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rua do imaginário

Porque existe algo em vez do nada?

Porque existe algo em vez do nada?

rua do imaginário

05
Ago20

Há doenças piores que as doenças

Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma, 
Mas que são dolorosas mais que as outras. 
Há angústias sonhadas mais reais 
Que as que a vida nos traz, há sensações 
Sentidas só com o imaginá-las 
Que são mais nossas do que a nossa vida. 
Há tanta cousa que, sem existir, 
Existe, existe demoradamente, 
E demoradamente é nossa, é nós… 
Por sobre o verdor turvo do amplo rio 
Os circunflexos brancos das gaivotas… 
Por sobre a alma o adejar inútil 
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo. 
 
Dá-me mais vinho, porque a vida é nada. 
 

Fernando Pessoa, 1935

 

29
Jul20

Distanciamento Social

O léxico que escolhemos utilizar não é inócuo. Pensamento e a linguagem são gémeos siameses, um e outro definem-se mutuamente e crescem entrelaçados. Com o início do desconfinamento (outra das palavras interessantes destes tempos) nasceu a expressão “novo normal” para caracterizar as rotinas de um regresso a uma vida “normal” mas diferente. O que seria crucial nesta fase de oportunidade (as crises são também uma oportunidade) seria construir novas regras de vida em sociedade que nos ajudem na real emergência que coloca em risco a vida desta e das próximas gerações e que esta geração tem a suprema responsabilidade de enfrentar: a emergência climática. O novo normal não pode ser igual ao antigo normal só que com máscara, álcool gel e medo, muito medo.

 

A expressão que marca este “novo normal” é o constante apelo ao “distanciamento social”. Ora, o distanciamento que é necessário para travar a pandemia é somente físico, não é social. O que se exige é que socialmente sejamos cada vez mais unidos. Distanciamento social significa distância sim, mas também desunião e indiferença. Não podemos olhar para o outro com medo, fugindo dele quando nos cruzamos na rua com receio da sua peçonha, entendendo a presença do outro como uma ameaça permanente sobre nós.

 

O que se deve temer é que, quando o distanciamento físico deixar de ser necessário, a cicatriz do distanciamento social que a pandemia está a alimentar se torne permanente. Uma sociedade egoísta e sem empatia, sendo que alguns impõem os seus medos a todos os outros. Será uma distopia pouco solidária e muito solitária, onde não se hesita em limitar liberdades, enclausurar os mais velhos e em abandonar os desfavorecidos ou os infelizes. Cada dia será viver num ambiente hostil, em território inimigo, rodeados por um veneno que, ao contrário deste vírus, é bem visível.  Uma sociedade fundada sobre um medo, um medo irracional, de nada nos serve.

 

21
Abr20

A húbris desconstruída

A sociedade dos países desenvolvidos vive na bolha da superioridade que a tecnologia lhe concede. Temos estações espaciais, manipulamos a genética de seres vivos, viajamos de um lado ao outro do planeta em poucas horas, temos no bolso acesso a conhecimento infinito, fabricamos máquinas absolutamente magnificas. Que mal é que a natureza ainda nos pode provocar?

 

Esta geração nasceu e vive com esta sensação de libertação das leis da natureza, com o orgulho da criatura que suplantou o criador, com a arrogância que quem dominou o medo e com a insolência de quem considera que tudo no mundo existe somente para seu usufruto.

 

Comportamo-nos como um imperador confiante na força dos seus exércitos e, no deslumbramento do nosso poder, desprezamos as ameaças. Os efeitos das alterações climáticas nunca foram minimamente levados a sério. Os alertas do desastre iminente não valeram o esforço de alterar o nosso estilo de vida, por pouco que fosse, pois acreditamos que, mais cedo ou mais tarde, de uma forma ou de outra, a nossa superioridade perante a natureza vai resolver problema.

 

Com a pandemia esta geração encontra algo de inédito: a natureza ameaça de forma grave o nosso estilo de vida e a ciência e tecnologia, por enquanto, de pouco nos podem valer. Esta situação fez surgir um medo, que é não apenas desta pandemia, mas um medo ancestral, mais profundo e mais denso. Para esta pandemia irá certamente surgir um medicamento ou uma vacina. Para os efeitos das alterações climáticas sobre a nossa vida não vai existir medicamento nem vacina. E este medo é o medo de voltar a ter medo, é o medo de descobrir que afinal há problemas que não conseguimos resolver, é o medo de viver novamente subjugado e de ter que renunciar à soberba. Afinal, não somos imunes ao que acontece na natureza. Afinal, a natureza consegue alterar de maneira radical os nossos hábitos mais básicos. Afinal, o imperador talvez tenha pés de barro.

30
Mar20

Emergências

Vivemos em duas situações de emergência: desde há cerca de duas semanas devido ao coronavirus, e outra, que já conhecemos há algumas décadas, de emergência climática. Se nada fizermos as alterações climáticas vão provocar muito mais morte e sofrimento que esta pandemia, mas foi este medo imediato da pandemia que fez a montanha mexer-se. Nas ameaças climáticas a espada pende sobre as próximas gerações, sobre os nossos filhos, os nossos netos e seus descendentes. Como sabemos que ao manter o nosso estilo de vida consumista estamos a roubar vida aos nossos filhos, alguma culpa inconsciente deverá residir em nós, enquanto sociedade. Para mim foi surpreendente a mudança imediata e drástica provocada pela pandemia. Provavelmente esta reação tão célere perante a pandemia seja também, em parte, fruto de um profundo sentimento de culpa pela inação egoísta perante uma ameaça mais grave à vida dos nossos filhos e gerações seguintes.

28
Mar20

O regresso ao normal

As ruas da cidade estão vazias. Para entrar no supermercado é preciso esperar numa fila esticada de seres humanos, a maioria  assustados, outros espantados. Mas o que mais impressiona é o silêncio das pessoas. Duvido sobre qual pandemia mais perigosa: se a provocada por um virus se a provocada por um medo. E que medo é este? De que profundidades subiu agora este medo à tona?

 

Será medo da doença ou da morte? A vida sempre foi muito frágil, é estranho que seja este o medo. Será medo de perder para sempre um estilo de vida? Ou será que esta pandemia foi tão somente a ignição que revelou um cansaço acumulado, um mal-estar latente de uma vida vivida em permanente desiquilibrio?  

 

Espera-se pelo regresso ao normal, mas creio que esse será o maior erro: o nosso anterior normal foi, também ele, parte do problema.

23
Mar20

Pandemia, os números que importam

Nestes dias de pandemia todos os dias somos inundados com números, como se tudo o que existe e o que não existe fosse possível de simplificar com uma estatística, até mesmo o novo silêncio das ruas vazias da cidade. É também nestes dias que mais precisamos dos poetas, para nos recordar que existem outros números bem mais importantes.

 

Em cem pessoas,

 

sabedoras de tudo melhor —

cinquenta e duas;

 

inseguras de cada passo —

quase todo o resto;

 

prontas para ajudar,

desde que não demore muito —

quarenta e nove;

 

sempre boas,

porque não conseguem de outra forma —

quatro, talvez cinco;

 

dispostas a admirar sem inveja —

dezoito;

 

constantemente receosas

de algo ou alguém —

setenta e sete;

 

aptas para a felicidade —

vinte e tal, quando muito;

 

individualmente inofensivas,

em grupo ameaçadoras —

mais de metade, com certeza;

 

cruéis, 

por força das circunstâncias —

é melhor não sabê-lo,

nem aproximadamente;

 

com trancas na porta depois da casa roubada —

quase tantas como

aquelas que as têm, antes da casa roubada;

 

não levando nada da vida a não ser coisas —

quarenta,

embora preferisse estar enganada;

 

agachadas, doloridas

e sem lanterna no escuro —

oitenta e três,

mais tarde ou mais cedo;

 

dignas de compaixão —

noventa e nove;

 

mortais —

cem em cem.

Número, até agora, não sujeito a alterações.

 

Wisława Szymborska, in Instante, tradução de Elżbieta Milewska e Sérgio Neves, Relógio D'Água

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