desde da morte do meu pai que nos dias 1 de novembro, o dia de todos os santos que por tradição utilitária acumulou com o dia dos fiéis defuntos, que é assinalado no dia 2 de novembro, me desloco ao cemitério da aldeia e assisto à cerimónia religiosa junto à campa de meu pai. Não o faço por religião, faço como um ritual pessoal para honrar a memória de meu pai, e de outros mortos da família, e como sinal de amizade para com os vivos. 

 

O padre era muito novo, talvez ainda nem sequer fosse padre, hesitante na oratória, pouco convincente na palavras. É timbre de qualquer padre saber falar com segurança e convicção independentemente do disparate que esteja a dizer. Neste caso, no jovem aprendiz essa qualidade, se é que se trata de uma qualidade, estava ausente. Talvez seja sinal da crise de vocação para o sacerdócio de que oiço falar. Mas algo ele titubeou que fez o seu sentido: a morte é certa, e esta peregrinação anual aos cemitérios deveria servir tambémpara nos recordar que devemos viver a vida na sua plenitude. Claro que a partir deste ponto o conceito de viver a vida na sua plenitude difere, para o padre era sofrer em vida para ganhar a vida eterna depois de morto, para mim é usufruir o melhor possível deste instante extremamente improvável que é estarmos vivos e conscientes disso, antes que o nada regresse a nós.

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