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rua do imaginário

Porque existe algo em vez do nada?

Porque existe algo em vez do nada?

rua do imaginário

28
Mai19

O homem e a máquina

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Faz hoje 20 anos que estamos juntos. Partilhámos momentos de felicidade total, mas também lutámos contra ventos, chuvas, frio e calor. Dentro do capacete, aos teus comandos, meditei, perspetivei a vida, filosofei, senti-me apaixonado, sorri e, algumas vezes, também chorei. Fiz viagens com o meu amor.  Ganhei incontáveis horas de vida no inferno do trânsito e estacionamento da cidade, uma verdadeira máquina de fazer tempo. Atrevo-me a afirmar, por inverosímil que pareça, que tal como  nos casais antigos, o tempo deu-nos personalidades semelhantes. O homem adaptou-se à máquina e a máquina ao homem. De uma coisa tenho a certeza: sem a mota eu não seria a mesma pessoa.

27
Mai19

Viver devagar

Vivemos numa era onde tudo acontece depressa. Construímos máquinas para fazer mais depressa, que aceleram o nosso tempo, mas esquecemos que nós, seres humanos, surgimos e evoluímos de forma extremamente lenta. Nós somos seres de um tempo em que tudo era extremamente mais lento. E hoje, na pressão de acompanhar a velocidade das máquinas que construímos, estamos a deixar que se perca a nossa verdadeira essência.

 

Somos permanentemente empurrados para a frente, num desequilíbrio constante em direção ao futuro, esquecendo de que o único que nós temos é somente o momento. Em cada instante pensamos no que vamos fazer a seguir, tentamos fazer várias coisas ao mesmo tempo, geralmente nenhuma bem, fazemos sempre o que é urgente e nunca o que é importante e, muitas vezes, esquecemo-nos de pensar antes de fazer.

 

O tempo passa por nós depressa, demasiado depressa, estamos sempre a tentar chegar a um destino, esquecendo que a vida não é um destino, é uma viagem. Já devíamos há muito saber que, muito mais importante que a velocidade, é a direção.

 

A Esporão, uma empresa alentejana de produção de vinho (em que o tempo é ingrediente fundamental da sua produção) fez uma campanha publicitária para promoção do “slow living”. Deixo aqui o texto associado a esta campanha.

 

MANIFESTO

 

Vivemos no tempo da pressa. Crescemos depressa. Trabalhamos depressa.

Comemos, bebemos, dormimos depressa.

Esquecemos depressa o que vemos depressa. E quando lemos, lemos depressa.

Amamos depressa. Fartamos depressa. E quando não enviamos emojis, escrevemos dprs.

Depressa não é para a frente. É só… urgente.

Depressa é à pressa.

 

Nós somos da terra do devagar.

Devagar tem outro sabor. Devagar é melhor.

Devagar tem respeito.

Devagar é um talento, e vai longe.

Sim, vivemos no tempo da pressa.

Mas se tudo o que fizermos for para ontem, o que acontece a hoje e ao amanhã?

 

Há várias maneiras de andar para a frente. Esta é a nossa.

 

www.maisdevagar.pt.

 

 

29
Abr19

A beleza da rosa

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A beleza que vemos numa rosa tem a sua primeira origem nas raízes da roseira, que nos são invisíveis. Tal como na rosa, a beleza que vemos num ser humano tem também raiz no que nos é invisível aos olhos: o passado, as experiências, as memórias, os sofrimentos, as alegrias. Infinitos acontecimentos que, de forma misteriosa, se tornam visíveis na alquimia que transforma o invisível em beleza.

26
Abr19

Dia da Liberdade

 

pensei 
que a liberdade vinha com a idade
depois pensei
que a liberdade vinha com o tempo 
depois pensei 
que a liberdade vinha com o dinheiro
depois pensei 
que a liberdade vinha com o poder
depois percebi 
que a liberdade não vem
não é coisa que lhe aconteça
terei sempre de ir eu


Sónia Balacó

24
Abr19

A Mulher Mais Bonita do Mundo

 

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram 
flores novas na terra do jardim, quero dizer 
que estás bonita. 

entro na casa, entro no quarto, abro o armário, 
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio 
de ouro. 

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como 
se tocasse a pele do teu pescoço. 

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim. 

estás tão bonita hoje. 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

estás dentro de algo que está dentro de todas as 
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever 
a beleza. 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

de encontro ao silêncio, dentro do mundo, 
estás tão bonita é aquilo que quero dizer. 

 

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão" 

23
Abr19

O preço da felicidade

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A felicidade, enquanto estado de momento, é algo inalcançável. Tal como o horizonte, quanto mais caminhamos em sua direção mais de afasta. Isto é evidente, não fosse a tragedia de nestes tempos de consumismos sermos permanentemente, e desde da mais tenra infância, inundados com o conceito de que a felicidade é algo que se pode obter, principalmente se custar dinheiro e der lucro a alguém. É curioso como é rara a revolta quando, neste comércio da felicidade, não se obtém o resultado pretendido e se exige a devolução do dinheiro gasto no perfume caríssimo, no automóvel exclusivo, nas férias exóticas ou no telemóvel topo-de-gama, depois de verificar que a sua aquisição não o nos deixou nem um milímetro mais perto de atingir a felicidade. Não se exige a devolução porque, no que diz respeito à felicidade, o importante é que exista esperança de a atingir. Enquanto houver esperança de um dia chegarmos à felicidade somos, de uma certa maneira, felizes.

 

Mas a realidade é diferente e a felicidade não é uma emoção de momento. Emoções de momento são a alegria ou o bem-estar. A felicidade é algo de mais difuso, um permanente ruído de fundo, que não se atinge atirando dinheiro para cima da nossa vida. É um subproduto de uma vida vivida da forma correta, nada mais. É o resultado de um esforço, não para se ser feliz, mas de viver a vida da melhor maneira possível. A felicidade, tal como o amor, não se procura nem se compra, acontece-nos se tivermos a sorte e a arte para a merecer.

 

Livro: A Arte da Vida, Zygmunt Bauman, Edição: Relógio D'Água

01
Abr19

Dia das mentiras

A homenagem é mais que merecida: é a mentira que faz a humanidade. A capacidade humana que decididamente torna o Homem diferente do resto da natureza é a capacidade de mentir, portanto, a estranha faculdade de pensar e de acreditar no que não existe. E foi assim que a criatura se tornou em criador.

20
Mar19

Medo da palavra

 

“Silence is so accurate”, Mark Rothko

 

Qualquer palavra é uma simplificação de um sentimento, é uma tradução que, inevitavelmente como em todas as traduções, distorce o original. E é esse o perigo das palavras. Se te digo a palavra “azul”, não tenho forma de saber se o “azul” que eu digo é igual ao “azul” que tu pensas. Estamos inapelavelmente impedidos de comunicar plenamente pela palavra, e é esse o meu medo. Se isto acontece com a palavra “azul”, o que acontecerá se te disser “amor”?

 

Só o silêncio é verdadeiro.

01
Mar19

Na tua ausência

 

Se não tivesse descansado no teu ombro

Não sentiria hoje este vazio

Ao aconchegar-me sobre a tua ausência

 

Se não tivesse sentido o teu calor

Não sentiria hoje este frio

Quando durmo abraçado à tua ausência

 

Se não tivesse conhecido o teu abraço

Não sentiria hoje esta solidão

Na companhia da tua ausência

 

25
Fev19

O lugar da minha dúvida

Se eu falar contigo, se tentar

uma palavra, uma respiração de cada vez;

se escutar entre as palavras,

se avançar lentamente,

vens até este lugar

que abriste para a minha

dúvida?

 

Leonard Cohen, A CHAMA, Ed. Relógio de Água

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