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Dias de pássaro

03.04.18

Para todos nós existe um local onde nos sentimos mais iguais ao que somos, onde não somos estrangeiros de nós e a geografia se encaixa com a alma. No regresso a esse local o futuro é suspenso: o tempo enrola-se sobre si mesmo, torna-se circular como o tempo dos dias dos pássaros.  E quando somos obrigados a abandonar esse local sofremos com a violência do tempo que regressa à sua linearidade, retomando a queda inevitável para o futuro.

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Erosão do medo

05.03.18

Os medos, expostos ao tempo, vão sofrendo um fenómeno de erosão semelhante às rochas na intempérie. A rocha fica exposta, perde volume, e é polida pelo trabalho dos ventos e das chuvas. Aos medos, que habitam dentro de nós, protegidos dos elementos, para a sua erosão basta somente a passagem do tempo. Tornam-se mais suaves, menos imediatos e concretos, ganham subtileza. E também, lentamente, de forma quase inadvertida, tal como uma erosão, vão transferindo o seu sujeito. A erosão dos medos transforma-os em algo de menos íntimo e ficam expostos ao outro:  os meus medos já não são sobre o que me pode acontecer pessoalmente mas sobre o que pode acontecer aos outros, muito especialmente, aos meus filhos.

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Plenitude

19.02.18

Na rotina urbana que me é exigida (ou que eu me imponho, porque afinal é preciso de pensar que sou livre) sinto falta da Natureza. Sentir o vento gelado de um dia de Inverno, analisar as cores de um pô-de-sol, absorver o calor íntimo do Sol num dia frio, observar se e o vento sopra de Norte ou de Leste, respirar o ar claro e leve das montanhas, mexer na terra e na lama. Somos animais, os séculos de civilização apenas serviram para nos cobrir com uma fina camada de verniz. Viver na cidade protegidos por betão, rodeados de multidões (e no entanto solitários) a respirar ares mortíferos e a lutar constantemente contra o tempo, é viver longe de nós próprios. A cidade é um paradoxo, onde uma maior concentração de humanos significa uma redução da humanidade. Para mim, tenho certo de que a plenitude, se algum dia a encontrar, não será na cidade.

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O melhor da vida são os pequenos prazeres. Momentos, uns segundos, de bem-estar, de sentimento, de paz com o Tempo. Ver o sorriso incondicional de uma criança, sentir o calor do sol numa bonita manhã de Inverno, uma partilha entre amigos,  uma curva num passeio de mota, uma esperança no futuro, um beijo dos filhos. São estes momentos que fazem a vida valer a pena. O sentido da vida não é nada mais do que simplesmente estes pequenos prazeres.

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Pai

17.01.18

 

Faz hoje 5 anos que o meu Pai nos deixou. A vida que existiu continuará viva na memória de todos os que o conheceram. Fica aqui um texto que escrevi nesse dia, contra o esquecimento.

 

 

Adeus Pai. Sou parte de ti, e por isso nunca me deixarás. Não irás mais estar fisicamente presente, mas o teu espírito, os teus ensinamentos e o teu ser continuarão sempre connosco. Ensinaste-me muito ao longo da vida, chegou agora o momento de uma última e dolorosa lição: viver a dor da morte de quem amamos.

 

Disseste-me que tudo tem um fim. Mas permite-me corrigir-te: não é será um fim, é apenas um momento em que deixaremos de ouvir a tua voz (espero nunca a esquecer), do olhar dos teus olhos, às vezes verdes, outras vezes cinzentos (que estou certo nunca esquecerei), de sentir o teu calor, de ver os teus gestos. Tudo isto vai continuar a existir naqueles que ficam com a enorme responsabilidade de honrar a tua memória. Enquanto existires em nós, a morte não vencerá.

 

O nosso consolo é saber que partes em paz, com o espirito do dever cumprido. Que viveste uma vida difícil, mas de sucesso. Que no fim da vida pudeste olhar em teu redor e que certamente sentiste felicidade. Que conseguiste realizar os teus sonhos, contra muitas adversidades. Que deixas uma família que te respeita e honra. Amigos que nunca te irão esquecer. Que te amam. Que enquanto os que te conheceram estiverem vivos existirás sempre nos nossos corações e não deixaremos de brindar à tua memória. Que descanses em paz, e que nós, que recebemos o teu legado, sejamos agora capazes de honrar o teu exemplo.

 

Agradeço-te tudo. O que de bom e de mau vivemos juntos. Obrigado. Obrigado por seres o que és. Obrigado pelo que aprendi contigo. Obrigado pela tua honestidade. Obrigado pelos teus conselhos. Obrigado pelos princípios de vida. Obrigado pelos teus olhos. Obrigado pela tua vida, que nos enche de orgulho.

 

Obrigado por tudo. Descansa em Paz.

 

17 de Janeiro de 2013

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Uma esperança sem alento

Uma raiva sem destino

Uma longa despedida

Uma saudade antecipada

Uma escuridão no futuro

 

A solidão no absurdo

De um gesto na planície

Numa viagem imaginada

 

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Memórias

27.12.17

Neste Natal, uma memória há muito desaparecida surgiu inesperadamente e convocou-me para vidas anteriores e para caminhos antigos que divergiram algures no tempo para nunca mais se cruzarem. Como a nossa memória nos esconde tanto. O que somos é genética e a soma do que nos aconteceu, mas o que nos aconteceu é tão volátil e subtil. O passado só existe em nós, enquanto guardamos dele algum vestigio. “Quando eu morrer, nada do nosso amor terá alguma vez existido” escreveu Jean Dupuy, mas creio que se enganou, porque o amor deixa de alguma vez ter existido no momento em que um dos amantes o esquece.

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Perguntas como me sinto. Vivo sem passado, sem futuro. Não pensar no que poderia ser o hoje, não sonhar o que será o amanhã. Não questionar porque não são as coisas diferentes. Não fazer planos. O que sinto é isto: não é alegria, não é tristeza, não é esperança, por vezes amor, por vezes desejo, e quase sempre coisa nenhuma. Mas, questiono, com o que sei sobre a natureza da vida humana: o que poderia ser diferente?

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É fácil cair na tentação da húbris e considerar-nos superiores às leis da natureza. Quando inevitavelmente a punição chega, somos reconduzidos de deuses a animais, a nossa alma torna-se um lugar escuro e apertado. O que nos resta? O presente, o nosso efémero infinito.

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Tal como só na doença, é que conseguimos dar o devido valor à saúde, parece que com a infelicidade nos acontece o mesmo. Só nos momentos em que estamos infelizes conseguimos compreender como, afinal, éramos felizes anteriormente. Somos realmente limitados a avaliar o sentimento de felicidade do momento. E nos momentos em que o céu desaba sobre nós, sem uma réstia de luz ao fundo, que saudades temos desses momentos que podíamos olhar em frente e ver, e que éramos felizes e não o sabíamos.

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