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O Beijo

16.11.18

O Universo é descrito melhor em termos de eventos do que de existência. Carlo Rovelli descreve a diferença da seguinte forma: um beijo é um evento, uma pedra é uma existência. Se faz sentido perguntar onde estava aquela pedra ontem ou onde estará amanhã, fará algum sentido questionar onde estava ontem este beijo que te dou agora ou onde estará ele amanhã? E é isso que nós somos: um evento, uma complexa reação física e química, em constante mutação, num equilíbrio efémero, uma chama que se auto-consome que, por mero acaso e sem ser esse o objetivo, deu origem à consciência. Impermanentes por definição. Qual o sentido de perguntar onde estava eu antes de existir ou onde estarei depois de terminar? O que sobrará de mim? O mesmo o que sobrou daquele beijo imaginado: uma suave memória da sua existência.

 

Livro: A ordem do tempo, Carlos Rovelli, Ed. Objetiva 2018

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O livro “A ordem do Tempo” destruiu tudo o que pensava saber sobre o tempo. De uma forma quase poética Rovelli explica conceitos extremamente complexos e demonstra que este universo onde vivemos é bem mais estranho que que poderíamos supor. A dúvida é se o nosso cérebro (o do Homem) estará à altura de conseguir compreender toda a complexidade do universo. Não existe qualquer motivo para que tal aconteça. Mas supondo que sim, Rovelli leva-nos por uma viagem a um mundo alucinante e extremamente estranho, que é o mundo do que sabemos hoje sobre o nosso Universo.

 

O que se conclui é que o tempo não é necessário na explicação do Universo. Que não faz parte integrante do que existe. A noção que temos de tempo e do seu fluxo em sentido único é algo que emerge do que existe no Universo, que resulta de conhecermos o mundo de forma desfocada, mas que não existe per si no Universo. O que move o universo não é o tempo, nem a energia, é a entropia (que é única variável física fundamental que tem uma direção, tende sempre a aumentar).

 

Estas ideias de “A ordem do tempo” consistem numa revolução copernicana que, sem mudar nada, nos dá uma perspetiva totalmente diferente do que é este estranho mundo, em que o tempo é um subproduto involuntário do que existe, tal como o somos nós próprios. O tempo só existe para nós, para cada um de nós, e não para o Universo. O nosso sentido do fluxo de tempo resulta de registarmos memórias do passado e de tentarmos prever ou antecipar o futuro. Porque o que existe é apenas o presente e nada mais. O tempo somos nós, o tempo é imaginário.

 

Livro: A ordem do tempo, Carlos Rovelli, Ed. Objetiva 2018

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A poesia é conseguir transmitir o que está para além dos limites da palavra. É conseguir sair um pouco fora da jaula que nos impõe a linguagem. O físico Carlo Rovelli, no seu belíssimo livro “A ordem do tempo”, refere algo que a princípio me surpreendeu: que a ciência tem origem na poesia.

 

A ciência é também conseguir ver um pouco (muito) além do que os nossos sentidos nos conseguem dizer. É a Terra nos parece plana e conseguir ver que é redonda. É o Sol gira em torno de nós e conseguir ver que somos nós que giramos em torno do Sol. É pensar que somos o centro do Universo e conseguir ver que não passamos de uma insignificância ocasional perdida na sua imensidão. É acreditar que a eternidade existe e conseguir ver que o tempo teve um início e provavelmente terá um fim. É sentir que o tempo é sempre igual e conseguir ver que o tempo é diferente em cada lugar.

 

A poesia, tal como a ciência, é sentir e ver com a mente.

 

Livro: A Ordem do Tempo, de Carlo Rovelli, Objectiva, 2018

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Sobre o cansaço

26.10.18

O pequeno livro do filósofo coreano-germano Byung-Chul Han , “A sociedade do cansaço”, atraiu-me me primeiro lugar pelo seu título. O cansaço é o ruído de fundo da nossa sociedade consumista e hiperativa. Neste século XXI estamos numa nova era relativamente ao que nos pode destruir. Durante milénios os perigos para o Homem derivaram de ameaças externas, como as doenças provocadas por bactérias e vírus. Numa lógica militar, viveu-se uma época em que o que é estranho é que é prejudicial, o inimigo é o outro. No século XX a ciência desenvolveu medicamentos capazes de identificar estes agentes externos e destruí-los o que diminuiu bastante a ameaça. Mas a constatação do autor é que na sociedade do século XXI as ameaças vêm do que não consideramos como estranho, o inimigo vem de dentro. Doenças como a hiperatividade, a depressão, o desgaste emocional por excesso de trabalho (burn-out) são provocadas por aquilo que consideramos como nosso, amigo, aquilo que gostamos de fazer e é o nosso estilo de vida. O inimigo já não é o outro, o estranho, o que é diferente. O inimigo vem de dentro de nós. Recorrendo novamente à analogia militar, a guerra mudou, de duas partes organizadas e claramente divididas, enfrentamos o terrorismo onde o ataque vem que quem está entre nós.

 

Identificado este sintoma, o autor passa a elaborar sobre as causas. E a principal causa é vivermos numa sociedade consumista, do querer sempre mais, em que nos auto-exploramos (já ninguém necessita de chicotes para obrigar a trabalhar, o chicote utilizamo-lo nós próprios em nós mesmos). em que nos impomos ritmos de vida alucinantes. Dividimos a nossa atenção entre uma miríade de focos e em que não temos tempo para aprofundar nada.

 

Byung-Chul Han repara, e bem, que mantendo este ritmo não vamos conseguir fazer nada de novo, vamos apenas continuar a fazer mais do mesmo, talvez só mais depressa. A verdadeira mudança exige a sabedoria de saber parar, saber dizer que não, de querer fazer diferente. O cansaço não é o nosso inimigo. O cansaço é um sintoma que devemos ter a sabedoria para saber escutar, para dizer que não e mudar o que verdadeiramente nos está a matar neste tempo: nós mesmos.

 

Livro: “A sociedade do cansaço”, Byung-Chul Han, Relógio D'Água, 2014

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O conceito de sucesso que nos é incutido desde o berço é baseado no consumo, em ter mais que os outros e, acima de tudo, em todos acharem que têm o direito a tê-lo. Vivemos numa sociedade formatada para o consumismo. A vida de sucesso é-nos apresentada como tendo que ser uma sucessão de prazeres, e tudo o que esteja aquém deste objetivo inexistente é pouco. É uma sociedade de adultos infantilizados. O meu receio é que a gerações mais novas, cuja bitola se rege pelo que vêm nas “redes sociais” sejam ainda casos mais extremos deste conceito do que é ser-se feliz, profundamente perigoso a longo prazo para o bem-estar espiritual de cada um. Portanto, lembrar que a vida e a felicidade exigem sacrifício e dor, que nenhum de nós é especial nem o centro do universo e que o sentido da vida está em sabermos escolher aquilo por que queremos sofrer, em vez de ser escolher o que queremos ter, pode parecer demasiadamente óbvio mas talvez seja mesmo necessário. O título e a linguagem em que está escrito dão um ar leve ao texto, mas as questões são importantes.

 

No entanto, é tarefa inútil. Como aqueles vídeos ou textos inspiradores colocados nas a transmitir que a verdadeira vida está fora das “redes sociais”. Para quem os entende não são verdadeiramente úteis, para os outros, que concordam num aceno breve de admiração e os partilham de imediato com os seus “amigos” passando logo a atenção para os posts que se seguem e são de imediatos esquecidos.

 

Livro:  “A Arte Subtil de Saber Dizer que se F*da”,  Mark Manson (Desassossego)

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“O Livro do Silêncio”, de Sara Maitland, descreve o percurso da autora em direção a uma vida de silencio. A palavra silêncio define coisas bem diferentes. Existe o silêncio exterior, que é essencialmente a ausência de ruído, e pode não ser o silêncio absoluto (por exemplo, silêncio também pode ser o som das ondas à beira mar, o chilrear dos pássaros num pomar, o vento nas folhas das árvores de um bosque, ou uma música tranquila). Existe o silêncio da ausência de falar, de vivermos calados, o silêncio da solidão e do isolamento. E finalmente, e para mim o fundamental, existe o silencio da nossa mente, os pensamentos tranquilos, a calma mental que permite ser o “eu” a controlar a mente e não o inverso. São formas distintas de silêncio mas que estão interligadas, a ausência de uma delas prejudica a obtenção das outras. A autora procura o silêncio por dois motivos: motivos religiosos e motivos criativos. E é curioso como conclui que estas são formas quase antagónicas de silêncio, com efeitos no ego muito diferentes. Curioso também é a relação íntima que existe entre a paisagem e o silêncio e as suas consequências íntimas: o silêncio da montanha é diferente do silêncio do deserto, da charneca ou do bosque.

 

Pessoalmente quando procuro o silêncio é esencialmente como forma de tranquilizar a mente, de reduzir a velocidade dos acontecimentos, diminuir os níveis de ansiedade, conseguir profundidade de pensamento e de sentir o fluir do tempo. Nestes tempos agitados e de ruído, em que tudo é superficial e se salta constantemente de distração em distração, procurar o silêncio torna-se fundamental para não sermos engolidos numa voragem autofágica.

 

Livro: O Livro do Silêncio, Sara Maitland

 

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Silêncios

15.06.18

O silêncio é habitualmente entendido como a ausência de som ambiente. Ou o silêncio de quem renuncia a falar. Mas o silêncio mais importante é o silêncio da mente.  Manter a mente calma, ordenada, no presente, sem a cacofonia caótica de pensamentos, sentimentos ou imagens, é a forma de silêncio mais fundamental.

 

Sara Maitland, O livro do silêncio

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O livro “Elogio da Lentidão” de Lamberto Maffei é um alerta para os impactos sobre a nossa espécie das alterações recentes na nossa forma de viver. Na natureza o tempo é circular: o ciclo do dia, as estações do ano ou, talvez mesmo, o tecido do espaço-tempo de que construído o nosso Universo. Desde dos primórdios que os nosso antepassados viveram de acordo com os ciclos da natureza e num mundo de evolução lenta. Com o abandono, historicamente muito recente, do contacto da maioria da humanidade com a natureza, o tempo tornou-se linear para uma parte substancial da nossa espécie. A evolução tecnológica acelerou o tempo linear exponencialmente, numa geração a sociedade mudou mais do que em vários séculos que nos antecederam. Agora exige-se que tudo seja rápido, comunicação imediata à escala planetária e o sucesso tornou-se sinónimo de ação, velocidade e ocupação. Como consequência, tudo se tornou superficial, a pressa deixou-nos a viver na espuma dos acontecimentos.

 

O nosso cérebro evoluiu ao longo dos tempos num mundo de tempo circular e de mudança lenta. Há algumas decisões do cérebro que necessitam de tempo para se decantarem, há memórias que só registaremos se vivermos de forma lenta, há pensamentos que só teremos se pensarmos com tempo e paciência.  O tempo linear acelerado em que vivemos está a afetar as nossas memorias, os nossos pensamentos e os nossos sentimentos. Está alterar o Homem, enquanto espécie.

 

O que sinto profundamente, é que nos está a impedir de usufruir do tempo, de forma plena e sem ansiedade. Só a lentidão nos permitirá estar em paz de espírito com o tempo que passa.

 

Livro: Elogio da Lentidão, Lamberto Maffei

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Setas do tempo

24.04.18

Refere Stephen Hawking em “Uma breve história do Tempo” que que existem três setas do tempo: a seta termodinâmica, a seta psicológica e a seta cosmológica. A seta termodinâmica aponta na direção do aumento da entropia dos sistemas, a seta psicológica aponta no sentido do futuro, daí o facto de termos memórias do passado e não do futuro, e a seta cosmológica aponta no sentido da expansão do Universo. Estas três setas do tempo apontam neste momento nesta direção mas, teoricamente, não teria que ser assim.

 

Poderá acontecer, daqui a dez mil milhões de anos, que a expansão do Universo chegue a um limite e que a partir daí o Universo entre em colapso. É uma das possibilidades para o futuro do nosso Universo, e esteticamente a mais atraente. Se o Universo teve um início faz sentido que tenha um fim, a simetria sempre fez parte da nossa Natureza. E neste caso a seta do tempo cosmológico irá mudar de sentido quando o Universo entrar em contração. E a dúvida dos físicos e matemáticos é sobre o que aconteceria nesta situação às setas do tempo termodinâmica e psicológico. Irá a entropia dos sistema começar a diminuir? Irão os eventuais seres desse tempo ter memórias do futuro e não do passado?

 

Livro: “Uma breve história do Tempo”, Stephen Hawking

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A morte do físico Stephen Hawking levou-me a reler o seu famoso livro de divulgação cientifica “Uma breve história do Tempo”. Foi escrito há trinta anos mas não creio que esteja fundamentalmente desatualizado. Desde daí já foi possível comprovar empiricamente algumas das conclusões que eram apenas hipóteses teóricas naquela altura, como por exemplo a deteção das ondas gravitacionais previstas por Einstein ou a criação de algumas partículas no potente acelerador do CERN. Mas o objetivo último dos físicos e matemáticos de encontrar uma única teoria unificadora que agregue o mundo quântico e eletromagnético com o mundo gravitacional, teoria que há cerca de 100 anos existe a convicção de estarmos muito perto de o conseguir, continua por atingir.

 

A releitura de "Uma breve história do Tempo" foi desconcertante por me fazer refletir não só na complexidade, mas principalmente, na estranheza, da estrutura do Universo. Conceitos como a relatividade do tempo, o principio da incerteza quântica,  a dualidade onda-partícula, partículas de spin 2 (em que apenas após duas rotações completas voltam a ficar na mesma posição), quarks e inúmeras partículas variadas como gluões, ou gravitões, as ondas gravitacionais que modificam o espaço-tempo na sua passagem, buracos negros que evaporam, a teoria das cordas, mundos com dezenas de dimensões ou o tempo imaginário.

 

É enorme a quantidade de conceitos e entidades estranhas que parecem ter sido criadas pela mente de um escritor de ficção cientifica genial com uma imaginação delirante. O universo tem-se revelado um local estranho. E pode piorar, porque o Universo não tem qualquer obrigação de ser compreensível para a capacidade do nosso cérebro. Seria extremamente presunçoso dos Humanos pressupor isso. Podemos, portanto, estar a tentar entender algo que esteja definitivamente fora do nosso alcance. Mas que isso nunca seja motivo para o não tentar. É essa a grandeza da Humanidade, o animal que se fez deus.

 

Livro: “Uma breve história do Tempo”, Stephen Hawking

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