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rua do imaginário

Porque existe algo em vez do nada?

Porque existe algo em vez do nada?

rua do imaginário

20
Out21

Transalgarve

A noite foi quente no alojamento de Silves, apenas suavizada pelo sopro de uma pequena ventoinha, que pouco conseguiu fazer para amenizar a temperatura, mas a manhã estava luminosa e fresca.  Um refrescante pequeno almoço na bonita Praça do Município, junto do pelourinho e das magníficas portas da cidade, serviu na perfeição para recuperar do cansaço provocado pelo calor tórrido do dia anterior. Depois de colocada a bagagem na mota, partimos para o nosso objetivo do dia: percorrer a estrada N124 e chegar a Alcoutim, junto ao Guadiana e já na fronteira com Espanha. A estrada N124, tal como a famosa N125 que no litoral e de forma confusa, fumarenta, barulhenta, repleta de rotundas e semáforos, atravessa longitudinalmente o Algarve, só que esta fá-lo pelo interior, sempre algo hesitante entre a serra e a planície. São estradas irmãs, mas enquanto a N125 só pode ser um pesadelo a N124 tem tudo para ser um sonho.

 

Na parte inicial do nosso percurso, ainda no barlavento algarvio, a N124 é ladeada por enormes plantações agrícolas, geralmente árvores de fruto, maioritamente laranjeiras que produzem a famosa laranja do Algarve. Depois de São Bartolomeu de Messines, Alte, Benafim e Salir são as principais povoações algarvias que atravessamos neste trecho da estrada, nomes que nos remetem novamente para a forte herança árabe destes territórios. Estamos em pleno barrocal algarvio, paisagem encravada entre as elevações da serra Algarvia e a planície litoral.

 

Conforme vão decorrendo o quilómetros as povoações tornam-se escassas e o percurso começa a adentrar-se na zona montanhosa da serra do Caldeirão. Agora a estrada enche-se de curvas, a paisagem de verde e torna-se um verdadeiro prazer conduzir por aqui. Na localidade de Barranco Velho a estrada N124 cruza-se com a nossa conhecida do dia anterior, a N2. E é a partir daqui que a N124 perde o definitivamente o medo da serra e se lança decidida sobre a geografia de montanha do Caldeirão, infletido o seu percuro para nordeste. Até Martinlongo esta estrada é um percurso de montanha muito belo, a serpentear entre paisagens verdejantes e com raras e quase abandonadas povoações.

 

Já próximo de Alcoutim, quando deixamos a serra e retomamos novamente a planície, temos oportunidade de conhecer a mais moderna produção destes terrenos algarvios: as estações solares de produção de energia eléctrica. Centenas de hectares preenchidos com milhares de paineis solares que, quais enormes girassóis mecânicos, acompanham o Sol num movimento lento, suave e sincronizado. Nos próximos dias este mosaico de painéis escuros e brilhantes, esta agricultura elétrica, será várias vezes nossa companhia na paisagem, o que demonstra que é um negócio a florescer por estes terrenos. Entre o abandono e a produção de energia verde, até parece ser uma boa utilização para estas desertas planuras ensolaradas.

 

Chegamos a Alcoutim ainda antes de almoço. Durante a viagem transalgarvia apenas sentimos necessidade de parar por alguns minutos numa pequena zona de descanso com vista para as montanhas. Estava assim percorrida a estrada N124, que deixou saudades. Estamos agora nas margens do Guadiana, com Espanha na outra margem. Dirigimo-nos de imediato ao hotel, mesmo junto ao rio, e enquanto aguardamos que o quarto estivesse disponível almoçamos no restaurante do hotel umas agradáveis saladas, os únicos pratos vegetarianos aqui disponíveis.

 

Depois de algum tempo de descanso no hotel durante as horas de maior calor, voltamos a montar na mota e percorremos a estrada M507, que acompanha a margem direita do Guadiana, em direção a Sul até Foz de Odeleite. Uma estrada bonita que serpenteia como o rio e com este sempre à vista. Nestas paragens o Guadiana é um rio largo e tranquilo, e por esta altura pontilhado por dezenas de pequenos veleiros, uns a subir desde a foz em Vila Real de Santo António, outros a regressar em direção ao mar e muitos outros simplesmente ancorados ao longo do rio. A partir da Foz de Odeleite a estrada afasta-se das margens e deixa de ser a companhia do Guadiana. Fazemos aí meia-volta e regressamos pelo mesmo caminho, mas sem antes  pararmos para uma pausa na povoação com o poético nome de Guerreiros do Rio, onde numa esplanada mesmo junto ao rio foi possível petiscar e beber algo refrescante num fim de tarde maravilhoso.

 

O jantar foi numa esplanada no centro de Alcoutim. Por falta de opções vegetarianas o recurso foram uns petiscos e umas pizzas, e a refeição acabou por ser bastante agradável, numa bela noite de calor suave.  A esplanada estava localizada junto ao rio e mesmo em frente da localidade de Sanlúcar do Guadiana, a vizinha espanhola de Alcoutim na margem esquerda do rio. Uma localidade que, vista deste lado do rio, se mostra impecavelmente branca, com uma hamonia fabulosa com a paisagem, o casario a subir do rio e encaixado nos suaves vales das colinas na margem. Com o cair da noite acendem-se as luzes e este pueblo blanco transformou-se agora num maravilhoso presépio ribeirinho. Soam as badaladas na igreja de Sanlúcar, com uma badalada extra à hora que faz deste lado do rio. Felizmente que os sinos da igreja de Alcoutim não repicaram também, senão a confusão de badaladas e horários seria grande em ambas as margens. Apenas alguns metros de rio separam as duas povoações, e os dois fusos horários, mas mais que separar, aqui o Guadiana une, pois barqueiros garantem o transporte constante de passageiros entre as duas margens, fazendo em poucos segundos o que por estrada é uma viagem de quase 80 quilómetros. O rio Guadiana será nossa companhia quase constante nos próximos dias, em que vamos iniciar, rumo a norte, um percurso que nunca nos afastará muito das margens deste rio tão singular, que sabe ser, em pouca distância, largo e tranquilo, estreito e revolto e, ainda que pela intervenção do Homem, um enorme lago azul.

 

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Serra do Caldeirão, pela N124

 

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Rio Guadiana, entre Alcoutim e Foz de Odeleite

 

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Sanlúcar do Guadiana, vista de Alcoutim

 

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