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rua do imaginário

Porque existe algo em vez do nada?

Porque existe algo em vez do nada?

rua do imaginário

29
Jul20

Distanciamento Social

O léxico que escolhemos utilizar não é inócuo. Pensamento e a linguagem são gémeos siameses, um e outro definem-se mutuamente e crescem entrelaçados. Com o início do desconfinamento (outra das palavras interessantes destes tempos) nasceu a expressão “novo normal” para caracterizar as rotinas de um regresso a uma vida “normal” mas diferente. O que seria crucial nesta fase de oportunidade (as crises são também uma oportunidade) seria construir novas regras de vida em sociedade que nos ajudem na real emergência que coloca em risco a vida desta e das próximas gerações e que esta geração tem a suprema responsabilidade de enfrentar: a emergência climática. O novo normal não pode ser igual ao antigo normal só que com máscara, álcool gel e medo, muito medo.

 

A expressão que marca este “novo normal” é o constante apelo ao “distanciamento social”. Ora, o distanciamento que é necessário para travar a pandemia é somente físico, não é social. O que se exige é que socialmente sejamos cada vez mais unidos. Distanciamento social significa distância sim, mas também desunião e indiferença. Não podemos olhar para o outro com medo, fugindo dele quando nos cruzamos na rua com receio da sua peçonha, entendendo a presença do outro como uma ameaça permanente sobre nós.

 

O que se deve temer é que, quando o distanciamento físico deixar de ser necessário, a cicatriz do distanciamento social que a pandemia está a alimentar se torne permanente. Uma sociedade egoísta e sem empatia, sendo que alguns impõem os seus medos a todos os outros. Será uma distopia pouco solidária e muito solitária, onde não se hesita em limitar liberdades, enclausurar os mais velhos e em abandonar os desfavorecidos ou os infelizes. Cada dia será viver num ambiente hostil, em território inimigo, rodeados por um veneno que, ao contrário deste vírus, é bem visível.  Uma sociedade fundada sobre um medo, um medo irracional, de nada nos serve.

 

20
Jul20

Memórias do futuro

O passado e o futuro são ambos igualmente irreais e as nossas memórias do passado valem tanto como memórias do futuro, se nós as tivéssemos. Aliás, o que será o instinto senão memórias do futuro? O pássaro que nasce a saber como fazer um ninho ou a enguia que assim que nasce, uma criatura minúscula, sabe que se tem que dirigir para um rio do outro lado do oceano e que, anos mais tarde, sabe que deve  regressar ao local de nascimento para se reproduzir, não nascerão eles já com memórias do futuro?

 

O que me levou a pensar o que seria a vida se tivéssemos acesso às nossas memórias do futuro e não do passado. Ao nascer seríamos sábios, teríamos toda a experiência da vida à nossa frente, as alegrias, os desgostos, as cicatrizes e a falta de espanto que marcam o coração da velhice. E também a tranquilidade e paz de espírito de quem já viveu o que tinha a viver e tem a sabedoria de conhecer a verdadeira importância de cada coisa. Nasceríamos com experiência de viver. Enquanto crescíamos iríamos progressivamente esquecendo-nos do que aprendemos e com a idade iriamos ganhar a alegria de viver, a ânsia de conhecer e experimentar, o prazer dos sentimentos por estrear, cometer os erros da juventude, sentir o espanto perante o mundo e sorrir com a alegria e inocência das crianças. Morreríamos de velhice mas totalmente livres de memórias, como um bebé.

16
Jul20

A maldição do tempo linear

Fomos habituados a pensar o tempo como sendo um fluxo entre o passado e o futuro, uma linha temporal que avança e, desgraçadamente, aparentemente cada dia com maior velocidade. Esta forma de sentir o tempo é algo exclusivamente humano (não creio que outros animais sintam o tempo desta forma) e mesmo para a humanidade será uma forma recente de entender o tempo. Este sentido do tempo linear significa que o tempo é percecionado como uma deslocação entre dois pontos, em que existe uma origem e um destino, destino esse que será um local diferente da origem. Uma viagem, portanto. Uma viagem entre um passado e um futuro que lhe será diferente, para melhor, esperamos todos.

 

Imaginamos esta viagem porque temos memórias do passado e não as temos do futuro, tal como numa vigem em que deixamos para trás o local de onde partimos, que conhecemos, e vamos para um destino, que não conhecemos. E também porque a rápida evolução tecnológica nos últimos séculos nos habitou a pensar que a vida no futuro seja algo diferente do que foi a vida no passado. Mas nem sempre foi assim, nem sempre o Homem assumiu que existe uma evolução na vida, as mudanças eram lentas e imperceptíveis no período da vida humana. Durante milénios para o Homem o tempo foi fundamentalmente circular. Nunca foi uma viagem linear, mas ciclos que se repetiam. A noite e o dia que se sucedem, o ciclo lunar, o ciclos das estações, o ciclo do ano, os ciclos da Natureza e das colheitas e o próprio ciclo da vida, com o nascimento e a morte e a sucessão das gerações. Durante milénios da história da humanidade ninguém esperava que o futuro fosse um sítio diferente do que foi o passado.

 

O certo é que nem o futuro nem o passado existem. Não estamos a viajar entre eles. Estamos no momento presente, tão somente. Estamos presos ao presente. O passado é apenas uma memória algures nas misteriosas ligações químicas das sinapses dos neurónios do nosso cérebro, o futuro nem isso é. Curiosamente sentimos que o passado está nas nossas costas e o futuro à nossa frente. O que é estranho: se o que conhecemos é o passado, estamos na realidade olhar para o passado e de costas para o futuro, que não conseguimos ver. A ser uma viagem, viajamos de costas voltadas para o destino.

 

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