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Há alturas em que não posso deixar de pensar no passado. Sei que o presente é o lugar para se estar. Foi sempre o lugar para se estar. Sei que me foi recomendado por pessoas muito sensatas que permanecesse no presente o mais possível, mas o passado apresenta-se. O passado não vem como um todo. Vem sempre em partes.

 

Sam Shepard (1943-2017), Espião Na Primeira Pessoa (Quetzal, Agosto de 2018) 

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- Imagine um elefante – repetiu Raskolnikov.

- Imagine que uns quantos cegos dele se abeiram para o descrever. O primeiro, por apalpar a tromba, diz que o elefante se assemelha a uma cobra. O segundo, porque apalpa uma pata, diz que um elefante é como a coluna do templo de Shiva. Outro, o terceiro, por agarrar a cauda, julga que um elefante é como uma corda. O quarto, por apalpar a orelha, diz que o animal é parecido com um leque muito grande. O que se encostou ao corpo do elefante diz que ele se parece com uma parede. O sexto, que ficou sob o elefante, sob o seu peso, diz que ele se parece com o seu amigo Bombo.

E nós, caro Bonfim, lembramo-nos das coisas como os cegos a apalparem um elefante. Lembro isto porque poderá ajudá-lo um dia. Todos nós teremos, se não temos já, um elefante para perceber. E a questão é percebê-lo todo. Meu caro senhor, eu compreendi muito bem que o passado pode ter um grande futuro pela frente.

 

Afonso Cruz , Os livros que devoraram o meu pai

 

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Não existimos mais que os nossos sonhos.

 

Teixeira de Pasoaes

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Porque existe algo em vez do nada? O que moldou as leis fundamentais da física? O que é a consciência e de onde vem ela? Não sabemos quais as respostas a estas perguntas e a esta ignorância damos o majestoso nome de Deus.

 

Yuval Noah Harari. 21 lições para o século XXI 

 

Ninguém pode ser ateu sem conhecer todas as coisas. Somente Deus é ateu. O demónio é o maior dos crentes, e lá tem as suas razões.

 

Flannery O’Connor, Um diário de preces

 

Deus não é só ignorância. O avanço da ciência pode ir diminuido o espaço de ação de Deus, mas não o mata. Se Deus fosse apenas ignorância,  não haveriam ignorantes (todos nós) ateus. Deus é algo mais, é o mistério da consciência, que subsiste mesmo quando tudo está explicado e compreendido. Nem o próprio Deus será ateu, terá ele próprio o seu Deus. E entre os ignorantes (todos nós) há quem tenha o dom da fé e quem não tenha esse dom. A mim falta-me esse consolo. E se Deus existisse saberia bem a falta que Ele me faz.

 

 

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não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino.

 

Paulo Leminski

 

Discutir com o destino, ou com o Universo e as suas regras que nos reduzem a um nada, é um inútil desperdício de tempo e energia. Aceitar o nada e a impermanência seria bastante mais sensato. Ainda assim…deixar de discutir soa a desistência. O que nos resta, senão gritar, gritar, como quem tenta calar o mar, contra o tempo e as forças do Universo?

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O tempo é isso, e por isso nos fascina e inquieta, e talvez também por isso, leitor, irmão, está a ler este livro. Porque não é mais que uma instável estrutura do mundo, uma flutuação efémera no acontecer do mundo, aquilo que tem a característica de dar origem ao que somos: seres feitos de tempo. Que nos faz existir, que nos dá o presente precioso da nossa própria existência, que nos permite criar a ilusão da permanência, que é a origem de todos os nossos sofrimentos.

 

Livro: A ordem do tempo, Carlos Rovelli, Ed. Objetiva 2018

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Estado corrente

22.10.18

Não me sacudam que estou cheio de lágrimas.

 

Louis Calaferte, a partir de uma entrevista de António Lobo Antunes

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Outono

10.10.18

Vitória da Natureza.jpg

 

Autumn is more the season of the soul than of nature.

 

Nietzsche

 

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Só o celibatário que ama superiormente os filhos vê mais além de si próprio e mede as consequências de infligir a sansão da vida a um não-ser. Será a vida tão extraordinária, alegre, feliz, lúdica, desejável, fácil, para oferece-la aos rebentos o homem? Será necessário amar tanto a entropia, o sofrimento, a dor e a morte para, ainda assim, oferecer a vida como uma trágica prenda ontológica?

 

Michel Onfray, A potência de existir, Manifesto hedonista

Campo da Comunicação, 2009

 

Com estas palavras Michel Onfray exprime a sua opinião sobre se o ser humano tem o direito de querer ter filhos, o que significa, como refere, “inflingir a sansão da vida a um não-ser”. Existe, é claro, um importante fator animal: todos temos o instinto, que partilhamos com todos os nossos antepassados, de nos reproduzirmos para deixar a nossa herança genética à próxima geração. Todos pertencemos a uma linha de vida ancestral, com origem no primeiro ser que se reproduziu, em que todos os nossos antepassados se reproduziram com sucesso. É portanto natural que, se estamos vivos hoje, é porque os nossos antepassado tinham todos este instinto de reprodução que nos acompanha até hoje. Sempre que um ser não se reproduz, por opção ou não, há uma linha de vida que se quebra definitivamente. A reprodução é a única forma de imortabilidade ao nosso alcance: deixar a nossa herança genética no mundo.

 

Vejamos para além do instinto, pois o animal que existe em nós está disfarçado debaixo de uma fina mas importante camada de verniz civilizacional. A vida pode ser, e é, constituída por sofrimento. O tempo em que não é sofrimento será pura ilusão ou estupidez nossa. O meu sentimento dominante é de uma tristeza esclarecida, de uma melancolia permanente. Ainda assim, decidi ser pai e, para surpresa minha, a paternidade foi a maior epifania da minha vida. Sei que os meus filhos terão que sofrer ao longo da vida. Mas cada sorriso, cada momento de felicidade, cada sentimento de amor e carinho, faz valer a pena todo esse sofrimento. Cada instante de alegria é uma derrota sobre a não-existência.

 

A minha questão primordial, colocada ao Universo,“Porque é que existe algo em vez de nada?” tem , em certa medida, resposta na reprodução: se existe algo, se o Universo venceu a inércia e foi capaz da extrema improbabilidade de criar consciência, temos o dever de, talvez com o elevado custo do sofrimento, combater a não existência. É só o que nos resta.

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Franco Berardi, filósofo italiano, afirma: “A solidariedade é a maior ameaça para o capitalismo financeiro. A solidariedade é o lado político da empatia, do prazer de estarmos juntos. E quando as pessoas gostam mais de estar juntas do que de competir entre si, isso significa que o capitalismo financeiro está condenado. Daí que a dimensão da empatia, da amizade, esteja a ser destruída pelo capitalismo financeiro”.

 

Adiciono aos pecados contra o capitalismo financeiro, a verdadeira religião da nossa sociedade, a capacidade de se ser feliz. A sociedade de consumo incute-nos desde criança o mito de que necessitamos de consumir, de ter mais, para sermos felizes e bem sucedidos. Na doutrina do capitalismo financeiro o sucesso é equivalente a riqueza. Sabemos no entanto que a felicidade não tem qualquer relação com a riqueza que possuímos. Considerar a nossa forma de vida não é uma competição louca com o que os outros é um forte suporte para uma vida com personalidade, equilibrada e feliz. E uma heresia para o capitalismo.

 

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