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rua do imaginário

Porque existe algo em vez do nada?

Porque existe algo em vez do nada?

rua do imaginário

29
Jun15

O mundo cada dia mais distante

Por várias vezes vi um velho que regressa do centro comercial. Desloca-se muito lentamente. Dolorosamente. Uma perna de cada vez, apoiado numa bengala na mão esquerda e de olhos colados no chão. Cada passo é um sofrimento. Após se deslocar alguns metros pára, numa aparente iminência da desistência. Tenho dúvidas que volte a retomar o seu caminho, a qualquer momento pode desistir definitivamente e deixar-se ficar, derrotado. Mas não, de alguma forma descobre a força necessária, e retoma a sua lenta jornada apoiado na bengala e os olhos sempre colados ao chão. Devagar. Em sofrimento. Sozinho.

 

Imagino o que move aquele velho a regressar a casa. E o que o moveu anteriormente a sair de casa. Imagino que em casa ninguém o espera, será talvez viúvo, sem filhos ou filhos ausentes. Não tem pressa. Nada o espera. Imagino que vai todos os dias ao centro comercial, talvez comer uma sopa, sempre no mesmo sítio, sempre sozinho. Provavelmente troca algumas palavras com o empregado para combater a solidão antes de iniciar o regresso a casa, uma travessia de solidão, dor e sofrimento.

 

Aquele velho já foi novo. Em tempos correu, brincou, teve amigos, amores e desamores, irritações e ambições, construiu uma vida. Agora regressa devagar todos os dias a uma casa, a uma vida, onde ninguém o espera. Sozinho, doente e indiferente ao mundo, que já pouco lhe pode dizer. O mundo está cada dia mais distante daquele velho. Mas cada passo é uma vitória e uma demonstração de coragem.

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