Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

rua do imaginário

Porque existe algo em vez do nada?

Porque existe algo em vez do nada?

rua do imaginário

05
Ago20

Há doenças piores que as doenças

Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma, 
Mas que são dolorosas mais que as outras. 
Há angústias sonhadas mais reais 
Que as que a vida nos traz, há sensações 
Sentidas só com o imaginá-las 
Que são mais nossas do que a nossa vida. 
Há tanta cousa que, sem existir, 
Existe, existe demoradamente, 
E demoradamente é nossa, é nós… 
Por sobre o verdor turvo do amplo rio 
Os circunflexos brancos das gaivotas… 
Por sobre a alma o adejar inútil 
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo. 
 
Dá-me mais vinho, porque a vida é nada. 
 

Fernando Pessoa, 1935

 

23
Mar20

Pandemia, os números que importam

Nestes dias de pandemia todos os dias somos inundados com números, como se tudo o que existe e o que não existe fosse possível de simplificar com uma estatística, até mesmo o novo silêncio das ruas vazias da cidade. É também nestes dias que mais precisamos dos poetas, para nos recordar que existem outros números bem mais importantes.

 

Em cem pessoas,

 

sabedoras de tudo melhor —

cinquenta e duas;

 

inseguras de cada passo —

quase todo o resto;

 

prontas para ajudar,

desde que não demore muito —

quarenta e nove;

 

sempre boas,

porque não conseguem de outra forma —

quatro, talvez cinco;

 

dispostas a admirar sem inveja —

dezoito;

 

constantemente receosas

de algo ou alguém —

setenta e sete;

 

aptas para a felicidade —

vinte e tal, quando muito;

 

individualmente inofensivas,

em grupo ameaçadoras —

mais de metade, com certeza;

 

cruéis, 

por força das circunstâncias —

é melhor não sabê-lo,

nem aproximadamente;

 

com trancas na porta depois da casa roubada —

quase tantas como

aquelas que as têm, antes da casa roubada;

 

não levando nada da vida a não ser coisas —

quarenta,

embora preferisse estar enganada;

 

agachadas, doloridas

e sem lanterna no escuro —

oitenta e três,

mais tarde ou mais cedo;

 

dignas de compaixão —

noventa e nove;

 

mortais —

cem em cem.

Número, até agora, não sujeito a alterações.

 

Wisława Szymborska, in Instante, tradução de Elżbieta Milewska e Sérgio Neves, Relógio D'Água

24
Fev20

O tempo não existe, somos nós que o fazemos

 

Pois não era mais humano

morrer por um bocadinho,

de vez em quando,

e recomeçar depois,

achando tudo mais novo?

José Gomes Ferreira, Viver sempre também cansa!, 1931

 

Nada nos é tão precioso nem tão íntimo como o tempo, o nosso tempo, neste instante de existência perdido na eternidade. Para se ser feliz tudo o que é preciso é estar em paz com o tempo, essa criação individual, essa ilusão íntima criada para unir um fluir de eventos. Não existe nenhum pêndulo Universal a impor-nos o ritmo do tempo, esse ritmo é só nosso e é único.

 

A previsibilidade das nossas rotinas de vida, a repetição de horários, a ausência de surpresa e a habituação ao que nos acontece, tudo isto contribui para aumentar a sensação de velocidade com que o nosso tempo passa. Quando estamos num ambiente diferente do habitual, numa viagem, numa experiência nova, perante o que nunca experimentámos, do inesperado temos a noção de que o tempo passa mais devagar. A nossa mente está a absorver o que nos rodeia e temos a clara sensação de que o tempo decorre mais lentamente.

 

Será então solução evitar as rotinas? Receio que seria tarefa impossível. Porque a rotina é também ela uma criação da nossa mente. A ausência de rotina vai ser ela própria uma rotina, quer queiramos quer não, mais cedo ou mais tarde.

 

Como travar a velocidade do tempo? Morrer um bocadinho de vez em quando para depois achar tudo mais novo, como escreve o poeta, não nos é possível. Mas é possível estar focado no presente e mantermos a mente admirada com tudo o que nos rodeia. Estar grato por cada segundo em que estamos vivos. Olhar para o mundo com os olhos de uma criança, espantados com o que nos rodeia, com a beleza que há em tudo. É tão fácil manter um sentimento do maravilhoso perante o Universo. Em tudo há beleza e mistério se estivermos dispostos a reparar nisso. Só a sabedoria de manter uma alma espantada perante o mundo nos pode salvar da voragem alucinante do tempo.

 

22
Jun19

Na hora de pôr a mesa

Na hora de pôr a mesa, éramos cinco: 
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs 
e eu. depois, a minha irmã mais velha 
casou-se. depois, a minha irmã mais nova 
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje, 
na hora de pôr a mesa, somos cinco, 
menos a minha irmã mais velha que está 
na casa dela, menos a minha irmã mais 
nova que está na casa dela, menos o meu 
pai, menos a minha mãe viúva. cada um 
deles é um lugar vazio nesta mesa onde 
como sozinho. mas irão estar sempre aqui. 
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco. 
enquanto um de nós estiver vivo, seremos 
sempre cinco. 

José Luís Peixoto, 'A Criança em Ruínas' 
26
Abr19

Dia da Liberdade

 

pensei 
que a liberdade vinha com a idade
depois pensei
que a liberdade vinha com o tempo 
depois pensei 
que a liberdade vinha com o dinheiro
depois pensei 
que a liberdade vinha com o poder
depois percebi 
que a liberdade não vem
não é coisa que lhe aconteça
terei sempre de ir eu


Sónia Balacó

24
Abr19

A Mulher Mais Bonita do Mundo

 

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram 
flores novas na terra do jardim, quero dizer 
que estás bonita. 

entro na casa, entro no quarto, abro o armário, 
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio 
de ouro. 

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como 
se tocasse a pele do teu pescoço. 

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim. 

estás tão bonita hoje. 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

estás dentro de algo que está dentro de todas as 
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever 
a beleza. 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

de encontro ao silêncio, dentro do mundo, 
estás tão bonita é aquilo que quero dizer. 

 

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão" 

01
Mar19

Na tua ausência

 

Se não tivesse descansado no teu ombro

Não sentiria hoje este vazio

Ao aconchegar-me sobre a tua ausência

 

Se não tivesse sentido o teu calor

Não sentiria hoje este frio

Quando durmo abraçado à tua ausência

 

Se não tivesse conhecido o teu abraço

Não sentiria hoje esta solidão

Na companhia da tua ausência

 

Links

  •  
  • Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D

    Subscrever por e-mail

    A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.