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Há alturas em que não posso deixar de pensar no passado. Sei que o presente é o lugar para se estar. Foi sempre o lugar para se estar. Sei que me foi recomendado por pessoas muito sensatas que permanecesse no presente o mais possível, mas o passado apresenta-se. O passado não vem como um todo. Vem sempre em partes.

 

Sam Shepard (1943-2017), Espião Na Primeira Pessoa (Quetzal, Agosto de 2018) 

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- Imagine um elefante – repetiu Raskolnikov.

- Imagine que uns quantos cegos dele se abeiram para o descrever. O primeiro, por apalpar a tromba, diz que o elefante se assemelha a uma cobra. O segundo, porque apalpa uma pata, diz que um elefante é como a coluna do templo de Shiva. Outro, o terceiro, por agarrar a cauda, julga que um elefante é como uma corda. O quarto, por apalpar a orelha, diz que o animal é parecido com um leque muito grande. O que se encostou ao corpo do elefante diz que ele se parece com uma parede. O sexto, que ficou sob o elefante, sob o seu peso, diz que ele se parece com o seu amigo Bombo.

E nós, caro Bonfim, lembramo-nos das coisas como os cegos a apalparem um elefante. Lembro isto porque poderá ajudá-lo um dia. Todos nós teremos, se não temos já, um elefante para perceber. E a questão é percebê-lo todo. Meu caro senhor, eu compreendi muito bem que o passado pode ter um grande futuro pela frente.

 

Afonso Cruz , Os livros que devoraram o meu pai

 

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Perante esta ausência tão inevitavelmente definitiva a tarefa mais urgente é construir memórias. A memória não é algo cristalizado que reflete uma realidade passada e imutável, é antes uma construção pessoal, que nunca está terminada, manufaturada dentro de nós com doses variáveis de realidade, invenções e esquecimentos.  A missão fundamental agora é saber que memórias quero construir para nós e, num trabalho contínuo de artificie procurar memórias e escolher, rejeitar, aceitar ou moldar. O meu trabalho é o de o jardineiro a construir um jardim que é só nosso. Mas entre as flores do jardim da memória há plantas que queremos eliminar seletivamente, rejeitar memórias daninhas, que se não forem mondadas de imediato ameaçam crescer desmesuradamente e abafar as muitas memórias boas, bonitas, carinhosas e quentes que devo proteger a todo o custo. E este é o maior desafio do construtor de memórias, pois estas memórias daninhas exigem uma atenção permanente pois, quando menos se espera, surgem assim de repente, do nada, no meio de todas as bonitas, coloridas e cheirosas flores do nosso jardim, a causar uma dor negra como a noite que a nossa história de amor não merece.

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Quero dizer-te uma coisa simples: a tua

Ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não

Magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,

Por isso, de deixar alguns sinais - um peso

Nos olhos, no lugar da tua imagem, e

Um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes

Tivessem roubado o tacto. São estas as formas

Do amor, podia dizer-te; e acrescentar que

As coisas simples também podem ser complicadas,

Quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade.

Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a

Realidade aproxima-me de ti, agora que

Os dias correm mais depressa, e as palavras

Ficam presas numa refracção de instantes,

Quando a tua voz me chama de dentro de

Mim - e me faz responder-te uma coisa simples,

Como dizer que a tua ausência me dói.

 

Nuno Júdice

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Seremos semrpe 4.jpg

 

Imaginámo-nos velhos, de mãos dadas pela rua, com filhos crescidos e felizes, a usufruir juntos de uma velhice tranquila. Nada disto vai acontecer. Não vais ver os nossos filhos a crescer, eles não terão uma mãe que os apoie e que fique orgulhosa das suas conquistas ao longo da vida, e nós, nós nunca seremos dois velhinhos juntos de mãos dadas pela rua. Eu nunca mais terei o teu sorriso especial, que acreditava que fazias só para mim, nem o teu ombro e aconchego nos nossos serões tranquilos, nem as nossas conversas, nem o teu cheiro único, nem os nossos abraços, nem poderei voltar a adormecer de mãos dadas contigo. Agora nada me parece fazer sentido não sendo partilhado contigo. Tenho saudades de um futuro que não nos foi permitido, o nosso amor não nunca deveria ter terminado desta forma. Mas, como se vê, para o Universo o amor é coisa vã.

 

O que sinto? Sinto dor, revolta, vontade de esmurrar o Universo que permitiu este sem-sentido, esta crueldade, esta estupidez. É ridículo interromper assim os nossos sonhos de uma velhice juntos. Sinto culpa, por termos desperdiçado um segundo que seja do tempo que tivemos juntos, por não termos partilhado tudo ainda mais intensamente. E culpa por nem tudo ter sido perfeito no tempo que nos foi dado. Mas sinto sobretudo saudade, uma saudade profunda e definitiva. Sei que esta força telúrica dos sentimentos, sobretudo esta saudade tão densa, me irá acompanhar na vida. Mas tenho que pensar que temos dois filhos, seres inocentes que têm de crescer e ser educados, para serem pessoas felizes, de princípios, completas e equilibradas, e que fiquei sem ti nessa responsabilidade esmagadora. E será essa a minha força.

 

Nunca a palavra ausência teve um significado tão permanente. Agora que partiste, sinto-me como se me tivesse apaixonado novamente por ti, como nos nossos primeiros tempos de namoro, o mesmo desejo permanente de estar contigo, um constante chamar por ti, uma saudade sempre insatisfeita, um perpétuo viver nas memórias do que de tão bom passámos juntos, num turbilhão de emoções por ti. Tudo isto, sem ti. É difícil de acreditar que são as memórias tudo o que resta. Estarás sempre connosco enquanto não te esquecermos, será esse o fraco consolo.

 

Quando tive a dolorosa tarefa de dizer aos nossos filhos que tinhas partido disse-lhes que continuavas viva dentro de nós, que enquanto formos vivos e te amássemos continuarias viva em nós. Quando por fim lhes disse para irmos os três dormir porque estávamos cansados, o nosso filho A., com a sua alma de poeta, disse: nós os três não, os quatro. E assim será, continuaremos a ser quatro. Seremos nós os quatro para sempre Principessa.

 

Baci.

 

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