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rua do imaginário

Porque existe algo em vez do nada?

Porque existe algo em vez do nada?

rua do imaginário

21
Abr20

A húbris desconstruída

A sociedade dos países desenvolvidos vive na bolha da superioridade que a tecnologia lhe concede. Temos estações espaciais, manipulamos a genética de seres vivos, viajamos de um lado ao outro do planeta em poucas horas, temos no bolso acesso a conhecimento infinito, fabricamos máquinas absolutamente magnificas. Que mal é que a natureza ainda nos pode provocar?

 

Esta geração nasceu e vive com esta sensação de libertação das leis da natureza, com o orgulho da criatura que suplantou o criador, com a arrogância que quem dominou o medo e com a insolência de quem considera que tudo no mundo existe somente para seu usufruto.

 

Comportamo-nos como um imperador confiante na força dos seus exércitos e, no deslumbramento do nosso poder, desprezamos as ameaças. Os efeitos das alterações climáticas nunca foram minimamente levados a sério. Os alertas do desastre iminente não valeram o esforço de alterar o nosso estilo de vida, por pouco que fosse, pois acreditamos que, mais cedo ou mais tarde, de uma forma ou de outra, a nossa superioridade perante a natureza vai resolver problema.

 

Com a pandemia esta geração encontra algo de inédito: a natureza ameaça de forma grave o nosso estilo de vida e a ciência e tecnologia, por enquanto, de pouco nos podem valer. Esta situação fez surgir um medo, que é não apenas desta pandemia, mas um medo ancestral, mais profundo e mais denso. Para esta pandemia irá certamente surgir um medicamento ou uma vacina. Para os efeitos das alterações climáticas sobre a nossa vida não vai existir medicamento nem vacina. E este medo é o medo de voltar a ter medo, é o medo de descobrir que afinal há problemas que não conseguimos resolver, é o medo de viver novamente subjugado e de ter que renunciar à soberba. Afinal, não somos imunes ao que acontece na natureza. Afinal, a natureza consegue alterar de maneira radical os nossos hábitos mais básicos. Afinal, o imperador talvez tenha pés de barro.

30
Mar20

Emergências

Vivemos em duas situações de emergência: desde há cerca de duas semanas devido ao coronavirus, e outra, que já conhecemos há algumas décadas, de emergência climática. Se nada fizermos as alterações climáticas vão provocar muito mais morte e sofrimento que esta pandemia, mas foi este medo imediato da pandemia que fez a montanha mexer-se. Nas ameaças climáticas a espada pende sobre as próximas gerações, sobre os nossos filhos, os nossos netos e seus descendentes. Como sabemos que ao manter o nosso estilo de vida consumista estamos a roubar vida aos nossos filhos, alguma culpa inconsciente deverá residir em nós, enquanto sociedade. Para mim foi surpreendente a mudança imediata e drástica provocada pela pandemia. Provavelmente esta reação tão célere perante a pandemia seja também, em parte, fruto de um profundo sentimento de culpa pela inação egoísta perante uma ameaça mais grave à vida dos nossos filhos e gerações seguintes.

28
Mar20

O regresso ao normal

As ruas da cidade estão vazias. Para entrar no supermercado é preciso esperar numa fila esticada de seres humanos, a maioria  assustados, outros espantados. Mas o que mais impressiona é o silêncio das pessoas. Duvido sobre qual pandemia mais perigosa: se a provocada por um virus se a provocada por um medo. E que medo é este? De que profundidades subiu agora este medo à tona?

 

Será medo da doença ou da morte? A vida sempre foi muito frágil, é estranho que seja este o medo. Será medo de perder para sempre um estilo de vida? Ou será que esta pandemia foi tão somente a ignição que revelou um cansaço acumulado, um mal-estar latente de uma vida vivida em permanente desiquilibrio?  

 

Espera-se pelo regresso ao normal, mas creio que esse será o maior erro: o nosso anterior normal foi, também ele, parte do problema.

23
Mar20

Pandemia, os números que importam

Nestes dias de pandemia todos os dias somos inundados com números, como se tudo o que existe e o que não existe fosse possível de simplificar com uma estatística, até mesmo o novo silêncio das ruas vazias da cidade. É também nestes dias que mais precisamos dos poetas, para nos recordar que existem outros números bem mais importantes.

 

Em cem pessoas,

 

sabedoras de tudo melhor —

cinquenta e duas;

 

inseguras de cada passo —

quase todo o resto;

 

prontas para ajudar,

desde que não demore muito —

quarenta e nove;

 

sempre boas,

porque não conseguem de outra forma —

quatro, talvez cinco;

 

dispostas a admirar sem inveja —

dezoito;

 

constantemente receosas

de algo ou alguém —

setenta e sete;

 

aptas para a felicidade —

vinte e tal, quando muito;

 

individualmente inofensivas,

em grupo ameaçadoras —

mais de metade, com certeza;

 

cruéis, 

por força das circunstâncias —

é melhor não sabê-lo,

nem aproximadamente;

 

com trancas na porta depois da casa roubada —

quase tantas como

aquelas que as têm, antes da casa roubada;

 

não levando nada da vida a não ser coisas —

quarenta,

embora preferisse estar enganada;

 

agachadas, doloridas

e sem lanterna no escuro —

oitenta e três,

mais tarde ou mais cedo;

 

dignas de compaixão —

noventa e nove;

 

mortais —

cem em cem.

Número, até agora, não sujeito a alterações.

 

Wisława Szymborska, in Instante, tradução de Elżbieta Milewska e Sérgio Neves, Relógio D'Água

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