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rua do imaginário

Porque existe algo em vez do nada?

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rua do imaginário

02
Set15

Comércio ético

 

Existe nos países desenvolvidos uma procura crescente por um determinado de produtos designados por produtos éticos ou comércio justo. A motivação que sustenta esta procura é justa e fácil de compreender: há uma camada de população, maioritariamente informada, preocupada ambientalmente e com poder de compra, que tem reservas em comprar bens que na sua cadeia de produção não garantam um comportamento ético. Atitudes como a exploração de produtores agrícolas através da imposição de preços de compra esmagadores, a utilização de mão-de-obra infantil, o não respeito pelos direitos básicos de trabalhadores, o desrespeito pelo meio ambiente na produção ou o abuso de animais são atitudes reprováveis e que ninguém ao comprar um bem fica de consciência tranquila ao saber que não foi escrupulosamente respeitado. Necessariamente estes produtos têm um preço acrescido relativamente a outros produtos equivalentes que não garantem este comportamento justo.

 

De uma maneira geral o consumidor do primeiro mundo mantém uma atitude ambivalente sobres estes aspetos: por um lado sente-se incomodado por saber as condições que seres humanos são sujeitos para fabricar a sua última aquisição, por outro quer adquirir esse bem e ao preço mais baixo possível. Neste sistema consumista o importante é comprar, por isso essas questões são conciente ou inconscientemente ignoradas. Mas está a surgir uma grupo de consumidores que se mostra disposto a pagar mais para lhe permitir fazer um consumo que lhe possibilite manter a consciência tranquila.

 

Ao ver na televisão um programa canadiano sobre investimentos em negócios emergentes, em que se fazia a apresentação de um sitio na internet dedicado a vender exclusivamente bens produzidos com valores éticos, surpreendeu-me a reação emotiva de um dos potenciais investidores. Dizia este investidor que todos as empresas tentam garantir uma produção ética, que não existe qualquer garantia que um produto que se apresenta como ético seja de facto produzido de forma diferente e que o próprio conceito de “produção ética” representa uma mancha na cara do capitalismo, uma afronta a todos os bons consumidores. E neste ponto compreendo a razão do capitalista: a produção ética deveria ser um fundamento de toda e qualquer produção, e a produção não-ética seria um desvio que as regras da concorrência iriam eliminar naturalmente. Mas todos sabemos que o mundo não funciona assim, todos já comprámos bens produzidos à custa da exploração de agricultores, de crianças a trabalhar, de trabalhadores escravos, de fábricas que para produzirem mais barato poluem impunemente o nosso planeta e de animais tratados de forma atroz. Todos sabemos, mas ignoramos, que algumas das grandes marcas mundiais utilizam meios de produção não éticos.

 

O que creio que o capitalista liberal não concordaria é que para existir esta garantia num mundo globalizado implica existirem regras comuns que a “mão invisível” do capitalismo liberal não consegue garantir. Tem que ser garantido o produto à venda obedece a determinados critérios de produção, que sem intervenção de alguma entidade supra-nacional não se conseguem garantir. Essa entidade existe, é a OMC, Organização Mundial do Comércio. E a grande mancha no comércio globalizado regulado pela OMC é que se trata de forma igual duas empresas que produzem com pressupostos totalmente diferentes. E enquanto isto acontecer não existirá comércio justo, que trabalhadores continuarão a ser explorados, que o respeito pelo ambiente será ignorado e que os consumidores que queiram fazer uma compra consciente terão que pagar mais por isso.

 

 

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