Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

rua do imaginário

Porque existe algo em vez do nada?

Porque existe algo em vez do nada?

rua do imaginário

29
Out21

Além-Guadiana

Iniciamos a jornada saindo de Alcoutim em direção a norte, afastando-nos temporariamente das margens largas e suaves do Guadiana e usufruindo de estradas tranquilas emolduradas pela paisagem levemente ondulada. Na passagem pela bonita vila de Mértola fazemos uma breve paragem e aproveitámos para abastecer as malas da mota com umas sandes e umas bebidas para o almoço e retomamos a viagem atravessando o rio Guadiana junto de Mértola. Na margem esquerda do rio tem-se uma bela perspetiva de Mértola, com as suas muralhas empoleiradas sobre o Guadiana.

 

Aqui o rio Guadiana é bastante mais estreito e as suas margens mais rochosas escarpadas do que quando o deixámos, há uns momentos, em Alcoutim. Poucos quilómetros a norte de Alcoutim, numa inflexão do rio e por circunstâncias da história, o Guadiana deixa inopinadamente de ser a fronteira natural com Espanha. E agora, depois de cruzar o rio em Mértola, estamos na sua margem esquerda e continuamos a viajar em território português, em terras de Além-Guadiana. Foi junto da localidade de Minas de São Domingos, na praia fluvial da Tapada Grande, que fizemos uma relaxada merenda com base nos mantimentos armazenados na mota. Após a refeição retomou-se a viagem sem novidades, sempre rumo a norte e junto à raia, a cruzar as estradas calmas do Alentejo. Na localidade de Safara fazemos uma breve pausa, no calor intenso da tarde. O nosso alojamento do dia seria em Moura e teríamos de decidir se íamos visitar Barrancos, o que, estando em Safara, significa uma viagem de 40 km em cada sentido. Barrancos é das localidades mais isoladas deste país, é o arquétipo português da povoação isolada, sendo que a localidade portuguesa mais próxima, Santo Aleixo da Restauração, dista 21 quilómetros de Barrancos. Decidido que iríamos a Barrancos, voltámos a meter rodas à estrada.

 

A ligação entre Safara e Barrancos pela N258 é um fantástico percurso para se usufruir de mota. Curvas bem delineadas a navegar entre a ondulação da paisagem, com bom piso e trânsito quase nulo. Apesar da tarde muito quente de agosto foi um enorme prazer conduzir neste percurso que permitiu momentos de total imersão na alegria superior que é viajar de mota. E foi assim que, no que nos pareceu um instante, chegamos a Barrancos, vila caiada de branco, de casas aglomeradas, ruas estreitas, cuidadas e orgulhosas. Estava uma tarde muito quente e o sol ainda seguia alto, dirigimo-nos para o centro da vila e estacionámos a mota à sombra da igreja paroquial. O calor não convidava a passeios pedestres e assim a nossa paragem resumiu-se a um tempo de descanso na esplanada de uma pequena tasca junto da praça. Era necessário decidir o nosso próximo destino. Na ideia inicial da viagem estava previsto visitar o castelo de Noudar, a cerca de 12 quilómetros de Barrancos. Mas, erro nosso, ao ler os comentários assustados de outros visitantes do castelo, ficámos a saber que o percurso até lá é através de uma picada de terra batida de uns longos 8 quilómetros em cada sentido, aparentemente nem sempre em bom estado. O calor intenso e o risco de sofrer um furo acabou por ter o seu peso e foi decidido que não se iria a Noudar.

 

O espaço para a ucronia, a imaginação sobre o que poderia ter acontecido mas que não aconteceu realmente, também é parte integrante do mistério de cada viagem. Se o que aconteceu é memória, o que não aconteceu, mas podia ter acontecido, é silêncio. E o silêncio também é belo. O Castelo de Noudar é o momento de silêncio da viagem, o momento de todas as possibilidades, quando naquela tarde quente numa sombra de Barrancos foi decidido não ir a Noudar. Mas há algo que ficou definido: noutro tempo estes viajantes irão a Noudar.

 

Na saída da vila seguimos, por um mero acaso da decisão algorítmica do GPS, por uma estrada diferente da que tínhamos percorrido na chegada e passamos por um local muito belo: o Baloiço de Ferrenha. Uma vista enorme sobre a planície enrugada destes territórios avistando-se ao longe a mancha branca do casario de Barrancos. E ouvia-se o silêncio. Silêncio que foi brevemente interrompido por duas mulheres que aparecem num automóvel, saltam lá de dentro, tiram duas ou três fotografias sem tão pouco olhar para a paisagem e, tão depressa como chegaram, voltam a entrar em furacão na viatura desaparecendo a alta velocidade. Depois de partirem, regressou o silêncio.

 

A ligação entre Barrancos e Safara volta a proporcionar o mesmo prazer de condução da ida. Sem dúvida que esta é uma estrada que deixa muitas saudades. Depois de Safara uma longa e aborrecida reta leva-nos até ao destino deste dia de viagem, Moura. O Hotel de Moura revelou-se uma surpresa, um interessante edifício a nível arquitetónico, belamente revestido a azulejos e com um interior de nítida influência árabe, incluindo um belíssimo pátio central. Moura é uma cidade muito interessante, que nos surpreendeu pela sua dimensão, muito arranjada com as casas caiadas cuidadosamente decoradas com vasos floridos. Não foi no entanto simples encontrar um restaurante que servisse uma refeição vegetariana, mas lá se encontrou um local, a Taberna do Liberato, junto ao castelo, que nos apresentou uns petiscos e umas saladas que resolveram o problema.

 

É impossível passear em Moura sem nos depararmos de alguma forma com a lenda da moura Salúquia. Não poderia deixar aqui de referir esta lenda que estará na origem do atual nome da cidade e que nunca foi esquecida pelos seus habitantes. Segundo a lenda, a moura Salúquia, governadora da cidade, apaixonou-se por Bráfama o alcaide mouro de Aroche, uma localidade raiana que fica no que hoje é a Andaluzia. Nas vésperas do matrimonio Bráfama dirigia-se com a sua comitiva para se juntar a Salúquia. Os cavaleiros cristãos encarregues por D. Afonso Henriques de conquistar o castelo, estando a par dos preparativos da boda de Salúquia, emboscaram Bráfama na viagem e derrotaram a sua comitiva árabe. Os cavaleiros cristãos vestiram as vestes árabes e dirigiram-se para o castelo, onde Salúquia esperava ansiosamente a chegada do seu apaixonado. Salúquia, do alto da torre do castelo, vendo aproximar-se um grupo, que aparentemente era de árabes, ordenou de imediato que as portas do castelo fossem franqueadas para receber o seu esperado Bráfama. Tomados de surpresa os defensores do castelo, foram imediatamente atacados e facilmente vencidos pelos cavaleiros cristãos. Apercebendo-se do que estava a acontecer e, na certeza de que o seu apaixonado estaria morto, Salúquia atirou-se do alto da torre. Apesar da crueldade do ataque traiçoeiro, os conquistadores ficaram comovidos com a história do amor de Salúquia e renomearam a povoação para Terra da Moura.

 

IMG_0792.jpg

Mértola

 

 

IMG_0800.jpg

Ferrenha, com paisagem sobre Barrancos

 

IMG_0803.jpg

Rua de Moura

 

 

Links

  •  
  • Arquivo

    1. 2022
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2021
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2020
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2019
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2018
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2017
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2016
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2015
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D

    Subscrever por e-mail

    A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.