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Das muitas ficções da Humanidade o conceito de “empresa” é assaz curioso: trata-se de um entidade com figura jurídica, com nascimento e morte, sucessos e insucessos. Pode inclusivamente pensar-se numa empresa como tendo uma personalidade própria, em função dos seus produtos, do seu marketing e do seu comportamento comercial. É uma ficção, e não é por não ser real que não é importante. Tem uma característica de existência que encaramos com naturalidade, quase como de um ser vivo se tratasse.

 

Uma “empresa” é um conceito imaginário que só existe na mente dos humanos e porque a cada momento um conjunto de pessoas contribui individualmente para a sua existência. A empresa não é um ente cuja existência se justifica per se. A empresa existe enquanto inserida numa sociedade. Todo o seu lucro é extraído da sociedade. E é este ponto que o pensamento liberal esquece com demasiada facilidade. O objetivo da empresa é o lucro, mas não obtido a qualquer preço, ignorando que a sua existência se deve à sociedade. Quem trabalha numa empresa é mais que um “recurso” da empresa, é parte da identidade da empresa. A sociedade é mais do que a fonte de clientes da empresa, é a organização que permite e fundamenta a existência da empresa.

 

Existe objectivamente uma responsabilidade social em cada empresa. A responsabilidade social de uma empresa é algo que não tem que ser escrito em leis ou regras, é eticamente o fundamento da sua existência. Infelizmente, na nossa sociedade demasiadas vezes se assiste a comportamentos de gestores que endeusam o conceito de “empresa” e esquecem o primado ético do ser humano sobre o lucro.

 

Foi descoberto, por acaso, que nos EUA (não se sabe se também noutros locais) que a VW tinha um software instalado em alguns modelos de automóvel que permitia enganar os reguladores, e por consequência os seus próprios clientes, relativamente à emissão de gases tóxicos. Este é um exemplo, há outros, de uma empresa que esqueceu o motivo, a justificação, da sua existência. Com este comportamento, houve um conjunto de decisores, cuja missão seria defender os interesses de uma empresa, que quebrou de forma grave o elo que une a empresa à sociedade.

 

É com incredulidade que se assiste a este comportamento de malfeitor executado por pessoas que admito serem na sua vida pessoal perfeitamente honestas, bem-intencionadas e inseridas na sociedade. Este suicídio ético só consigo justificar por existir uma inversão de conceitos e de hierarquia entre o que é uma empresa e o que é a sociedade. Confunde-se o caminho com o destino. Infelizmente hoje em dia esta inversão de conceitos está presente na mente de muitas pessoas, onde o pensamento único do liberalismo, não sendo o responsável pela falta de ética, propicia a atitudes em que a ganância tudo justifica.

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