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“O Livro do Silêncio”, de Sara Maitland, descreve o percurso da autora em direção a uma vida de silencio. A palavra silêncio define coisas bem diferentes. Existe o silêncio exterior, que é essencialmente a ausência de ruído, e pode não ser o silêncio absoluto (por exemplo, silêncio também pode ser o som das ondas à beira mar, o chilrear dos pássaros num pomar, o vento nas folhas das árvores de um bosque, ou uma música tranquila). Existe o silêncio da ausência de falar, de vivermos calados, o silêncio da solidão e do isolamento. E finalmente, e para mim o fundamental, existe o silencio da nossa mente, os pensamentos tranquilos, a calma mental que permite ser o “eu” a controlar a mente e não o inverso. São formas distintas de silêncio mas que estão interligadas, a ausência de uma delas prejudica a obtenção das outras. A autora procura o silêncio por dois motivos: motivos religiosos e motivos criativos. E é curioso como conclui que estas são formas quase antagónicas de silêncio, com efeitos no ego muito diferentes. Curioso também é a relação íntima que existe entre a paisagem e o silêncio e as suas consequências íntimas: o silêncio da montanha é diferente do silêncio do deserto, da charneca ou do bosque.

 

Pessoalmente quando procuro o silêncio é esencialmente como forma de tranquilizar a mente, de reduzir a velocidade dos acontecimentos, diminuir os níveis de ansiedade, conseguir profundidade de pensamento e de sentir o fluir do tempo. Nestes tempos agitados e de ruído, em que tudo é superficial e se salta constantemente de distração em distração, procurar o silêncio torna-se fundamental para não sermos engolidos numa voragem autofágica.

 

Livro: O Livro do Silêncio, Sara Maitland

 

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Silêncios

15.06.18

O silêncio é habitualmente entendido como a ausência de som ambiente. Ou o silêncio de quem renuncia a falar. Mas o silêncio mais importante é o silêncio da mente.  Manter a mente calma, ordenada, no presente, sem a cacofonia caótica de pensamentos, sentimentos ou imagens, é a forma de silêncio mais fundamental.

 

Sara Maitland, O livro do silêncio

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O livro “Elogio da Lentidão” de Lamberto Maffei é um alerta para os impactos sobre a nossa espécie das alterações recentes na nossa forma de viver. Na natureza o tempo é circular: o ciclo do dia, as estações do ano ou, talvez mesmo, o tecido do espaço-tempo de que construído o nosso Universo. Desde dos primórdios que os nosso antepassados viveram de acordo com os ciclos da natureza e num mundo de evolução lenta. Com o abandono, historicamente muito recente, do contacto da maioria da humanidade com a natureza, o tempo tornou-se linear para uma parte substancial da nossa espécie. A evolução tecnológica acelerou o tempo linear exponencialmente, numa geração a sociedade mudou mais do que em vários séculos que nos antecederam. Agora exige-se que tudo seja rápido, comunicação imediata à escala planetária e o sucesso tornou-se sinónimo de ação, velocidade e ocupação. Como consequência, tudo se tornou superficial, a pressa deixou-nos a viver na espuma dos acontecimentos.

 

O nosso cérebro evoluiu ao longo dos tempos num mundo de tempo circular e de mudança lenta. Há algumas decisões do cérebro que necessitam de tempo para se decantarem, há memórias que só registaremos se vivermos de forma lenta, há pensamentos que só teremos se pensarmos com tempo e paciência.  O tempo linear acelerado em que vivemos está a afetar as nossas memorias, os nossos pensamentos e os nossos sentimentos. Está alterar o Homem, enquanto espécie.

 

O que sinto profundamente, é que nos está a impedir de usufruir do tempo, de forma plena e sem ansiedade. Só a lentidão nos permitirá estar em paz de espírito com o tempo que passa.

 

Livro: Elogio da Lentidão, Lamberto Maffei

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Setas do tempo

24.04.18

Refere Stephen Hawking em “Uma breve história do Tempo” que que existem três setas do tempo: a seta termodinâmica, a seta psicológica e a seta cosmológica. A seta termodinâmica aponta na direção do aumento da entropia dos sistemas, a seta psicológica aponta no sentido do futuro, daí o facto de termos memórias do passado e não do futuro, e a seta cosmológica aponta no sentido da expansão do Universo. Estas três setas do tempo apontam neste momento nesta direção mas, teoricamente, não teria que ser assim.

 

Poderá acontecer, daqui a dez mil milhões de anos, que a expansão do Universo chegue a um limite e que a partir daí o Universo entre em colapso. É uma das possibilidades para o futuro do nosso Universo, e esteticamente a mais atraente. Se o Universo teve um início faz sentido que tenha um fim, a simetria sempre fez parte da nossa Natureza. E neste caso a seta do tempo cosmológico irá mudar de sentido quando o Universo entrar em contração. E a dúvida dos físicos e matemáticos é sobre o que aconteceria nesta situação às setas do tempo termodinâmica e psicológico. Irá a entropia dos sistema começar a diminuir? Irão os eventuais seres desse tempo ter memórias do futuro e não do passado?

 

Livro: “Uma breve história do Tempo”, Stephen Hawking

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A morte do físico Stephen Hawking levou-me a reler o seu famoso livro de divulgação cientifica “Uma breve história do Tempo”. Foi escrito há trinta anos mas não creio que esteja fundamentalmente desatualizado. Desde daí já foi possível comprovar empiricamente algumas das conclusões que eram apenas hipóteses teóricas naquela altura, como por exemplo a deteção das ondas gravitacionais previstas por Einstein ou a criação de algumas partículas no potente acelerador do CERN. Mas o objetivo último dos físicos e matemáticos de encontrar uma única teoria unificadora que agregue o mundo quântico e eletromagnético com o mundo gravitacional, teoria que há cerca de 100 anos existe a convicção de estarmos muito perto de o conseguir, continua por atingir.

 

A releitura de "Uma breve história do Tempo" foi desconcertante por me fazer refletir não só na complexidade, mas principalmente, na estranheza, da estrutura do Universo. Conceitos como a relatividade do tempo, o principio da incerteza quântica,  a dualidade onda-partícula, partículas de spin 2 (em que apenas após duas rotações completas voltam a ficar na mesma posição), quarks e inúmeras partículas variadas como gluões, ou gravitões, as ondas gravitacionais que modificam o espaço-tempo na sua passagem, buracos negros que evaporam, a teoria das cordas, mundos com dezenas de dimensões ou o tempo imaginário.

 

É enorme a quantidade de conceitos e entidades estranhas que parecem ter sido criadas pela mente de um escritor de ficção cientifica genial com uma imaginação delirante. O universo tem-se revelado um local estranho. E pode piorar, porque o Universo não tem qualquer obrigação de ser compreensível para a capacidade do nosso cérebro. Seria extremamente presunçoso dos Humanos pressupor isso. Podemos, portanto, estar a tentar entender algo que esteja definitivamente fora do nosso alcance. Mas que isso nunca seja motivo para o não tentar. É essa a grandeza da Humanidade, o animal que se fez deus.

 

Livro: “Uma breve história do Tempo”, Stephen Hawking

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Sabemos hoje que envelhecimento não é algo de biologicamente inevitável, antes pelo contrário, está programado no nosso ADN para garantir que, na idade em que geralmente está assegurada a reprodução, o corpo se deixe de regenerar e comece lentamente a decair até à morte inevitável por envelhecimento. Os milionários de Silicon Valley investem hoje milhões em empresas de investigação em biotecnologia e engenharia genética com o objetivo de encontrar a cura para velhice. Aquela gente não pretende envelhecer.

 

Mas qual o de a Natureza ter inventado o envelhecimento? Como bem infere Afonso Cruz num texto do seu livro Jalan Jalan, sem morte não seria possível a evolução das espécies e a evolução das espécies não seria possível sem sexo. Sem velhice todos os que, pelos acasos das combinações e mutações genéticas, sendo mais ou menos aptos, continuariam vivos e a reproduzir-se. E foi com a reprodução sexuada, em que cada ser resulta de um combinação de genes de dois outros seres é que se tornou necessário garantir a velhice e a morte programada para que a transmissão dos genes mais felizes para a geração seguinte se traduza na evolução gradual da espécie. Se todos os seres fossem geneticamente iguais, a velhice não teria qualquer utilidade biológica. Foi portanto a invenção do sexo como forma mais eficaz de garantir a sobrevivência da espécie que implicou também a invenção da velhice. A velhice é portanto a Natureza a sacrificar o individuo pela evolução da espécie.

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Humanos da Terra

08.02.18

Humans of New York é um projeto do fotógrafo Brandon Staton que se iniciou em 2010 como um simples blogue de fotografia.  O seu objetivo foi o de fotografar pessoas que encontrava casualmente nas ruas de Nova York e colocar um breve texto sobre algo que essa pessoa considerasse dizer. Posteriormente Brandon Stanton alargou o projeto efetuando, com o patrocínio das Nações Unidas, séries especificas em outras geografias do mundo ou sobre temas específicos, como os refugiados, prisioneiros ou crianças com cancro. O projeto impressiona pela diversidade de estórias de vida, de problemas, ambições, irritações, de sentimentos ou simplesmente de formas de estar na vida. É uma lição valiosa sobre o valor intrínseco da diversidade humana. Mas também de que os problemas que nos afligem a todos são fundamentalmente os mesmos, para pessoas totalmente diferentes, na sua origem, na cultura, na religião, na sexualidade ou no seu nível de riqueza. Navegando por entre a beleza e a miséria da condição humana, Humans of New York ajuda a colocar em perspetiva os problemas de cada um de nós.

 

Para além do sitio de internet o projeto está disponível em várias plataformas e já deu origem a dois livros.

 

http://www.humansofnewyork.com/

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Nexologia

19.01.18

Afonso Cruz refere no seu livro "Jalan Jalan" que o autor de ficção cientifica A. E. Van Vogt construiu num dos seus livros uma personagem cuja profissão era a de nexologista. A função de um nexologista seria encontrar o sentido, a ordem, a direção, no caos dos acontecimentos aparentemente aleatórios. A  nexologia é assim a arte de esculpir um sentido no bloco bruto do absurdo que nos rodeia. Todos nós somos um pouco nexologistas amadores, tentamos racionalizar, simplificar, a realidade para que nos seja conpreensível. Mas há momentos em que o absurdo esmaga toda a nossa compreensão, e entendo bem a importâcia dos nexologistas profissionais de van Vogt.

 

Livro: Jalan Jalan, Afonso Cruz

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Final Feliz

09.01.18

O final feliz de qualquer história depende do momento onde decidimos terminar de a contar. Porque todas as histórias, incluindo a nossa, terminam mal. A grande sabedoria do final feliz está em saber onde parar. A dúvida que me tem assombrado estes dias é a seguinte: será que o meu final feliz já aconteceu?

 

Livro: Jalan Jalan, Afonso Cruz

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E Alfred Kazin escreveu no seu diário , 11 de Março de 1944: Deus é apenas o nome para o nosso deslumbramento.

 

Jalan Jalan, Afonso Cruz

 

Deus será também um nome para o deslumbramento, mas, primordialmente, Deus é nome para o medo. O medo da morte, o medo do sofrimento, o medo da perca, em resumo, o medo de ter medo. O medo é origem dessa característica única da nossa espécie animal, e que foi a origem do que verdadeiramente distingue a Humanidade do resto da criação: a capacidade de criar mentiras, a invulgar característica de conseguir pensar o que não existe.

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