Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

rua do imaginário

Porque existe algo em vez do nada?

Porque existe algo em vez do nada?

rua do imaginário

02
Out20

O Cavalo de Mazouco

Seguimos rumo à aldeia de Mazouco. Tínhamos lido que por lá existem gravuras rupestres, que decidmos conhecer. As gravuras ficam numa encosta íngreme junto ao atual nível da água de uma pequena enseada na foz da ribeira de Albargueira que aqui se junta com o Douro.  Pelo que li, existem naquele local vestígios de quatro figuras esculpidas na pedra de xisto mas o desgaste do tempo e a fragmentação da pedra fez com que só uma delas possa ser hoje claramente observada, É a figura de um equídeo que aparenta semelhanças com a raça Przewalsky, espécie há muito extinta por cá mas que ainda hoje cavalga nas planicies da Mongólia. Quando estas rochas foram gravadas aquele local seria bastante diferente do que hoje vemos pois o nível da água estaria 40 metros mais abaixo, dado que o atual nível de deve à existência de uma barragem a jusante do Douro. O acesso à gravura é fácil e bem sinalizado, chegando-se ao local através de uma estreita estrada rural depois de se atravessar a aldeia de Mazouco sendo apenas necessário percorrer a pé um pequeno trilho encravado na encosta até junto à linha de água. Esta figura foi o primeiro painel de gravuras rupestres a ser descoberto na zona, e foi a sua existência que originou a pesquisa que posterioriomente iria possibilitar a descoberta de muitos outros locais com gravuras rupestres que vieram mais tarde a dar origem ao Parque Arqueológico do Vale o Côa.

 

A primeira impressão que temos ao ver o desenho marcado na pedra é de uma profunda emoção. A datação deste género de gravuras rupestres não é simples nem precisa, mas sabemos que o cavalo de Mazouco terá sido gravado durante o Paleolitico Superior, seguramente há mais de 10 000 anos, sendo provavelmente bastante mais antiga. Na altura a agricultura não tinha sido inventada e o Homem vivia em pequenos grupos de caçadores-recoletores que deveriam percorrer aqueles territorios em busca de alimento. É profundamente comovente pensar que há milhares de anos, alguém que nunca saberemos quem, desenhou nestas encostas agrestes este animal, não sabemos com que intenção, não sabemos com que pensamentos, não sabemos com que estado de alma. Só o podemos imaginar. Alguém que, como nós, se questionou sobre a essência do mundo. Alguém que como nós sentiu medos e alegrias. Alguém que, através desta imagem, comunica agora connosco de forma tão poderosa.

 

O desenho é de uma beleza insuperável, simples mas rigoroso, conseguindo transmitir a sensação perfeita da fisionomia do animal e do seu movimento. Em certo sentido é profundamente moderno. Ver esta gravura, expressão artística com todo o seu esplendor, tão distante e tão próxima de nós, gera uma emoção primordial. O Cavalo de Mazouco permite prodigiosamente criar um elo de ligação com o mistério da nossa origem, da nossa verdadeira natureza, com a natureza do que é a Humanidade. É sentir que quem, há dezenas de milhares de anos, fez esta arte estava agora ali connosco a partilhar dos nossos sentimentos. O que nos recorda, o que hoje é cada vez mais premente, que temos nós também responsabilidades sobre quem vier depois de nós viver neste planeta.

 

DSC_6267.JPG

O Cavalo de Mazouco

 

DSC_6276.JPG

Vista atual do local onde foi dsenhado o Cavalo de Mazouco

 

DSC_6265.JPG

O esplendor da paisagem a caminho de Mazouco

 

Links

  •  
  • Arquivo

    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2020
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2019
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2018
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2017
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2016
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2015
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D

    Subscrever por e-mail

    A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.