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rua do imaginário

Porque existe algo em vez do nada?

Porque existe algo em vez do nada?

rua do imaginário

30
Mar20

Emergências

Vivemos em duas situações de emergência: desde há cerca de duas semanas devido ao coronavirus, e outra, que já conhecemos há algumas décadas, de emergência climática. Se nada fizermos as alterações climáticas vão provocar muito mais morte e sofrimento que esta pandemia, mas foi este medo imediato da pandemia que fez a montanha mexer-se. Nas ameaças climáticas a espada pende sobre as próximas gerações, sobre os nossos filhos, os nossos netos e seus descendentes. Como sabemos que ao manter o nosso estilo de vida consumista estamos a roubar vida aos nossos filhos, alguma culpa inconsciente deverá residir em nós, enquanto sociedade. Para mim foi surpreendente a mudança imediata e drástica provocada pela pandemia. Provavelmente esta reação tão célere perante a pandemia seja também, em parte, fruto de um profundo sentimento de culpa pela inação egoísta perante uma ameaça mais grave à vida dos nossos filhos e gerações seguintes.

28
Mar20

O regresso ao normal

As ruas da cidade estão vazias. Para entrar no supermercado é preciso esperar numa fila esticada de seres humanos, a maioria  assustados, outros espantados. Mas o que mais impressiona é o silêncio das pessoas. Duvido sobre qual pandemia mais perigosa: se a provocada por um virus se a provocada por um medo. E que medo é este? De que profundidades subiu agora este medo à tona?

 

Será medo da doença ou da morte? A vida sempre foi muito frágil, é estranho que seja este o medo. Será medo de perder para sempre um estilo de vida? Ou será que esta pandemia foi tão somente a ignição que revelou um cansaço acumulado, um mal-estar latente de uma vida vivida em permanente desiquilibrio?  

 

Espera-se pelo regresso ao normal, mas creio que esse será o maior erro: o nosso anterior normal foi, também ele, parte do problema.

23
Mar20

Pandemia, os números que importam

Nestes dias de pandemia todos os dias somos inundados com números, como se tudo o que existe e o que não existe fosse possível de simplificar com uma estatística, até mesmo o novo silêncio das ruas vazias da cidade. É também nestes dias que mais precisamos dos poetas, para nos recordar que existem outros números bem mais importantes.

 

Em cem pessoas,

 

sabedoras de tudo melhor —

cinquenta e duas;

 

inseguras de cada passo —

quase todo o resto;

 

prontas para ajudar,

desde que não demore muito —

quarenta e nove;

 

sempre boas,

porque não conseguem de outra forma —

quatro, talvez cinco;

 

dispostas a admirar sem inveja —

dezoito;

 

constantemente receosas

de algo ou alguém —

setenta e sete;

 

aptas para a felicidade —

vinte e tal, quando muito;

 

individualmente inofensivas,

em grupo ameaçadoras —

mais de metade, com certeza;

 

cruéis, 

por força das circunstâncias —

é melhor não sabê-lo,

nem aproximadamente;

 

com trancas na porta depois da casa roubada —

quase tantas como

aquelas que as têm, antes da casa roubada;

 

não levando nada da vida a não ser coisas —

quarenta,

embora preferisse estar enganada;

 

agachadas, doloridas

e sem lanterna no escuro —

oitenta e três,

mais tarde ou mais cedo;

 

dignas de compaixão —

noventa e nove;

 

mortais —

cem em cem.

Número, até agora, não sujeito a alterações.

 

Wisława Szymborska, in Instante, tradução de Elżbieta Milewska e Sérgio Neves, Relógio D'Água

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